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Internacional

Crise do Euro

'O calote grego é questão de tempo'

por Clara Roman — publicado 04/10/2011 17h05, última modificação 04/10/2011 17h05
Pesquisadora da Unicamp fala sobre a complicada situação que vive o Euro. Se moeda acabar, diz ela, será um 'deus nos acuda'

A Grécia acabou de marcar a data do seu calote. O ministro das Finanças Evagelos Venizelos afirmou nesta terça-feira 4 que o país terá dinheiro até novembro, data em que espera receber ajuda dos demais países do Euro. Para Maryse Farhi, professora e pesquisadora de economia da Unicamp, o calote grego é questão de tempo.

As bolsas europeias caíram, seguindo a tendência dos últimos dias. Enquanto isso, o vice-ministro de Economia da Alemanha Stefan Kapferer propôs diretrizes para um calote ordenado. “Eu nunca vi isso. Isso é uma história para ser contada”, comenta Farhi sobre a estratégia. “Periga ser um ‘deus nos acuda’”, afirma.

Para a pesquisadora, a crise no Euro existe desde sua criação. Mas só foi revelada a partir da crise americana em 2008, em que o bloco foi afetado pelas dívidas dos grandes bancos americanos. “As fraquezas genéticas do euro só não eram aparentes”, afirma.

Desde então, explica, a economia mundial se tornou um pêndulo entre a dívida pública e privada. Ou seja, quando os governos correram para socorrer a dívida das instituições financeiras privadas, eles acabaram criando uma crise sistêmica e destruindo a confiablilidade de seus títulos públicos. Os bancos, por sua vez, que possuem a maior parte destes títulos, ficaram atrelados a dívida pública, fechando um círculo vicioso difícil de ser quebrado.

O problema não é a Grécia em si. A dívida do país é pequena em relação ao rendimento da União Europeia. Mas o país é só o primeiro da fila. “A Grécia é o que está na manchete do jornal hoje”, diz ela. Se cair, logo entrará Irlanda, Espanha, Portugal e até Itália, com dívidas cada vez maiores.

Além da crise cada vez mais profunda no Euro, Farhi aponta que a Europa enfrenta uma paralisia política. “Existe um problema institucional que não está sendo levantado. Empaca tudo. Na Europa, o processo não sai”, diz ela. Por isso, diz ela, que a ajuda só será possível em novembro. Enquanto isso, a Grécia agoniza. Os Estados Unidos enfretam paralisia similar, com o Congresso dominado por Republicanos, de oposição ao presidente Barack Obama e que não permitem que medidas de incentivo sejam aprovadas.  “Eu nunca achei que fosse falar isso, mas hoje quem mais tem independência é Ben Bernanke, do Fed”, diz ela.

A pesquisadora afirma que, se a União Europeia tivesse intervido antes, o prejuízo seria muito menor. “Não dá para deixar as coisas em banho-maria para ver o que rola”, afirma. “O problema ficou tão grande tão grande, de repente, não tem instrumento de intervenção suficiente”, analisa.

A Alemanha, ainda que em ligeira recessão, vive um dilema sobre bancar ou não os erros dos menores. “A Grécia entregue a si mesmo está falida”, afirma Farhi. Mas a Alemanha e a União Europeia como um todo não quer bancar sua dívida. Isso, segundo o raciocinio conservador, seria premiar práticas erradas. Mas, lembra Farhi, Alemanha e França foram os primeiros a quebrar a disciplina financeira imposta pelo Tratado de Maastricht – que deu início a UE – logo nos primeiros anos, contraindo dívidas e dando o recado de que aquilo não era tão sério assim.

“A Alemanha é uma imensa incógnita”, diz ela. O governo de Angela Merkel tenta a todo custo não desagradar os eleitores, que não gostam da ideia de conceder auxílio a países da zona do euro. Ao mesmo tempo, o partido conservador perdeu as últimas eleições regionais, quando o Partido Socialista teve diversas vitórias. Fato contraditório, uma vez que o Partido Socialista defende o pacote de ajuda ao Euro.

O descontentamento generalizado, no entanto, tende a piorar. Enquanto o PIB da Grécia diminui, praticamente impossibilitando que caia o valor da dívida/PIB, o fim do euro parece uma possibilidade cada vez mais próxima.

Sair do Euro é muito caro, explica Farhi. Afinal, há anos que é a única moeda que as instituições possuem. “Vai ser uma loucura. Por isso que eu não consigo ver de forma organizada”, diz ela. Uma espécie de ‘salve-se quem puder’ generalizado, onde estado, bancos e população compartilham a mesma sensação de estarem quebrados. Ao final da entrevista, quando a repórter conclui com um ‘tá bom’ retórico, Farhi brinca “Não, não está nada bom”.

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