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Incertezas

O golfe e o futuro de Cuba

por Envolverde — publicado 22/09/2010 11h00, última modificação 22/09/2010 11h00
Em um país onde só se pode comprar e vender os veículos fabricados antes de 1960 (!) fica difícil imaginar que se consiga organizar uma cooperativa ou pequena empresa de transportadores privados

Por Leonardo Padura*

Havana, Cuba – Se algum dos mais importantes institutos de pesquisas do mundo se atrevesse a realizar um macro survey que registrasse as respostas dos 11 milhões e tanto de cubanos que moram na ilha do Caribe, e limitassem sua pesquisa à única pergunta “Para onde acredita que se dirige o futuro da nação?”, penso que uma porcentagem esmagadora dos que se atrevessem a responder com sinceridade dariam uma demolidora resposta: “Rapaz, sabe que não sei”.

O mais dramático desta afirmação seria, naturalmente, que o inescrutável futuro do país engloba também o de cada um de seus habitantes, incapazes de prever os rumos de seu próprio futuro. Se em outras ocasiões expressei minha incapacidade de fazer uma ideia das derrotas econômicas e sociais que adotará o futuro cubano, hoje, mais do que nunca, a incerteza a respeito do caráter do modelo possível me surge esgotador como – creio – para a maioria de meus compatriotas.

Algo parece claro em meio à escuridão: a direção do Partido Comunista, do governo e do Estado cubanos não contempla entre suas expectativas a modificação do sistema socialista de partido único, o mesmo que durante o século passado vigorou na URSS e nas repúblicas socialistas da Europa do Leste, e que se mantém vivo, no essencial, em alguns dos Estados comunistas asiáticos, da Coreia do Norte à China, embora com características muito díspares e, no geral, pouco desejáveis (é minha opinião) como modelos de desenvolvimento e de vida para um país como Cuba.

Feita esta ressalva cardinal, quando se olha para o restante dos fatores econômicos e sociais, quiçá os que de maneira mais direta influem na vida dos cubanos, talvez se pudesse pensar que muitos deles estariam, sim, em jogo, se não de maneira essencial, ao menos quanto a formas de aplicação que seriam muito importantes no futuro dos destinos individuais e coletivos.

Nos últimos meses, por exemplo, surgiu na mídia alternativa cubana (emails e blogs) uma significativa polêmica sobre as maneiras como a economia da Ilha poderia encontrar alívios monetários que a ajudassem a sair de suas múltiplas crises de eficiência e produtividade, geradas pelo próprio modelo atuante por cinco décadas, pela falta de controles e pela desmotivação geral que, há 20 anos, faz com que os produtores recebam um salário que insuficiente para viver.

O mais recente tema de debate é a anunciada abertura da indústria turística cubana a um visitante de alto nível que – comenta-se – inclui a construção de marinas para iates de luxo, construção de 16 campos de golfe de 18 buracos e até casas e apartamentos que poderiam ser adquiridos por estrangeiros, com licenças de propriedade válidas por 99 anos (segundo o artigo 222.1 do Decreto-Lei 273, de 19 de julho deste ano). A decisão explorou as mais diversas opiniões que vão desde a do ortodoxo, que afirma que não pegou um fuzil e fez a revolução para vender a pátria aos milionários, até o que, querendo ser compreensivo, argumenta que alguns campos de golfe não mudam nada se nada do que é importante for mudado.

Já na década de 1990, quando se fez presente a profunda crise econômica que invadiu a Ilha após o desaparecimento do socialismo do leste, o negócio das imobiliárias de capital misto, que construíam casas e apartamentos para estrangeiros, estava aberto em Cuba, embora pouco depois seu ritmo tenha diminuído até quase parar. Recordo, inclusive, ter ouvido a frase de que não se venderia ao estrangeiro nem um centímetro da pátria. Agora, o novo decreto dá um impulso extraordinário a uma abertura de investimentos nos setores turístico e residencial ligados aos visitantes estrangeiros, algo que resulta ser menos curioso em um país onde os cidadãos não podem vender ou comprar imóveis, e precisam de uma quantidade incalculável de autorizações para construir uma com seus próprios recursos ou mudar-se para outro (a famosa “permuta” cubana, toda uma instituição social e cultural no país).

No mesmo ritmo foram sendo introduzidas mudanças em toda uma série de esferas onde o protecionismo estatal vigorou durante anos, e que vão da eliminação da venda subsidiada de uma cota mensal de cigarros a todos os nascidos antes de 1956 (!) até a regulação de impostos para pessoas que, na beira da estrada, decidirem vender as mangas ou os abacates de suas árvores (pagarão 5% da venda e farão uma contribuição para a assistência social), os mesmos vendedores clandestinos de (mangas e abacates!) que, até agora, eram perseguidos e multados pela polícia.

podrán hacerlo con capital enviado por familiares o socios residentes en el extranjero que pondrían de ese modo -más que una pica en Flandes- un pie en la economía cubana?

A necessidade de encontrar alternativas trabalhistas para mais de um milhão de trabalhadores, que será necessário eliminar de seus postos em empresas estatais, está entre as razões para que se trate de revitalizar o trabalho por contra própria e, ao que parece, inclusive a microempresa. Mas, basta falar desse assunto e aparecem os chifres do touro: quem em Cuba tem capital para abrir um pequeno negócio? Poderão fazê-lo com capital enviado por familiares ou sócios residentes no exterior, que desse modo colocariam um pé na economia cubana? Como voltar a montar toda uma estrutura que foi dinamitada com a “Ofensiva Revolucionária” de 1968, e que converteu Cuba no país socialista com mais trabalhadores estatizados e menos possibilidades de realizar trabalhos como autônomo? E os insumos e o mercado, ou o aparato fiscal, sanitário, policial, que implica a reabertura deste sistema fechado no país por quatro décadas.

Uma reportagem recente da televisão cubana mostrava a situação em que se encontra um centro de armazenamento de produtos agropecuários próximo de Havana onde, por falta de transporte, são perdidas grandes quantidades de banana e batata-doce já colhidas. Poderia o setor privado ajudar a evitar tais situações? A resposta deveria ser afirmativa, mas em um país onde só se pode comprar e vender os veículos fabricados antes de 1960 (!) fica difícil imaginar que se consiga organizar uma cooperativa ou pequena empresa de transportadores privados.

Assumido o princípio de que o governo não pretende incentivar mudanças políticas, a única possibilidade de abrir algumas comportas econômicas deve ser uma reestruturação tal do sistema cubano que, ainda sendo o mesmo, já não voltaria a sê-lo. Só que a imagem que projeta para o futuro é o de uma nebulosa na qual apenas se distingue formas imprecisas. Envolverde/IPS

*Leonardo Padura é escritor e jornalista cubano. Suas novelas foram traduzidas para mais de 15 idiomas e sua obra mais recente, El hombre que amaba a los perros, tem como personagens centrais León Trotski e seu assassino, Ramón Mercader.

**Matéria originalmente publicada no site da Envolverde

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