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O dilema americano na Síria

por Deutsche Welle publicado 22/07/2015 04h35
Com o "Estado Islâmico" alçado à condição de principal inimigo, EUA forjam uma aliança tácita com um velho adversário: Bashar al-Assad
Youssef Karwashan / AFP
Exército da Síria

Militar das forças regulares de Bashar al-Assad passa ao lado de veículo destruído em Hasakeh, no norte da Síria, em 13 de julho

Por Spencer Kimball

O exército rebelde apoiado pelos Estados Unidos tem instruções para não atacar o regime de Bashar al-Assad – o inimigo principal é o "Estado Islâmico" (EI). Não que a milícia represente uma ameaça para um ou outro: até agora, Washington só treinou 60 combatentes.

O secretário de Defesa americano, Ashton Carter, reconheceu na semana passada perante o Congresso que o número está bem abaixo das expectativas iniciais do Pentágono. A revelação provocou consternação entre os opositores do presidente Barack Obama e fez com que os apoiadores lançassem um plano de contenção de danos.

"Nossos meios e nosso nível atual de esforço não estão alinhados com os nossos objetivos", disse o senador republicano John McCain durante audiência de um comitê do Senado. "Isso sugere que nós não estamos vencendo. E quando você não está vencendo em uma guerra, você está perdendo."

Um dos motivos para os EUA terem treinado tão poucos rebeldes é um processo de veto rigoroso, que, de acordo com Carter, garante que os recrutas vão estar comprometidos primariamente a lutar contra o EI e a obedecer às leis de guerra no conflito.

De acordo com especialista em assuntos sírios David Lesch, o governo Obama tem sido cuidadoso por temor de que armas americanas possam cair nas mãos dos radicais islâmicos. "É algo que tem acontecido regularmente, inclusive com episódios em que depósitos de armas de grupos rebeldes apoiados foram tomados por grupos extremistas", afirma.

Cerca de 7 mil recrutas estão sendo avaliados, de acordo com secretário de Defesa. O objetivo do Pentágono é treinar anualmente mais de 5 mil combatentes e construir uma força de mais de 15 mil em três anos. Eles recebem mensalmente de Washington uma ajuda que varia de 250 a 400 dólares.

Joshua Landis, diretor do Centro de Estudos do Oriente Médio da Universidade de Oklahoma, diz que restaram poucos combatentes moderados na Síria. Por outro lado, existe um forte incentivo financeiro para se juntar aos EUA: "Há milhares de sírios que farão qualquer coisa por um salário", disse Landis. "Talvez eles não façam tudo, mas sem dúvida eles aceitarão o dinheiro."

O senador John McCain e outros "falcões" do Congresso criticaram o governo Obama por não ter intervindo e treinado os rebeldes mais cedo, antes do surgimento de grupos jihadistas como a Frente al-Nusra, filiada à rede Al Qaeda, e o "Estado Islâmico".

Mas Landis não dá muito crédito a esses argumentos. Apesar dos esforços do presidente, afirma o especialista, simplesmente não havia uma oposição unificada para tentar negociar. "Ele tentou ver se era possível instigar algum tipo de união entre as milícias sírias, mas ele não conseguiu", diz Landis. "E isso enviou uma mensagem barulhenta de que ele não podia controlar a situação."

Quando a revolta síria foi iniciada, a posição de Obama era clara: o ditador Bashar al-Assad precisa ir embora. Mas, hoje, a situação é mais complicada. Damasco é um poder secular com uma força militar organizada que se opõem ao EI.

"Existe uma aliança estratégica com Assad e os EUA desde o momento em que os americanos declararam guerra ao ISIS", afirmou Landis à DW, utilizando outra sigla pela qual o EI é conhecido.

Mas para os rebeldes que estão na zona de combate, o objetivo continua sendo a derrubada de Assad, o que tem causado estranhamento com a nova prioridade da Casa Branca. 

"Quase toda a oposição armada quer combater o regime de Assad, e não o ISIS", diz David Lesch. Entre 2012 e 2013, o professor da Universidade de Trinity liderou uma equipe de pesquisadores na Síria e conversou com muitos dos atores mais importantes da guerra civil. "A prioridade é o regime. Depois que Assad cair, então eles vão lutar contra o 'Estado Islâmico'", completa.

De acordo com Landis, apesar de a retórica da Casa Branca em relação a Assad ter sido amaciada, os EUA ainda gostariam de ver sua remoção. “É uma aliança temporária de conveniência até que o 'Estado Islâmico' seja derrotado.”

Sanções econômicas punitivas ainda estão em vigor contra o regime, e aliados-chave dos EUA na região – Turquia, Arábia Saudita e outras monarquias do Golfo – querem que Assad, o principal aliado do Irã na região, vá embora.

"Os EUA querem destruir Assad e enfraquecê-lo", afirma Landis. "Os EUA estão tentando destruir todas as principais forcas sírias. Elas são todas suas inimigas. Alguns militares americanos pensam da mesma forma – apesar de eles nunca terem dito isso na imprensa, porque parece muito 'não americano', e é algo que vai contradizer as posições oficiais do Departamento de Estado e do presidente."

Deutsche Welle