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Internacional

Rubén La Torre

O criador da Rota Inca

por Rota Inca — publicado 29/07/2010 15h06, última modificação 11/08/2010 15h09
Conheça a história do criador da Rota Inca, o peruano Rubén La Torre, no perfil escrito por Vitor Taveira

Conheça a história do criador da Rota Inca, o peruano Rubén La Torre, no perfil escrito por Vitor Taveira

Ele desce do ônibus e caminha tranquilamente até encontrar o líder da comunidade visitada. Sua fala serena e jeito reservado contrastam com a vibração dos 40 jovens estrangeiros que o acompanham ativos, falantes e dançantes na Ruta Inka 2009. O peruano Rubén La Torre pode não ser a cara do próprio projeto que criou, mas sem dúvidas é a cabeça e também o coração.

Nascido em um pequeno povoado na região de Cuzco, a capital arqueológica da América do Sul, Rubén aprendeu desde pequeno a amar a cultura inca, que encantava visitantes de todo o mundo. O menino foi crescendo e percebeu que o turismo local é dirigido por grandes corporações estrangeiras que faturam milhões. Enquanto isso, indígenas descendentes e herdeiros daquela cultura recebem uma miséria para carregar as mochilas de aventureiros estrangeiros que pagam 300 dólares para fazer o caminho inca até a cidade sagrada de Machu Picchu.

Foi aí que ele pensou em fazer algo para ajudar os povos indígenas. Escolheu a diplomacia como forma de difundir a cultura e buscar projetos que pudessem cooperar com esses povos. Depois de anos de carreira, Rubén coordenaria no Peru a Ruta Quetzal 1995, uma expedição com centenas de jovens promovida pelo governo espanhol com apoio financeiro de um banco e cobertura da televisão estatal.

A partir daí sua vida começaria a mudar. Ao perceber o impacto positivo da viagem, o peruano decidiu ir além e propor outra expedição: a Ruta Inka (Rota Inca, em português), na qual história pudesse ser contada pelos próprios indígenas e não pelo ponto de vista da nação colonizadora. La Torre propôs ao seu país que liderasse a organização desse evento mas não recebeu o apoio necessário. Decidiu então comprar briga com a diplomacia. No ano 2000, renunciou à carreira e ao salário de 6 mil dólares para se aventurar pelos Andes e organizar a expedição com as próprias mãos e a generosidade dos povos locais. “Meu objetivo era criar a Ruta Inka como uma nova diplomacia, não a serviço dos governos e sim dos povos indígenas que são afinal os donos históricos dessas terras.”

A idéia de promover o encontro de jovens de diferentes países com comunidades indígenas tem dupla função: primeiramente contribuir com o resgate da auto-estima desses povos acostumados a serem subjugados e, posteriormente, proporcionar a difusão da cultura indígena em escala planetária por meio futuros líderes. “Pensei que se os estudantes admiradores da cultura inca no mundo atendessem ao chamado dos povos andinos, seria possível criar uma rede de amantes da herança indígena e construir novas relações de amizade, cooperação e desenvolvimento.”

Mas como realizar o evento sem o apoio financeiro necessário? A solução foi recorrer a um esquema simples e caseiro: a chamada minga, o sistema de serviço comunitário do tempo dos incas, no qual cada um ajudava com suas ferramentas e trabalho para realizar obras que beneficiassem a todos. E assim ficou: cada povoado é responsável por receber o grupo de estudante de diferentes países, programar e organizar as atividades como festas, almoços, danças, caminhadas. Os expedicionários ainda contribuem com uma cota de 300 dólares para os custos de transporte, alimentação e alojamento durante a viagem, que tanto em luxo como em atividades passa longe do turismo tradicional.

Passaram-se nove anos desde que Rubén La Torre decidiu se aventurar em busca do apoio dos povos indígenas e já foram realizadas seis expedições. Cerca de 400 jovens representantes de mais de 30 países puderam conhecer de perto a cultura dos antepassados sul-americanos, que continua viva encravada entre as montanhas da Cordilheira dos Andes. Com roteiros diferentes a cada edição, foram percorridas diversas comunidades e os mais importantes sítios históricos, arqueológicos e naturais de Bolívia, Chile, Colômbia, Equador e Peru, países cuja área pertenceu ao Tahuantinsuyo, como era conhecido o antigo império inca. Foram visitados alguns dos principais atrativos turísticos sul-americanos como Machu Picchu no Peru, deserto de Atacama no Chile, Salar de Uyuni na Bolívia e Lago Titicaca na fronteira entre Bolívia e Peru.

Com a mesma serenidade que fala dos sucessos do programa, La Torre também explica as dificuldades e decepções, como o fato de que nem todos expedicionários levam a sério a responsabilidade de difundir as culturas indígenas em seus países. Mas sua maior frustração é não ter recebido apoio financeiro de governos ou instituições que permitissem manter e organizar o programa como deveria. Ele conta que teve que investir praticamente todas suas economias pessoais para que o projeto não naufragasse e que o próximo ano pode ser o seu último à frente da Ruta Inka. Sua última esperança é que a edição 2010 tenha a repercussão necessária para receber o apoio formal de algum governo, caso contrário pretende voltar ao serviço diplomático e espera que novos líderes possam tocar em frente o projeto.

Para o ano que vem está sendo organizada uma edição especial em comemoração aos dez anos de criação da Ruta Inka. Serão realizadas duas etapas de 35 dias cada uma, formadas por grupos diferentes com número recorde de até 190 estudantes para cada trecho. O primeiro grupo visitará Bolívia, Peru, Equador e Colômbia e em seguida passará o bastão a outros expedicionários que sairão em busca de conhecer a cultura maia na América Central. 

Ao longo das seis expedições o Brasil contou com a presença de apenas duas estudantes. Por isso, La Torre aproveita para lançar um chamado especial: “Gostaria de convocar os jovens brasileiros amantes da aventura para que assumam o protagonismo dessa Ruta Inka, já que o Brasil é o maior país da América do Sul. Não olhemos tanto para Europa ou América do Norte. Como bons vizinhos nos conheçamos entre nós porque nossos irmãos estão aqui.”

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