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O fim da princesa dos trogloditas?

por Ricardo Carvalho — publicado 06/10/2011 14h56, última modificação 06/10/2011 19h08
A mesma truculência que alçou Sarah Pallin ao estrelato conservador sepultou suas pretensões eleitorais para 2012

Pouco depois de o republicano John McCain revelar que sua vice de chapa seria Sarah Pallin, a governadora do Alasca e ex-prefeita da pequenina Wasilla (menos de oito mil habitantes), o ator e ativista político Matt Damon expressou em entrevista à rede CBS seus receios em relação a até então desconhecida candidata à vice-presidência. “Não sei nada a seu respeito, só sei que ela foi prefeita de uma cidade muito pequena e governadora do Alasca por menos de dois anos. E de repente alguém que não é mais do que uma ‘hockey mom’ (mãe que leva seus filhos a treinos de hockey) do Alasca pode se tornar presidente, algo que mais se parece a um filme de terror da Disney”.

Os temores de Damon, que não se cumpriram em 2008, foram definitivamente sepultados na quarta-feira 5. Em um e-mail enviado a apoiadores, Sarah Pallin confirmou que está fora da corrida pela vaga conservadora na disputa pela Casa Branca do próximo ano. “Depois de muito rezar e refletir, eu decidi que não buscarei a nomeação G.O.P. (sigla de ‘Good Old People’, como os conservadores são conhecidos) para presidente dos Estados Unidos (...). Eu acredito que neste momento posso ser mais efetiva no decisivo papel de ajudar outros verdadeiros servidores públicos”. Desse modo, Pallin abandona as pretensões ao cargo majoritário, para o qual tinha poucas chances de sucesso visto a expressiva vantagem dos demais postulantes, para fazer da sua capacidade de mobilizar uma legião de seguidores objeto de cobiça.

Na pesquisa YouGov realizada entre os dias 24 e 27 de setembro, Pallin aparece com 8% das intenções de voto, bastante distante das atuais duas maiores apostas conservadoras para o pleito de 2012, o ex-governador de Massachusetts Mitt Romney (15%) e o atual chefe do executivo texano, Rick Perry (14%).

As características mencionadas por Matt Damon foram, de certa forma, a razão de ascensão e queda da estrela republicana. Ela aproveitou-se de seu anonimato entre a grande maioria dos norte-americanos de 2008 para abraçar os ideais mais conservadores da direita do país. Na campanha, trouxe sua família para o primeiro plano da disputa presidencial, mostrando-se como uma zelosa mãe de cinco filhos (ela mesma usou para si o termo ‘hockey mom’), numa tentativa de atrair ao mesmo tempo a ala mais radical dos republicanos e o eleitorado feminino. Quando terminou a eleição, mesmo já desgastada com os mais moderados por suas posições radicais, Pallin havia se tornado um ícone da direita mais intransigente norte-americana, principalmente entre o movimento que pouco depois despontou no cenário público do país, o ultra-conservador Tea Party.

Ao mesmo tempo, as constantes gafes e excessos cometidos durante e após o pleito de 2008 contribuíram para que o público construísse a impressão de que ela não estava a altura do cargo de presidenta. A ex-governadora citou a proximidade entre o Alasca e a Rússia como evidência de suas credenciais para lidar com política externa, confundiu as Coreias do Norte e do Sul e, no mais danoso deslize para sua imagem pública, pronunciou-se de maneira desastrosa sobre o tiroteio em Tucson, no Arizona, que deixou seis pessoas mortas e feriu gravemente a legisladora democrata Gabrielle Giffords, em janeiro deste ano. Na ocasião, muitos atribuíam à retórica anti-democrata agressiva do Tea Party e de Pallin como uma das motivações do atirador. Em vídeo divulgado quatro dias depois do incidente, ela acusou os jornalistas de moveram um “libelo de sangue” ao ligá-la à matança.

A desistência de Sarah Pallin não deve ter sido recebida com alívio pelos democratas da Casa Branca. Primeiro, porque Barack Obama a via como a candidata mais fácil de derrotar num eventual confronto, principalmente devido ao seu radicalismo exacerbado que amedrontaria as fileiras mais moderadas. E, segundo, porque fora do páreo a ex-governadora pode direcionar milhares de votos para um candidato republicano de sua escolha, a semelhança do que ocorreu nas eleições para renovação de parte de Congresso no final do ano passado. Na ocasião, Pallin apoiou explicitamente cerca de 60 políticos republicanos, dos quais metade foi eleita, contribuindo para a retomada conservadora da Câmara dos Representantes (similar à nossa Câmara dos Deputados).

Outro motivo que pode ter influenciado a saída de Pallin da corrida presidencial é seu estrondoso sucesso financeiro obtido após as eleições de 2008. Coroada como princesa do conservadorismo norte-americano, ela fechou contrato como comentarista da rede Fox News e lançou dois best sellers que lhe renderam receitas milionárias.

Apesar de há cerca de um ano a política demonstrar que não estaria interessada em lutar pela Sala Oval, comentaristas, eleitores e integrantes do partido Republicano nunca deixaram de especular sobre seu potencial eleitoral. Principalmente quando ela iniciou uma turnê em ônibus pelos Estados Unidos, coincidentemente dando as caras em New Hampshire no mesmo dia em que Mitt Romney anunciava sua candidatura à nomeação republicana no estado. O ato foi encarado como um teste para uma possível tentativa de ganhar a vaga.

O anúncio de que Pallin não concorrerá chegou um dia depois de Chris Christie, governador de Nova Jersey e outro peso pesado conservador, também divulgar seu desinteresse de encarar uma campanha presidencial. Desse modo, o horizonte do partido republicano para 2012 fica mais claro e a disputa deve centrar-se entre Romney e Perry. As incertezas recaem sobre o quanto Pallin pretende mergulhar na corrida pela Casa Branca no próximo ano e como seu envolvimento pode definir o apoio do Tea Party. Os democratas não se enganem: a princesa dos trogloditas pode ser mais perigosa morta do que viva.

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