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O homem comunitário

por The Observer — publicado 03/10/2011 10h13, última modificação 03/10/2011 16h33
Na minúscula Plains, Jimmy Carter dividi-se entre os assuntos da vizinhança e os grandes temas da política mundial

Por Carole Cadwalladr, para o The Observer

Onde mora Jimmy Carter? Bem, feche os olhos e imagine o tipo de casa em que um ex-presidente dos Estados Unidos poderia morar. Uma residência adequada ao antigo líder do país mais poderoso da Terra. Imaginou? Certo, agora a apague da sua mente e imagine o tipo de casa onde um contador moderadamente bem-sucedido e sua família poderiam morar. É o que nos Estados Unidos chamam de “casa de fazenda” ou na Inglaterra de “bangalô”. Não tem pórtico. Nem colunas. Nem amplos gramados. Há apenas uma pequena estrutura térrea que Jimmy e sua mulher, Rosalynn, construíram na Woodland Drive, em 1961, quando ele era um plantador de amendoim e ela, a mulher de um plantador de amendoim, bem no centro da cidade onde eles cresceram. Mas Plains, na Geórgia (Sul dos EUA), quase não é uma cidade. Uma rua talvez fosse uma descrição mais precisa. Uma única rua que não leva a lugar nenhum, exatamente.

Na frente da casa há uma frota de Suburbans pretos, veículos enormes com vidros escuros: não muitos contadores teriam uma equipe de agentes do serviço secreto no local, é verdade. Mas é difícil exagerar o quanto ela é modesta. Não é muito exagero dizer que a coisa toda caberia confortavelmente na sala de estar de uma das nove casas de Tony e Cherie Blair.

Se você tem menos de 40 anos, talvez não se lembre de Jimmy Carter. Mas pode se lembrar do presidente Bartlet. Da Ala Oeste. Quando eu converso com Phil Wise, vice-presidente do Centro Carter, a fundação que Carter criou depois de deixar a Presidência, ele lembra-me de que Martin Sheen baseou seu personagem parcialmente em Carter. Wise era vizinho dos Carter na infância, e como estudante na faculdade foi voluntário na campanha para governador, ao lado de Chip, o filho do meio. Ele trabalhou na campanha presidencial “como o mais jovem furão” e terminou na Casa Branca como secretário de compromissos de Carter. (Seu personagem em Ala Oeste? “O afro-americano que fica sentado à porta do gabinete do presidente.”)

Carter realmente era como o presidente Bartlet?, pergunto a Wise enquanto dirigimos do Centro Carter, em Atlanta, para Plains, rodando pelo extenso campo da Geórgia, passando por placas de restaurantes de bagres e igrejas que nos dizem para “sair do Facebook e entrar no God’s book”, o livro de Deus. Ele considera a questão seriamente: “Ambos eram ex-governadores. Ambos podiam ser muito teimosos e ambos tinham certo tom moral”. E conclui: “Havia muito de Carter no personagem”.

Na Grã-Bretanha, supomos que um político tão honesto, tão puro, só poderia ser fictício, e o escândalo das despesas apenas reforçou isso. Mas tudo sobre a vida de Jimmy Carter, o que ele fez como presidente e o que ele fez a partir daí, comprovou aquele “certo tom moral”. E sua casa de certa forma resume isso. No interior, não há hall de entrada, apenas um tapete a separar uma pequena sala de jantar de uma pequena sala de estar. Então, de repente, lá está Jimmy.

Aqui entre nós, ele ainda é o senhor presidente, mas é difícil dar ao cargo sua verdadeira gravidade no que parece a sala de estar da minha mãe. E existe uma qualidade simples e caseira nele que lembra aquele outro grande Jimmy, o santo patrono da vida no interior dos EUA: Jimmy Stewart. Carter fará 87 anos em outubro e recupera-se da substituição dos dois joe-lhos -feita neste verão, mas o sorriso radiante que cativou a América continua lá. Embora seja um terrível clichê, para não mencionar condescendente e preconceituoso, descrever qualquer octogenário como “reluzente”, ele inegavelmente o é.

Ele me conduz devagar para a sala da família, no fundo da casa. Fotos dos filhos, netos e bisnetos forram as paredes, e uma velha manta cobre o sofá ainda mais velho. Mary, a empregada que está com a família há mais de 40 anos, traz café para Carter em uma xícara plástica, tão velha que o logotipo “Royal Caribbean” estampado nela desbotou quase completamente. (Mary veio trabalhar na mansão do governador como uma assassina condenada no dia de sua libertação, e, que tal isto para viver sua crenças liberais?, os Carter lhe pediram para cuidar de sua filha de 3 anos, Amy.)

É um lugar pequeno, Plains, a duas horas e meia de carro de Atlanta, mas nunca houve qualquer dúvida de que Jimmy e Rosalynn voltariam para casa. “Oh, não. Nunca. Meus parentes moram aqui desde 1860. E os parentes de Rosalynn, desde 1830, por isso nossas famílias estão envolvidas na comunidade de Plains há muito tempo. Nossa terra é aqui, nossas igrejas estão aqui, as escolas que frequentamos estão aqui. Temos toda uma vida aqui. Não importa o que façamos ao redor do mundo, e hoje temos programas em cerca de 70 países, podemos trabalhar aqui, tão facilmente quanto em qualquer lugar. Este é o lugar para onde sempre voltamos.”

Era ainda mais uma Sibéria política na era pré-internet de 1981, quando eles voltaram depois que Carter foi derrotado por Ronald Reagan. Wise veio com eles como chefe de gabinete. Ele lembra: “Fiquei horrorizado quando eles disseram que iam voltar para casa. Eu teria de morar de novo com meus pais. Pensei que ao menos eles iriam para Atlanta”. Trinta anos depois, os Carter continuam incrivelmente envolvidos com a cidade.

Eu fico na Plains Inn, uma agência fúnebre transformada em hotel e decorada por Rosalynn a pedido dos Carter alguns anos atrás. Um de meus colegas hóspedes trabalha para o serviço nacional de parques na casa da infância de Carter, hoje um museu, e me diz que o casal ainda passa por lá para colher legumes na horta. E quase todos os domingos Jimmy caminha até a Igreja Batista Maranata para ensinar na escola dominical.

Na sala da família Carter há um livro Harry Potter sobre a mesa de centro. No Natal, eles vão levar toda a família para o Mundo Mágico de Harry Potter na Universal Studios, na Flórida, “por isso achei melhor conhecer Harry Potter primeiro”, ele diz. Carter nunca foi do tipo de enrolar na lição de casa. Wise me conta: “Durante toda a minha vida, eu só consegui lhe contar uma coisa que ele ainda não soubesse. Eu lhe disse que na Segunda Guerra Mundial os japoneses tentaram desenvolver um avião dobrável, e ele disse: ‘Eu não sabia’. E juro que foi a única vez em que isso aconteceu”.

Os primeiros anos de Jimmy na fazenda da família, bem próxima a Plains, coloriram toda a sua vida. Como menino durante a Grande Depressão, ele lembra, “enxurradas de desempregados, que nós chamávamos de hobos, caminhavam de um lado para outro na frente de nossa casa, junto à estrada de ferro”. Ainda mais importante, era uma comunidade de maioria negra. “Eu aprendi em primeira mão sobre a privação de brancos e negros vivendo em uma comunidade segregada, o que na época absolutamente não se contestava.” Exceto pela mãe dele. Graças ao liberalismo dela, todos os primeiros companheiros de brincadeiras de Jimmy foram negros.

A política nunca esteve no programa. Ele insiste nisso, e quando Rosalynn se junta a nós ela se espanta com a ideia de que ele tivesse algum desejo de ser presidente quando se casaram.

“Oh, não. Eu pensava que ele ficaria na Marinha, e eu seria uma ‘esposa naval’. E ele também pensava isso.”

O que você teria feito se soubesse?

“Eu teria achado extremamente excitante”, ela diz.

“Mas ridículo”, ele interpõe.

“Mas, totalmente ridículo”, ela concorda.

Eles não são um casal, pode-se perceber, que se esquive de declarar verdades cruas. Ela é quatro anos mais moça que o marido, e sua equivalente em energia incontível. Até que as operações no joelho o impedissem temporariamente, ele nadava “ao menos” 40 piscinas por dia. E ela faz 4 quilômetros ao redor da propriedade em um triciclo. Eles viajam pelo mundo inteiro. E Peggy, que trabalha no Centro Carter, em Plains, me conta: “Todos os minutos do dia são agendados. Eles fazem que nós, meros mortais, pareçamos preguiçosos”.

Eles também são – de modo surpreendente, já que acabam de comemorar o 65º aniversário de casamento – tão melosos um com o outro quanto dois pombinhos apaixonados. Todo mundo me diz isso. Wise, quatro empregados do Centro Carter, um homem em uma loja em Plains. E os próprios Jimmy e Rosalynn. “Eles ficam de mãos dadas o tempo todo”, diz Kelly Callahan, diretora-assistente do programa de saúde do Centro Carter. “Eles são tão bonitinhos. É incrível. Fazem tudo juntos. Vêm a todas as reuniões de pessoal e ele sempre diz: ‘Esqueci alguma coisa, Rosalynn?’”

A história da ascensão de Jimmy Carter ao poder ainda é extraordinária, 35 anos depois. Ele realmente é um homem que saiu do nada. O que foi, pergunto a Rosalynn, que lhe permitiu alcançar o cargo mais alto do mundo?

“Bem, ele foi eleito governador depois de uma longa campanha”, ela começa.

Ele a interrompe: “Mas o que você acha que me impeliu de Plains para a Casa Branca?”

“Bem, antes de ser governador você não sonhava em ser presidente, eu acho.” E ela continua nessa linha até que ele a interrompe de novo.

“Estou interessado em ouvir sua resposta para a pergunta que ela fez”, ele diz. E realmente está. Ele fica intrigado, antevendo a possível resposta. Eu tenho a sensação de que ela não é alguém que faça elogios descuidados. Depois que reformulo a frase, Rosalynn responde: “Bem, eu acho que ele sempre procurou alguma coisa a mais para fazer. Na Marinha ele sempre conseguia o melhor emprego e sempre ia um passo acima, e depois mais um passo. E acho que é de sua natureza ser aventureiro. Ele sempre disse: ‘Se você não experimentar uma coisa, não terá sucesso’. Por isso nunca teve medo do fracasso”. Não é o mais brilhante dos elogios, podemos considerar, mas ele parece satisfeito.

A coisa que você precisa lembrar sobre Jimmy Carter, explica Steven Hochman, professor em Jefferson que trabalhou com ele nos últimos 30 anos ajudando a pesquisar seus livros, é que ele é um resolvedor de problemas por natureza. “Ele é muito independente. Quando você cresce em uma fazenda, tem de fazer as coisas por si mesmo. Quando algum problema aparece, ele está acostumado a resolvê-lo. Seu pai faria isso. Ele faria isso.”

O jovem Jimmy estudou engenharia na Academia Naval dos EUA, em Annapolis, e ainda hoje é atraído por problemas práticos que acredita poder solucionar. O Centro Carter, a fundação que ele e Rosalynn montaram para promover e defender os direitos humanos, trabalha silenciosamente para erradicar algumas das doen-ças mais terríveis do mundo. O verme da Guiné, um parasita debilitante, afetava 3,5 milhões de pessoas em todo o mundo quando o Centro Carter decidiu tentar erradicá-lo. No ano passado havia apenas 1.797 casos, a maioria no Sudão do Sul, e parece que será apenas a segunda doença eliminada na história (depois da varíola). Também em sua lista de sucessos estão a cegueira do rio, o tracoma e a filaríase linfática, também conhecida como elefantíase-. Como parte de seus esforços de direitos humanos, eles monitoram as eleições em alguns dos recantos mais conturbados do mundo. “Nosso princípio básico, que nos moldou desde a fundação, é que não vamos duplicar o que outras pessoas já fazem”, diz Carter. “Se o Banco Mundial ou a Universidade Harvard, ou seja quem for, estiver cuidando adequadamente de um problema, não nos envolveremos. Apenas tentamos preencher o vazio onde as pessoas não querem fazer nada.”

Carter viaja para os lugares mais conturbados do mundo como parte de seu trabalho para The Elders (os idosos), um grupo de estadistas (os cruzados da solução de conflitos) liderados por Nelson Mandela. Em abril, esteve na Coreia do Norte, tentando mais uma vez negociar um acordo para seu programa nuclear, como fez com sucesso em 1994, quando convenceu Kim Il-Sung a aceitar um congelamento das armas nucleares. E neste outono estará no Haiti, no apoio à construção de cem casas, com voluntários da Habitat for Humanity, algo que ele fez em cada um dos últimos 30 anos. Ele foi pioneiro em um modelo de ativismo pós-presidencial, que Bill Clinton (ou mesmo ex-executivos-chefes como Bill Gates) se esforça para imitar. E, em 2002, recebeu o reconhecimento máximo por isso: o Prêmio Nobel da Paz.

Jimmy Carter encarou sua carreira com todo o pragmatismo de um homem prático e a moralidade profunda de um religioso. A política americana é cada vez mais dominada pelo que se chama de direita religiosa, conservadores que compartilham uma visão de mundo anticientífica, que tratam a evolução como uma teoria herética e o atendimento de saúde universal como socialismo perigoso. Mas Carter era da esquerda religiosa, uma fera muito diferente. Ele tem uma fé profunda, enraizada em sua educação batista. A política não foi tanto uma opção de vida que ele fez quanto o apogeu de uma série de eventos. “Eu fui o presidente do conselho de educação, e estava preocupado com o sistema escolar público”, ele diz. “Servi como governador por tanto tempo quanto a Constituição permitia, e depois disso me candidatei a presidente em 1975. Como você provavelmente sabe, fui eleito.”

Tradução: Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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