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O Hezbollah chega perto

por Gianni Carta publicado 02/02/2011 09h34, última modificação 25/10/2011 11h52
O partido xiita apoia o novo premier, Najib Mikati, que se apresenta como conciliador. Por Gianni Carta, de Beirute. Foto: Notimex/AFP
O Hezbollah chega perto

O partido xiita apoia o novo premier, Najib Mikati, que se apresenta como conciliador. Por Gianni Carta, de Beirute. Foto: Notimex/AFP

O partido xiita apoia o novo premier, Najib Mikati, que se apresenta como conciliador

Exército nas ruas, incêndios, um veículo da rede de tevê Al-Jazira queimado. No início desta semana, as manifestações lideradas por partidários de Saad Hariri, o primeiro-ministro sunita deposto na quarta-feira 12, quando 11 ministros do movimento xiita Hezbollah renunciaram aos seus cargos, pareciam anunciar mais uma crise política. E, por tabela, eram esperadas ondas de violência neste mosaico de religiões e comunidades inúmeras vezes destruído e reconstruído por causa de violentos conflitos.
Dividido entre Ocidente e Oriente, o Líbano é de grande importância geopolítica porque o que acontece aqui tem repercussões no Oriente Médio e no mundo afora. Ademais, o Hezbollah, financiado pelo Irã e pela Síria, atualmente domina o tablado político do Líbano. Para os Estados Unidos, Parlamento Europeu e Nações Unidas, o Hezbollah é uma formação terrorista.
Na manhã de quinta-feira 27, após dias de manifestações, Beirute parecia estável, pelo menos do ponto de vista político. Sentada a uma mesa no Grand Café, ao lado do Parlamento, Alia, vendedora de 26 anos de uma das lojas do majestoso centro da capital entrecortado por minaretes, repete a frase proferida à exaustão por manifestantes pró-Hariri: “O Hez-bollah deu um golpe de Estado”. A análise de Abou Dib, do diário L’Orient Le Jour, é mais sutil. Segundo o editorialista, “os dados do Hezbollah não estavam viciados”. As regras do jogo, isso sim, “foram perversas”. Há, porém, quem seja favorável à chegada do Hezbollah ao poder. George Jarjour, dono de uma mercearia de 30 anos, me diz: “Hariri é um bilionário que estava mais preocupado em defender sua fortuna”. O Hezbollah tem implementado serviços sociais e de saúde, continua Jarjour. “E estou certo de que dará maior atenção para os problemas do povo.”
Para recapitular,  os ministros xiitas renunciaram com o objetivo de fazer naufragar o governo de Hariri. Motivo: o Hez-bollah não conseguiu convencer o então premier de 40 anos a rejeitar as investigações do Tribunal Internacional no Líbano (TIL), em Haia. A Corte das Nações Unidas realiza um inquérito sobre os culpados pelas mortes do pai de Hariri, o ex-premier Rafik, e mais 22 pessoas, em fevereiro de 2005. O Hezbollah, também conhecido como Hezb, ou Partido de Deus, reivindica as cessações da cooperação assinada pelo governo libanês com o TIL e do financiamento da instituição. E exige o retorno de magistrados libaneses.
Para vários críticos, os motivos a levar o Hezbollah a romper com o TIL são claros. Segundo vazamentos do inquérito do TIL, integrantes do Hezbollah teriam sido os responsáveis pela explosão de um caminhão que provocou a morte de Rafik Hariri. Aconteceu no centro de Beirute. Mas, para Hassan Nasrallah, -líder do Hezbollah, o tribunal faz parte de um complô dos Estados Unidos e de Israel para desestabilizar o Líbano.
De fato, vários entrevistados por esta reportagem deram razão a Nasrallah. “Para muita gente, ONU quer dizer Estados Unidos – e Washington quer é colocar um fim no Hezbollah”, argumentou Enass, um especialista de informática de 42 anos. Os EUA, é importante sublinhar, baniram o Hezbollah nos anos 80 por causa de uma onda de sequestros, e ao ataque (1983) contra uma caserna americana no Líbano. No início da década de 90, o grupo xiita atacou, em Buenos Aires, a embaixada israelense e um centro cultural judaico.
Hillary Clinton, a secretária de Estado dos EUA, afirmou que os libaneses, e não estrangeiros, devem decidir o futuro de seu país. Seu pronunciamento, claro, tem duplo sentido: Hillary quis mandar o recado de que a participação na política libanesa do Irã e da Síria seria inaceitável. E, claro, a visita do presidente iraniano Mahmoud Ahmadinejad a Beirute, em outubro, no mínimo inquietou Washington.
Formado e influenciado desde 1982 pelo Irã, o Hezbollah tem recebido de Teerã cada vez maior fluxo de armas. A posição dominante do Hezbollah num governo libanês poderia precipitar um confronto com Israel. Por outro lado, Israel poderia querer atacar o Líbano, como já o fez uma caterva de vezes. Nasrallah, vale expressar, tem discorrido sobre a iminência de uma agressão de Israel contra o Líbano. E, segundo o diário Asharq Al-Awsat, o ex-ministro francês do Exterior Bernard Kouchner recentemente confirmou a possibilidade de uma possível agressão israelense.
Quanto ao líder do Hezbollah, ele é temido e respeitado por ter liderado a defesa do Líbano durante a invasão israelense, em julho de 2006. Mas Nasrallah também é um tanto desestabilizador. Ano passado, lançou, por exemplo, a seguinte ameaça: estaria disposto a “cortar as mãos” de quem ousasse prender integrantes de seu movimento. Movimento, ele martela em entrevistas, de resistência – e não reconhece Israel.
Nesse quadro turbulento, há esperança. O novo premier Najib Mikati, um bilionário sunita de 55 anos, se diz um conciliador. Supõe-se que ele terá algum controle sobre a política exterior do país. Após a demissão dos ministros do Hezbollah na quarta-feira 12, 68 dos 128 deputados apoiaram o candidato preferido pelo partido xiita para o cargo de primeiro-ministro. Foi definitivo para a vitória de Mikati o voto que lhe foi conferido pelo líder da comunidade drusa Walid Jumblatt, do Partido Socialista Progressista. Jumblatt era leal e ardente seguidor de Hariri. Numa coletiva à imprensa disse ter apoiado o Hezbollah por causa de “ameaças contra a união e a segurança nacionais”. Segundo o sistema político libanês, o presidente tem de ser um maronita, o premier, sunita, e o presidente do Parlamento, xiita.
