Você está aqui: Página Inicial / Internacional / O conto da xenofobia

Internacional

Migração

O conto da xenofobia

por Antonio Luiz M. C. Costa publicado 03/10/2010 21h10, última modificação 05/10/2010 20h18
A propaganda direitista contra estrangeiros baseia-se em preconceitos e suposições erradas. A longo prazo, os maiores prejudicados serão os europeus
O conto da xenofobia

A propaganda direitista contra os estrangeiros baseia-se em preconceitos e suposições erradas. A longo prazo, os maiores prejudicados serão os europeus. Por Antonio Luiz M. C. Costa. Foto: Jonathan Nackstrand/ AFP

A propaganda direitista contra estrangeiros baseia-se em preconceitos e suposições erradas. A longo prazo, os maiores prejudicados serão os europeus

A eleição sueca de 19 de setembro confirmou uma perigosa tendência vista em vários países do antigo “Primeiro Mundo”: o crescimento da direita populista baseada na intolerância aos migrantes. Principalmente os vindos do antigo “Terceiro Mundo”, mas também minorias originárias de países mais pobres da própria Europa, como os ciganos da Romênia – frequentemente com conotações racistas implícitas e às vezes muito explícitas.

Na Suécia, o partido xenófobo da direita – por ironia, “Democratas da Suécia” – obteve 5,7% dos votos e 20 das 349 cadeiras do Parlamento e pôde ser o fiel da balança em um Legislativo dividido quase ao meio entre conservadores e social-democratas, com ligeira vantagem para os primeiros. “A bandeira da tolerância foi arriada e forças obscuras fizeram a democracia sueca de refém”, escreveu o editorial do jornal conservador Expressen.

Na Alemanha, o diretor do Banco Central e político social-democrata Thilo Sarrazin (cujo sobrenome, ironicamente, é cognato de “sarraceno”) publicou um livro chamado A Alemanha Destrói a Si Mesma, no qual incita a xenofobia popular afirmando que, ao “produzir mais garotinhas de véu”, turcos e árabes reduzirão os alemães a minoria no próprio país até 2100 e serão 70% em 120 anos. A obra transpira não só preconceito cultural, como também racismo, pois atribui o mau desempenho escolar dos filhos de imigrantes à genética. Mas a primeira edição esgotou-se em dias e 18% dos alemães se disseram dispostos a votar no partido que o autor fundar. Mein Kampf não teve uma recepção tão entusiástica enquanto Hitler não chegou ao poder.

Na França,  a perseguição de Nicolas Sarkozy aos ciganos foi comparada aos eventos da Segunda Guerra Mundial pela comissária de justiça da União Europeia, a luxemburguesa Viviane Reding – puxão de orelhas merecido, principalmente depois que veio à luz a circular do governo francês que mandava a polícia priorizar os acampamentos roma, caracterizando a discriminação étnica. Na Itália, a xenofobia é rotina há anos e grupos organizados para intimidar ciganos e africanos são legalizados e incentivados pelo governo.

Nos EUA, o movimento Tea Party cresce teoricamente como protesto contra os impostos e pela redução das atribuições do governo federal, mas na prática com conotações xenófobas e racistas. O próprio presidente Barack- Obama, como filho de imigrante ou por supostas dúvidas sobre seu real local de nascimento, teve seu direito a concorrer e governar questionado pelos setores mais extremistas da direita republicana. Cada vez mais, o movimento prioriza a perseguição a imigrantes sem documentos, ao apoiar a lei do Arizona que permite à polícia deter “suspeitos” (ou seja, não brancos) e pretender rever a Constituição para privar de cidadania os filhos de imigrantes nascidos no país.

Por que uma queima de Alcorões por uma pequena seita (Igreja Batista de Westboro) em 11 de setembro de 2008, em Washington, passou em brancas nuvens e a ameaça de repetição do ato na Flórida de 2010, por uma seita ainda mais minúscula, criou uma polêmica mundial e mobilizou a intervenção de generais, do FBI e do próprio presidente para convencer o pastor a desistir?

Mais imediatamente, pela vontade da imprensa conservadora de alimentar a polêmica sobre a construção de uma mesquita em Manhattan contra a qual o pastor alegou protestar, pois os republicanos esperam ganhar votos em novembro insuflando o ressentimento xenófobo. Mas a razão de fundo é a crise econômica, que nesses últimos dois anos exacerbou a insatisfação das massas e a necessidade de buscar bodes expiatórios. Sem a crise de 2008, o Tea Party seria hoje insignificante e os democratas estariam se encaminhando para uma vitória tranquila nas urnas. Assim como os europeus provavelmente estariam muito menos preocupados com burcas e minaretes se o desemprego, persistente desde os anos 80, não estivesse se exacerbando.

Objetivamente, não houve um crescimento súbito da imigração ilegal ou dos problemas que ela pudesse causar. Pelo contrário, o endurecimento das barreiras e a crise fizeram cair o fluxo e em alguns casos até reverter o movimento nos países ricos. Nos Estados Unidos, o número de imigrantes sem documentos caiu de um pico de 12 milhões, em 2007, para 11,1 milhões, em 2009, segundo um recente relatório do Centro Hispânico Pew. As maiores reduções foram na Flórida, Virgínia e Nevada, estados dos mais afetados pelo colapso do mercado imobiliário.

