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O bunga-bunga no banco dos réus

por Paolo Manzo — publicado 23/02/2011 10h25, última modificação 23/02/2011 17h00
Marcado para 6 de abril o processo contra Berlusconi, desfrutador de menores
O bunga-bunga no banco dos réus

Marcado para 6 de abril o processo contra Berlusconi, desfrutador de menores. Por Paolo Manzo. Foto:Samuel Kubani/ AFP

Marcado para 6 de abril o processo contra Berlusconi, desfrutador de menores
É preciso pôr ordem nesta orgia, diria o Marquês de Sade. Já Berlusconi, em lugar de orgia, diria bunga-bunga, evento sexual por ele assiduamente praticado, conforme a apuração dos promotores de Justiça de diversas cidades italianas, a começar por Milão, onde o processo que o incrimina por concussão e prostituição de menores está marcado para iniciar dia 6 de abril.
Menor era, quando os fatos se deram, a celebrada Ruby, capitosa marroquina, também conhecida como Rubacuori, rouba corações. A concussão decorre de um telefonema que o próprio Berlusconi deu para o departamento de polícia onde a marroquina se encontrava detida em virtude de uma denúncia de furto. O premier procurou intimidar o delegado de plantão ao solicitar a soltura imediata de Rubacuori, por ele apresentada como sobrinha-neta de Hosni Mubarak, que visitara meses antes. Algo assim como uma estudantada praticada por um chefe de governo, que não deixaria de provocar o protesto oficial do anfitrião egípcio.
Desde terça 15, Berlusconi é réu. Conforme a decisão da juíza da instrução preliminar, Cristina Di Censo, houve no episódio do telefonema intimidatório, a configurar a concussão, atuação por interesse privado, quer dizer, do cidadão e não do primeiro-ministro. É a interpretação que os defensores de Berlusconi contestam. Talvez um premier como Berlusconi seria capaz de premiar com mais de 180 mil euros em três meses os serviços da bela Ruby. Mas tivesse atuado como premier, Berlusconi haveria de ser processado pelo Tribunal de Ministros, composto de juí-zes sorteados, em seguida à autorização do Parlamento. Onde o chefe do governo conta com maioria.
A questão teria de ser resolvida pela Corte Constitucional, por enquanto vale, porém, a decisão da juíza Di Censo, que entregou o caso à IV Sessão do Tribunal de Milão, integrada por três juízas, Carmen D’Elia, Giulia Turri e Orsolina De Cristofaro, todas nascidas em 1962. O infatigável conquistador que diz nunca ter pago pelo sexo com damas da noite e belas da tarde e de relacionar-se com todas de forma muito delicada, será julgado por três mulheres e está sendo por centenas de milhares.
No domingo 13, italianas de diversas extrações sociais saíram às ruas em várias cidades, 1 milhão somente em Roma, para reivindicar a dignidade da mulher e pedir a demissão do premier. Assim como chama os juízes que lhe complicam a vida de “comunistas”, Berlusconi define as manifestantes como “feministas facciosas”.
 As passeatas domingueiras tiveram peso e eco profundo. Uma pesquisa do Instituto Demos revelava na segunda 14 que 50% dos entrevistados pretendiam a demissão imediata de Berlusconi. Na terça-feira 15, outra pesquisa, encomendada para o programa de debate político Ballarò da Rai, muito respeitado, elevava o número para 60%. Uma terceira, destinada exclusivamente a eleitores católicos, deu o resultado de 57%.
Está claro que não  é somente a dignidade da mulher que está em jogo. É a dignidade de um país saído da Segunda Guerra Mundial em escombros, derrotado ao cabo de uma longa ditadura, e que conseguiu reerguer-se pela força do engenho e do trabalho ao criar um Estado Democrático de Direito e uma das maiores economias do mundo. A despeito da escassez de recursos naturais, da relativa escassez de terra fértil e do atraso do sul, a sofrer a herança dos Bourbon e a presença do latifúndio.