Encarregado pelo presidente cristão maronita Michel Suleiman para formar um novo governo, Mikati disse: “Minha nomeação não é uma vitória de um campo sobre outro”. E acrescentou: “É a vitória da reconciliação por causa de divergências”. Mikati, cuja fortuna foi avaliada em 2,5 bilhões de dólares pela revista Forbes, alega querer formar um “governo de parceria nacional”. Mas essa parceria terá seus limites. Mikati passou, por exemplo, efêmeros dois minutos num encontro protocolar com Hariri. Os dois nem sequer se olharam nos olhos, e não houve pronunciamentos sobre o encontro relâmpago para a mídia. Mas é provável que próximos de Hariri aceitem cargos oferecidos por Mikati.
Para Hariri, Mikati é, co mo Jumblatt, outro “vira-casaca”. Era deputado da aliança de Hariri, 14 de Março, nome a celebrar uma demonstração anti-Síria. Em entrevista exclusiva para o diário The New York Times, Hariri diz se sentir “traído”. Segundo Hariri, “aqueles que mataram Rafik Hariri em 2005 não querem Saad Hariri no poder”. E acrescentou: “O que acontece hoje é aquilo iniciado em 2005”.
Por ora, Hariri e seus pares ficarão na oposição. Interessa-o a posição do governo de Mikati em relação à Síria e ao Irã. A questão do desarmamento do Hezbollah faz parte da agenda do ex-premier. Apesar de duas resoluções da ONU para o desarme do Hezbollah, uma (1559) em 2004, e a outra (1701) em 2008, a qual colocou um término na última guerra contra Israel, a organização continua armada. E, finalmente – e esta parece ser a questão crucial –, Hariri e o mundo querem saber como o governo de Mikati lidará com o Tribunal Internacional para o Líbano.
Segundo um diplomata ocidental, Mikati tem mais tarimba que Hariri. Saad Hariri fez estudos universitários, ganhou fama de playboy um tanto desarticulado. Após a morte do pai, no fim de 2009 foi reciclado como premier. Hariri mostrou-se inábil, ou pelo menos pouco claro, nas negociações com o Hezbollah sobre o Tribunal Internacional. Logo após o atentado contra o velho Hariri, cuja fortuna foi acumulada na reconstrução do Líbano, após a guerra civil (1975-1990), Saad acusou a Síria de estar por trás da morte do pai. Paris e Washington concordaram.
A Síria recusou o envolvimento na morte do ex-premier, que condenava a influência de Damasco sobre o Líbano. Os sírios ordenaram, porém, a retirada de suas tropas instaladas no Líbano desde os primórdios da guerra civil, em 1976. Damasco deu como justificativa a intenção de promover segurança para o país. No entanto, Hariri mudou de ideia: os assassinos de seu pai não foram os sírios. Ou pelo menos foi o que declarou para o diário Asharq Al-Awsat, em 6 de setembro. Disse ter “cometido erros” ao acusar a Síria pelo assassinato do “primeiro-ministro mártir”. Saad acrescentou: aquela acusação política “não faz mais parte da atual agenda”.
Enquanto isso, Hariri passou a segredar aos dirigentes do Hezbollah que insistiria no julgamento de apenas integrantes marginalizados do grupo xiita. Ou seja, Hariri desconfiava – ou sabia – que integrantes do Hezbollah teriam sido os assassinos de seu pai. E mesmo assim negociava com seu líder. Facilitava, pelo menos para o mundo pragmático da política, o fato de Imad Mughniyeh, líder de “operações especiais” do Hezbollah, e acusado por vários atentados, ter sido- assassinado no início de 2008. Uma morte, consta, misteriosa. Mughniyeh teria sido a ponte entre o Hezbollah e a Guarda Revolucionária do Irã.
Após ter recebido Ahmadinejad em Beirute, Hariri foi ter com o presidente sírio, Bachar Al-Assad. E assim, Saad parecia ter cimentado as relações entre Síria e Arábia Saudita. Saad nasceu em Riad, onde o pai fez parte de sua fortuna. Para o Ocidente, o elo entre Damasco e Riad é bem-vindo porque a Arábia Saudita é ponto de apoio de Washington no Oriente Médio.
Mas o enredo parece não ter sido tão feliz para Hariri. Segundo o ex-embaixador Abdallah Bou Habib, presidente do Issam Fares Center, “os sauditas pediram a Hariri para ele normalizar suas relações com Al-Assad”. Mas isso não aconteceu. Em seguida, os sauditas pediram a Hariri para ele chegar a um consenso com Al-Assad sobre o Tribunal Internacional para o Líbano. Mais uma vez, consenso não houve.
Ironia das ironias, agora é Mikati que goza de boas relações com os sírios e sauditas, ambos em campos opostos. Com mais idade e mais experiência que Hariri, Mikati acumulou parte de sua fortuna na Síria, na telefonia. Seus elos com Bachar Al-Assad são sólidos e muito mais eficazes do que aqueles entre Hariri e o presidente sírio. Antes de Al-Assad se tornar presidente, ele ficou hospedado na casa de Mikati em Londres. E numa aparição televisiva nesta semana, Mikati anunciou ter obtido o aval dos sauditas para formar um governo.
Bou Habib, do Issam Fares Center, diz que os sírios e sauditas concordaram em deixar Mikati pedir à Corte da ONU uma investigação de testemunhas a fornecer informações falsas sobre o Hezbollah. O objetivo, claro, é mergulhar a Corte no descrédito popular. A preocupa-ção do Hezbollah, no final das contas, é sua imagem na rua.
No entanto, Mikati tem muito trabalho pela frente. A composição de seu gabinete será crucial. Ciente de que Hariri e a maioria de seus aliados, provavelmente, não farão parte de seu governo, ele poderá, por exemplo, formar uma aliança de tecnocratas. Fundamental será não constituir um governo somente composto por integrantes do Hezbollah. Políticos controversos serão excluídos, claro. E nunca se sabe, mas pouco a pouco integrantes da Aliança 14 de Março poderão se agregar ao governo.

Jarjour, o dono da mercearia, acredita no novo governo. “E se isso é bom ou mau não sei, mas o governo de Mikati, sob influência do Hezbollah e apoio dos sírios, provavelmente vai torpedear o Tribunal Internacional.” Indago por que ele prefere essa solução. Jarjour: “O mundo quer estabilidade no Oriente Médio, e o Hezbollah ocupa a posição de força para colocar um fim nesse explosivo tribunal”.
Mas Alia, a vendedora na Place de l’Etoile, onde fica o Parlamento, não concorda. “Ainda vamos manifestar, quando oportuno”, diz. “Não podemos aceitar um premier sunita escolhido por xiitas.” Esse é um conflito religioso? “Infelizmente, apesar da diversidade cultural e religiosa deste país é, de fato, um conflito religioso”, rebate Alia.
Naquele fim de manhã da quinta-feira 27, o número de seguranças do Ministério de Interior, do Exército, e de homens à paisana falando em microfones nas suas lapelas começava a aumentar. Os vários check points para se chegar ao Parlamento estavam agora fechados, homens com metralhadoras nas mãos. Pergunto a um segurança do Ministério do Interior se os jovens pró-Hariri estão chegando, como todos os dias. “Não, hoje estamos em estado de alerta, porque Mikati vai abrir a sessão parlamentar pela primeira vez”, responde Median Al-Dika.  Sorriso nos lábios, Al-Dika garante: “Mas dentro de três dias tudo isso terá acabado”.
Entrego meus documentos de imprensa a um soldado e peço para entrar no Parlamento. Ele diz que não é possível. Além disso, somente alguns jornalistas selecionados poderão ficar naquela área. O soldado me convida a me retirar. Insisto em adentrar o Parlamento. De repente, sinto um empurrão. Dois homúnculos uniformizados, quepes azuis, mas fortíssimos graças a horas de musculação, sem contar generosas doses de injeções de produtos suspeitos, me conduzem, cada um segurando um braço, até o último check point. Na despedida, repito: “Sou jornalista”. Um deles, cabelos brancos, retruca orgulhoso: “This is the arab way”.

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