Na Espanha, a chegada de imigrantes clandestinos caiu de 32 mil, em 2006, e 18 mil, em 2007, para 14 mil, em 2008, e 7 mil, em 2009, enquanto mais 10 mil estrangeiros aderiram ao programa de retorno voluntário lançado no ano passado pelo governo.

Na Itália, a imigração clandestina caiu de 32 mil, em 2008, para 7,3 mil, em 2009, e tendências semelhantes se viram na França, Reino Unido e -Irlanda. Na Europa como um todo, estima-se uma queda de 50%, embora uns poucos países, como a Suécia, ainda tivessem crescimento.

Quanto aos imigrantes legais, o fluxo para todos os países ricos, segundo a OCDE, vinha crescendo desde 2003 a um ritmo de 11% anuais, até um pico de 4,66 milhões em 2007, mas, em 2008, caiu 6%, para 4,4 milhões e a queda se acentuou ainda mais em 2009, embora ainda não haja dados consolidados.

Na Alemanha, mais turcos saem do que entram no país desde 2006. Em 2009, entraram 30 mil e saíram 40 mil. No ano anterior, o fluxo foi negativo em 8 mil.  A estimativa de Sarrazin de entrada de 100 mil imigrantes por ano de países islâmicos que o leva a projetar 35 milhões de muçulmanos (hoje estes são 5% ou 4 milhões) em 2100 é pura fantasia, como também sua projeção de meros 20 milhões de alemães étnicos nessa data.  Estes são hoje 75 milhões e mesmo mantendo a tendência à baixa natalidade por gerações, serão pelo menos 46 milhões no fim do século, calculam demógrafos sensatos.

Em outros países, uma forte mudança na composição étnica é mais plausível. Nos EUA, segundo projeções geralmente aceitas, 40% da população será “branca” em 2100 (seriam minoria a partir de 2059), ante 32% de “hispânicos”, 15% de “negros” e 13% de “asiáticos”. Mas, ainda que as tendências de migração e natalidade não se alterem por todo um século, será relevante? No início do século passado, os EUA se viam como um país anglo-saxão e protestante e seus conservadores se afligiam com a imigração de judeus, italianos, irlandeses e poloneses. Ainda nos anos 80, Leonardo DiCaprio foi aconselhado a mudar de nome para Lenny Williams e o governador de Nova York, Mario Cuomo, desistiu de uma candidatura porque “o povo americano jamais elegeria um presidente cujo nome termine em vogal” – tradição quebrada só por Obama. Hoje, os wasps, estrito senso, de fato viraram minoria – cerca de 30%, estima-se – mas isso não parece ter maior importância.- Nem sequer foi notado quando aconteceu.

Uma tendência mais importante e na qual se presta menos atenção é que a migração entre países periféricos é mais importante que destes para os países centrais. O relatório Pnud da ONU do ano passado estimou em 214 milhões (inclusive 50 milhões irregulares) o número de migrantes internacionais em 2010. Destes, apenas 37% haviam migrado de um país pobre para um rico. Outros 10% migraram de um país desenvolvido para outro, 50% de um país periférico para outro e 3% de um país central para um periférico. Migram para outro -país do mesmo continente 63% dos africanos, 65% dos asiáticos e 69% dos europeus (mas só 13% dos latino-americanos, que ainda são exceção).

Isso inclui países árabes do Golfo (trabalhadores da construção civil, serviços e indústria petrolífera), Jordânia, Líbano e Síria (refugiados palestinos), Gabão, Costa do Marfim, África do Sul e Líbia (refugiados africanos), ex-União Soviética e ex-Iugoslávia (migrantes internos subitamente tornados estrangeiros), Malásia e Tailândia (asiáticos atraídos para suas novas indústrias). Países como Índia, Paquistão e Irã também receberam grande número de refugiados de guerras e catástrofes em vizinhos. À medida que países periféricos cresçam mais que os centrais e estes permaneçam com desemprego elevado, a proporção dessas migrações naturalmente aumentará.

O que os países ricos bem podem vir a lamentar, pois o envelhecimento da população torna cada vez mais difícil equacionar a aposentadoria. A União Europeia teria de poupar 1,9 trilhão de euros a mais por ano (16% do PIB) para manter seu padrão de vida na aposentadoria. Até 2060, a relação entre aposentados e trabalhadores produtivos dobrará, a menos que a imigração volte a crescer. Mas, segundo a OCDE, mantida a atual tendência, a população com idade ativa em seus integrantes crescerá só 1,9% na década de 2010, ante 8,6% na passada. Quando a maioria dos europeus for de velhos, poderão se arrepender de ter votado em quem os fez se angustiar por véus e muezins, em vez de se preocupar com o risco de um futuro de pobreza. Até porque, para fazerem render ao máximo as magras aposentadorias, terão talvez de migrar para países periféricos com custo de vida mais baixo e conviver como imigrantes entre véus e minaretes. •

registrado em: