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O Egito é o país mais perigoso do mundo?

por José Antonio Lima publicado 14/03/2013 15h35, última modificação 14/03/2013 15h35
O país árabe vive uma grave crise de segurança e, a depender de como vai lidar com ela, pode rumar para o caos

Um relatório divulgado na semana passada pelo Fórum Econômico Mundial classificou o Egito como o país mais perigoso do mundo para turistas.
Pode haver certo exagero na lista, pois o país árabe ficou atrás de lugares mais violentos, como Iêmen e Chade, mas o estudo serviu para deixar claro quão dramático se tornou o problema da segurança no Egito nos últimos meses.
A depender da forma como o país lidará com a questão, ela pode levar o Egito ao caos.
Na terça-feira 12, entrou em sua segunda semana a greve dos policiais egípcios. A paralisação não é generalizada, mas atingiu de forma intermitente algumas das principais cidades do país, como a capital, Cairo, e Gisé, onde ficam as famosas pirâmides. Atualmente, os policiais estão em um período de 10 dias de “trégua” para que o governo faça concessões. Entre as exigências estão a demissão do ministro do Interior, Mohamed Ibrahim, indenizações para as famílias dos 16 policiais mortos desde janeiro em conflitos com manifestantes, armamento melhor e o não envolvimento da polícia em conflitos políticos.
As reivindicações dos policiais refletem, em grande medida, a péssima relação que a instituição tem com a população egípcia. Mais que as Forças Armadas, a polícia era a principal ferramenta do ditador Hosni Mubarak para sustentar o medo que mantinha seu regime de pé. Eram policiais os responsáveis por prisões arbitrárias, torturas e assassinatos, como os de Khaled Said, um dos “mártires” cuja morte insuflou a oposição a Mubarak. Findado o regime, a polícia, odiada, se tornou alvo da fúria dos manifestantes, especialmente quando usou as mesmas táticas brutais de repressão da era Mubarak.
Crise em Port Said e o início da greve

A greve estourou quando a polícia foi chamada a interceder nos protestos realizados no início do mês na cidade de Port Said, na região do delta do Nilo. Em fevereiro de 2012, 74 torcedores do Al-Ahly, time de futebol do Cairo, capital do Egito, foram mortos durante um jogo diante do Al-Masry, clube local. Em janeiro, 21 torcedores do Al-Masry foram condenados à morte. No sábado 9, a Justiça confirmou a pena de enforcamento. Muitos dos condenados alegam inocência e dizem nem terem ido ao jogo. A investigação ocorreu de forma obscura e apressada. O julgamento, cujos autos estão sob sigilo, não passa de uma “busca por bodes expiatórios”, segundo a Anistia Internacional. Dos nove policiais acusados de organizar o massacre, apenas dois foram condenados (a penas brandas) e sete foram absolvidos.
A condenação indignou a população de Port Said, que foi às ruas alegando ser alvo de preconceito por parte do governo central. A polícia local se recusou a enfrentar os manifestantes, e o Exército foi chamado a intervir.
País polarizado e governo falho
A crise policial reflete também a instabilidade do governo do presidente Mohamed Morsi, da Irmandade Muçulmana. Com o grupo religioso no poder, a política egípcia chegou a um grau de polarização tamanho que a oposição, formada por esquerdistas, nacionalistas e secularistas, ganha, cada vez com mais razão, a pecha de golpista. Quando o Exército foi às ruas de Port Said, muitos opositores clamaram pela derrubada de Morsi (eleito democraticamente no meio do ano passado).
Soma-se à crise e à atuação predatória da oposição a falta de habilidade das autoridades estabelecidas egípcias para lidar com a situação. No domingo 10, um integrante do Partido Liberdade e Justiça, o braço político da Irmandade Muçulmana, disse estar escrevendo um projeto de lei que daria a firmas privadas de segurança o direito de prender cidadãos egípcios. A proposta, que seria polêmica até mesmo nos berços do neoliberalismo, como os Estados Unidos e o Reino Unido, ainda não saiu do papel.






A procuradoria-geral do Egito, por sua vez, sugeriu que os próprios cidadãos exercessem o direito de realizar “prisões civis” enquanto os policiais estiverem greve. Dois partidos islamistas, alinhados com a Irmandade Muçulmana, foram além. Prometeram criar “comitês de segurança” próprios que serviriam para substituir a força policial e “garantir a segurança” dos cidadãos, um passo na direção da formação de milícias no Egito.
Sugestões desastradas e perigosas como essas são feitas em diversos países, mas, no Egito, onde faltam instituições legítimas e sobram polarização e instabilidade, elas podem entrar em prática, contribuindo para piorar a situação ainda mais. No caso da polícia, ela só pode ser reformada se o Ministério do Interior, responsável por ela, também passar por modificações.
Devido à sensibilidade da pasta, intrinsecamente ligada ao regime Mubarak e central para o funcionamento do governo, isso seria facilitado pela atuação de um Congresso plural e independente. Ocorre que a Justiça egípcia, repleta de aliados de Mubarak, dissolveu o Parlamento eleito em 2012 e está atrasando um novo pleito para o Legislativo. Mesmo com o sinal verde do Judiciário, se a greve policial não for contornada, as eleições podem ficar prejudicadas pela falta de segurança.
No Egito, a crise institucional e a de segurança se retroalimentam. Se o círculo vicioso não for rompido, o país pode mesmo rumar para o caos.

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