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O cerco aperta

por Redação Carta Capital — publicado 16/02/2012 10h10, última modificação 16/02/2012 10h34
Na Casa Branca, Obama se notabiliza pela distância entre o bom-mocismo do discurso e as pressões da realpolitik e da agenda conservadora
barack obama afp

Obama tem se notabilizado à frente da Casa Branca pela distância entre o bom-mocismo de seu discurso e suas propaladas boas intenções e a dura realidade de responder às pressões da realpolitik e da agenda conservadora. Foto: AFP

Por Márcio Sampaio de Castro*

 

O prêmio Nobel da paz Barack Obama tem se notabilizado à frente da Casa Branca pela distância entre o bom-mocismo de seu discurso e suas propaladas boas intenções e a dura realidade de responder às pressões da realpolitik e da agenda conservadora de significativa parcela das forças políticas e econômicas no interior da sociedade norte-americana. Exemplos não faltam.

Não custa lembrar que Obama elegeu-se aos olhos do mundo sob o signo da mudança, prometendo desfazer o legado da era Bush em política interna e externa. De início com uma plataforma antimilitarista, o democrata demorou apenas um ano para chegar à conclusão de que deveria aumentar em mais 30 mil homens e mulheres o contingente no Afeganistão.

A versão de que o aumento do efetivo traria estabilidade ao país asiático e conduziria a uma vitória definitiva das forças de intervenção ocidentais parece ter caído por terra no início deste mês após a publicação de uma matéria do jornalista Michael Hastings, pela revista Roling Stone. A reportagem traz a divulgação parcial do relatório produzido pelo tenente coronel Daniel Davis - um oficial da inteligência do exército dos EUA encarregado de fazer levantamentos das frentes de combate – com informações classificadas como bombásticas.

No relatório, entre diversos outros insucessos, Davis mostra que, após a chegada dos reforços, só o número de baixas entre os norte-americanos aumentou em 82% nos últimos dois anos, pulando de 1764 em 2009 para 4662 no final de 2011.

Talvez a maior incoerência de todas tenha ocorrido após o massacre de quase 1600 palestinos na Faixa de Gaza em dezembro de 2008 pelas Forças de Defesa de Israel. Definido pelo relatório da comissão do Conselho de Direitos Humanos da ONU - chefiada pelo sul-africano Richard Goldstone e enviada ao local em janeiro do ano seguinte, como “crime de guerra” e “possivelmente crime contra a humanidade” - o massacre foi minimizado pelo recém-empossado governo Obama e o documento ganhou a pecha de parcial e, portanto, não confiável.

O relatório foi arquivado, as mortes foram para as páginas negras da história e o “plano de paz consistente” prometido para a região pelo então candidato democrata até hoje não deixou de ser apenas um rascunho. A tentativa posterior da Casa Branca de negociar um acordo baseado nas fronteiras israelo-palestinas de 1967 foi atropelada pela visita do primeiro-ministro israelense Benjamin Netanyahu em maio de 2011 ao congresso dos EUA, quando foi aplaudido de pé pelos membros daquela casa ao dizer que não dividiria Jerusalém, não retornaria às fronteiras anteriores à Guerra dos Seis Dias e não aceitaria a volta dos refugiados palestinos exilados nos países vizinhos.

Nos dias que correm, Israel aparece novamente no centro das tensões internacionais ao ameaçar recorrentemente atacar o Irã para desmantelar o programa nuclear daquele país. Na maioria das publicações da grande imprensa internacional, os EUA aparecem como uma força moderadora que procura dissuadir o regime dos aiatolás através do diálogo e da diplomacia ou, no máximo, com sanções econômicas. A suspeição das ações do submundo da espionagem, tais como sabotagens e assassinatos de cientistas, recai sobre o serviço secreto israelense. Mas um olhar detido sobre uma série de movimentações das forças armadas norte-americanas nos últimos meses traz à tona novamente a já característica ambigüidade do atual governo em Washington e aponta na direção oposta aos discursos feitos nas conferências de imprensa.

A 5ª Frota do EUA, sediada no convulsionado Bahrein, sempre contou com um único porta-aviões. O USS John C. Stennis ganhou a companhia no final de janeiro do USS Abraham Lincoln e no início do próximo mês o veterano USS Enterprise chegará às águas do Golfo de Omã, onde o também porta-aviões de bandeira francesa Charles de Gaulle navega atualmente. A chegada tardia do Enterprise à região do Golfo se deve ao encerramento recente da “Operação Alligator 2012” em que 20 mil militares participarem de treinamentos de desembarque e supressão de forças inimigas na costa da Flórida, um tipo de simulação que não ocorria há quase duas décadas.

Enquanto o Enterprise não chega, a movimentação na região do Golfo Pérsico e vizinhanças segue intensa. Matéria publicada pelo jornal USA Today no último dia 14 relatava a travessia do Estreito de Ormuz pelo porta-aviões Abraham Lincoln. A nota preocupante é que o navio e sua escolta foram acompanhados de perto por embarcações de guerra iranianas.  Do outro lado do Golfo, o Departamento de Defesa desembarcou discretamente no Kwait 15 mil militares na primeira metade de janeiro.

Se os burocratas escolhem as palavras e preferem creditar aos israelenses a iminência de um ataque ao Irã, os militares, não muito afeitos à diplomacia, oferecem pistas valiosas. O vice-almirante Mark Fox, lotado no quartel general da 5ª Frota, declarou recentemente a repórteres sobre o assunto que a marinha norte-americana já “construiu uma vasta gama de opções potenciais que estão à disposição do presidente” e emendou que a força naval estaria pronta “hoje” para confrontar qualquer ameaça vinda de Teerã.

Talvez Fox se refira, entre outros recursos, à construção de um imenso complexo aeronaval pelos EUA na ilha de Socotra, na costa do Iêmen, desde 2010. Segundo estimativas, o número de militares norte-americanos ali já se equipara ao número de habitantes, algo em torno de 55 mil pessoas.

É curioso notar que o mundo não se perguntou por que o ditador do Iêmen, Ali Abdalah Saleh, conseguiu autorização para se tratar na América do Norte dos problemas de saúde decorrentes do atentado que sofreu durante os protestos que culminaram com sua saída do poder. Ao que tudo indica, seria um gesto de boa vontade da Casa Branca a um aliado que está ajudando suas forças militares a terem uma base mais do que estratégica por um lado vital para controlar o tráfico de petróleo rumo ao canal de Suez e, por outro, que permite formar um triângulo com as bases da ilha de Diego Garcia, no Oceano Índico, e as instalações nos emirados do Golfo Pérsico.

Esse triângulo viabiliza uma capacidade de projetar seu poderio militar sem maiores sobressaltos sobre países rebeldes na região como o Irã, que além de insistir em seu programa nuclear, tem abandonado o padrão dólar nas transações com o seu petróleo, vendendo crescentemente sua commoditie para a India e para a China em troca de ouro e alimentos.

Como afirmou Obama no pronunciamento à nação no último dia 24 de janeiro, deixando de lado o tom diplomático, “é preciso deixar bem claro: a América está determinada a impedir que o Irã consiga produzir um artefato nuclear, e não vai retirar opção alguma da mesa para alcançar seus objetivos”.

Se o caos na Síria não se ampliar, enfraquecendo a posição relativa do Irã no Oriente Médio, e os próprios iranianos não se mostrarem mais dóceis no decorrer das próximas semanas, as condições para uma ação militar estarão dadas bem antes das eleições de novembro. É possível que até lá os falcões tenham engolido todos os pombos.

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