Silvio Berlusconi tornou-se o estandarte de um país cada vez menos influente, francamente à deriva, habitado por uma nação que vive o dia a dia sem maiores motivações, desiludida com a política e com a atuação do sindicato que tanto a empolgaram em outros momentos, aflita com a presença de jovens sem emprego e pela invasão crescente dos migrantes europeus, asiáticos e africanos. Neste exato instante, a Ilha de Lampedusa, ao sul da Sicilia, recebe milhares e milhares de tunisianos e recorre à UE em busca de ajuda para enfrentar a emergência.
Nesta moldura dramática, a Itália padece o desempenho de uma personagem- de ópera-bufa, o velho de 74 anos, de pele esticada e lustrosa de cremes e unguentos, de cabelos implantados, de olhar lânguido de galã do cinema mudo, empenhado em driblar o conflito de interesses que confronta sua sede de poder político com as conveniências de sua empresa. Ele governa em causa própria ao cuidar da aprovação de leis destinadas a assegurar-lhe a impunidade.
Personagem patética e também daninha, mas duríssima na queda. Os italianos pagam por tê-lo levado ao poder três vezes em 17 anos e por tê-lo ali mantido apesar dos governos medíocres que chefiou e da sua atuação entre ridícula e grotesca, tanto nas surtidas mundo afora quanto nos comportamentos Itália adentro, a confundir constantemente público com privado e vice-versa. A oposição em bloco, unida pela causa comum, pede sua demissão. É certa, no entanto, a maioria que o apoia no Parlamento, encabeçada por cortesãos fidelíssimos e garantida pela Liga de Umberto Bossi.
Há tentativas em curso dos Democratas de Esquerda no sentido de  atrair Bossi com a promessa de apoio à sua proposta de federalismo, na esperança de repetir o que ocorreu em 1994, quando a Liga rompeu subitamente a aliança com Berlusconi e provocou o fim do seu primeiro governo antes de completar um ano. Por ora, a manobra não prospera, enquanto o partido fundado por Gianfranco Fini ex-cofundador do Povo da Liberdade, a agremiação berlusconiana, hoje líder do Futuro e Liberdade, vive graves momentos de tensão interna por obra do propósito manifestado por vários dos integrantes de voltarem ao aprisco inicial, em alguns casos já concretizado.
O premier sabe como atrair apaniguados de quem se tornou seu inimigo íntimo há pouco tempo, bem menos obedientes a Fini do que seus cortesãos a ele. Cabe dizer que os italianos acordaram tarde? O momento é de incerteza, apinhado de perguntas por ora sem resposta. É certo que, processado pelas três juízas de Milão, o premier não escapará à condenação. Como acabará, no entanto, o braço de ferro entre Judiciário e Legislativo precipitado pelo debate em torno da competência do tribunal chamado a julgar Berlusconi? A corte milanesa ou o Tribunal dos Ministros? É questão ainda não resolvida, mas está claro que Berlusconi tudo fará, sem exclusão de golpes baixos, para sair pela tangente mesmo a custo de suscitar um conflito institucional de consequências imprevisíveis.
O declínio do prestígio do primeiro-ministro acentua-se, mas os números no Parlamento, contudo, estão a seu favor. O que pode influenciar fortemente o desfecho da história? Manifestações populares como a de domingo 13, certamente. Seja o embate institucional, seja a pressão das praças, ao criarem um clima de grande agitação nacional poderiam induzir o presidente da República, Giorgio Napolitano, a entrar em cena para brandir o poder que a Constituição lhe confere de convocar novas eleições, de sorte a gerar um esclarecimento final pela vontade das urnas.
 Berlusconi, que se encontrou com Napolitano logo após a definição da data do processo pela magistratura de Milão, diz ter recebido do presidente uma garantia: não dissolverá a Câmara e o Senado para a realização do pleito antecipado até quando Berlusconi contar com a maioria. Napolitano não confirma as declarações do premier, acentua apenas preocupações cada vez maiores. Não há dúvidas de que terá fartas razões para agir se a situação se agravar pelas razões apontadas acima.

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