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O crepúsculo do sultão

por Redação Carta Capital — publicado 25/01/2011 17h39, última modificação 25/01/2011 17h39
Berlusconi começa a afundar nas areias movediças de um novo escândalo, o pior de todos

Berlusconi começa a afundar nas areias movediças de um novo escândalo, o pior de todos
A villa de arcore, próxima de Milão, é nobre e antiga construção. O palácio Grazioli, edifício renascimental em Roma, orgulha-se de uma estrutura igualmente digna e longeva. É nestes dignos cenários que o premier italiano Silvio Berlusconi organiza noitadas de prazer, às vezes em companhia de amigos e sempre de raparigas em número alentado, houve uma rodada de 28. Há também uma residência de verão na Sardenha, já foi palco de festanças, mas Berlusconi faz algum tempo não aparece por lá.
Os promotores de Justiça de Milão acabam de elaborar um dossiê de 300 páginas que incrimina o premier por concussão e incentivo à prostituição de menores. O portentoso calhamaço vale-se das escutas telefônicas de envolvidas e envolvidos. Ouçamos, ao acaso, algumas frases colhidas por grampeadores devidamente autorizados pela Justiça: “Está bem, me deu de presente um bracelete de ouro, mas o brilhante era mínimo”. Ou: “Se não é ele quem me ajuda, quem haverá de ser?” Ou: “A esta altura, prefere as venezuelanas”. Ou: “Agora todas o chamamos de Papi”. “Papi o chamava aquela menina de Nápoles, mas ela é pupila dele, eu sou seu c...” Esta frase é de Ruby, recente escalada como favorita.
Consta que Putin recomendou-lhe suas compatriotas. “Altas demais”, sentenciou o amigão peninsular. Em saletas apartadas mandou instalar varas para que as moças seminuas se exibam na lap-dance, a dança das strippers americanas. E aos convidados fornece máscaras de Obama e Sarkozy. Os amigos de confiança chamam-se Emilio Fede, jornalista de 79 anos recauchutado por várias plásticas, dirige o noticiário dos canais berlusconianos e passou metade da vida a adular o patrão, e Lele Mora, agenciador de starlets e proxeneta de alto bordo.
Este entrecho vem de longa data, como se sabe e propõem as intermináveis façanhas de Berlusconi, mas esta fase recente, que ameaça tornar-se o derradeiro capítulo, começa com o súbito comparecimento em cena de Ruby, a marroquina Karima el-Mahroug, capitosa aos 17 anos. Entre 14 de fevereiro e 2 de maio do ano passado, Ruby teria passado com ele oito noites. Grampeada em setembro, diz: “Ele sabe que sou menor”. Ele garante: “A mim disse ter 24”.
Explode o caso Ruby. Denunciada por uma amiga que a acusa de ter surrupiado 3 mil euros de sua bolsa, Ruby fica detida em uma delegacia de Milão. Berlusconi incumbe a conselheira regional Nicole Minetti, de 25 anos, cujo principal mérito é ter sido algo assim como a higienista bucal do nosso herói, de exercer pressões diretas para conseguir a imediata soltura da detida. Ele próprio tomado de ansiedade acaba por telefonar à delegacia e comunicar que a moça “é neta de Hosni Mubarak”, o presidente egípcio com quem se encontrou em visita oficial ao Cairo há pouco tempo.
Este específico detalhe cabe em uma estudantada, mas vai muito além do patético para um chefe de governo. Nem por isso em um primeiro momento o caso tem maiores consequências, embora deleite a imprensa não governista que dilata suas tiragens. Já em dezembro, Berlusconi consegue manter-se politicamente à tona, graças a três votos de vantagem conseguidos na Câmara, no debate da confiança. A denúncia dos procuradores milaneses traz de volta o escândalo. Fortemente multiplicado.
Para o nosso herói a situação complicou-se dramaticamente. Ele surge no vídeo como homens de Estado fazem para anunciar as medidas importantes, e diz com jactância de garotão mimado nunca ter pago uma mulher em toda a sua vida em troca de um desempenho sexual. Ridiculariza a si próprio ao se exibir em todo seu esqualor. É o velho sultão que ainda pretende mostrar-se à altura do seu harém. Declara-se vítima de manobras anticonstitucionais, pede a punição dos procuradores, diz que não irá ao tribunal, promete resistência até o último alento, secundado pelos cortesãos, prontos a denunciar “a ameaça à democracia”.
Do outro lado o presidente da República, Giorgio Napolitano, fala da “situação turva” e pede um esclarecimento “imediato”. Até as fontes do Vaticano, que sempre apoiaram o obsequioso Berlusconi, não escondem seu constrangimento, a partir do cardeal Bagnasco, presidente da Comissão Episcopal que corresponde à nossa CNBB. A oposição começa claramente a se mover na direção de novas eleições, o PD que contemporizava a respeito, admite a possibilidade, a Liga, aliada do premier, adere à solução das urnas. Muitos opositores pedem a renúncia do sultão e Pier Ferdinando Casini, líder da centrista UDC que figurou no governo anterior de Berlusconi, proclama: “Agora basta”.
Basta? Veremos. Há tempo o premier envergonha a Itália de diversas formas e mais ainda a envergonham os italianos que o levaram ao poder por três vezes nos últimos 17 anos.

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