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O Brasil e sua luta contra a guerra

por Gianni Carta publicado 15/02/2011 10h05, última modificação 25/10/2011 11h52
De 1948 a 2008, 18 mil militares brasileiros participaram de operações de paz
O Brasil e sua luta contra a guerra

De 1948 a 2008, 18 mil militares brasileiros participaram de operações de paz. Por Gianni Carta

De 1948 a 2008, 18 mil militares brasileiros participaram de operações de paz

Em 60 anos de operações de paz, de 1948 a 2008, “o Brasil enviou 18 mil militares, policiais e civis para mais de 40 missões”. Brasileiros estiveram presentes em operações de paz nos Bálcãs, na América Latina, Caribe, Europa, Oriente Médio, África e Ásia. Isso sem contar a cessão de homens e equipamentos para duas- Forças Multinacionais, informa Paulo Roberto Tarrisse da Fontoura, embaixador brasileiro no Líbano. Dezoito militares e policiais brasileiros perderam suas vidas em operações de paz patrocinadas pela Organização das Nações Unidas (ONU) entre 1948 e 2009. Desse total está excluído Sérgio Vieira de Mello porque era Alto Comissário da ONU para os Direitos Humanos, quando, em 2003, foi assassinado, com mais 21 pessoas, pela Al-Qaeda. Vieira de Mello participou de operações de paz.
E eis que desponta um novo líder brasileiro na ONU. Trata-se do contra-almirante Luiz Henrique Caroli. Ele será o primeiro brasileiro designado pela ONU a comandar frotas onusianas na história. Caroli assumirá o comando da Força-Tarefa Marítima (FTM) no dia 15, quando se apresentará ao comandante espanhol Alberto Asarta Cuevas, da Força Interina das Nações Unidas no Líbano (Unifil, em inglês).
Criada pela ONU em março de 1978, após a invasão israelense do sul do Líbano, a missão Unifil recebeu seu mandato, como é sempre o caso, do Conselho de Segurança das Nações Unidas. A Unifil é das raras missões da ONU com um componente terrestre e outro naval. Caroli não vai comandar a missão da Unifil – ele assumirá, sublinhe-se, a liderança do componente naval da operação de paz.
Da mesma forma, as mídias canarinho e internacional costumam errar ao dizer que o Brasil comanda a Missão das Nações Unidas de Estabilização no Haiti (Minustah), estabelecida em abril de 2004. Na verdade, o Exército Brasileiro lidera o componente armado, com significante efetivo de brasileiros, mas também composto de soldados de diversos outros países, principalmente da América Latina.
Em entrevista concedida em meados de janeiro, em Jerusalém, a Viviane Vaz, de CartaCapital, Caroli discorreu sobre o novo cargo na direção da FTM. Um desafio “tremendo”, constatou. Uma missão “delicada”, quando se leva em consideração a “área conturbada que é o Oriente Médio”. Caroli, treinado para a tarefa, mostrou-se otimista na execução de suas funções.
O objetivo da FTM, explicou o contra-almirante, é “contribuir com a paz e a segurança internacional”. O segundo objetivo “é dar projeção ao país”. O Brasil “aspira a ser um ator global e tem de alguma forma contribuir para esses processos de paz no mundo”. Esse desejo de projeção global é visto pela The Economist como, nas palavras de uma entrevistada brasileira para um artigo da revista britânica, “o preço a pagar para constar entre as nações a formular regras”.
A The Economist, com boa memória, reconhece o fato de o Brasil ter participado de inúmeras operações de paz da ONU, desde 1948. Mas teria sido o governo Lula a estabelecer essa nova política “altruísta” para projetar o País no exterior. Seria uma política útil para o próprio Brasil, a das operações de paz. De saída, a nova escola para formar pessoas aptas a participar em operações de paz, a CIOpPaz, treina peacekeepers que trabalham juntamente com a polícia nas favelas.
Ao mesmo tempo, operações de paz ajudam a modernizar o Exército. Após a ditadura (1964-1985), o Exército precisava adaptar-se a novas realidades, esclarece The Economist. Isso, apesar de, no caso do Haiti, o Exército Brasileiro ter aceitado pela primeira vez atuar sob o Capítulo 7 da Carta das Nações Unidas. O capítulo estabelece promover intervenções baseadas no uso da força, e não apenas em casos de autodefesa. O governo brasileiro foi atacado pela esquerda por ter capitulado diante de uma política que não aprova.   
No mundo das relações internacionais, é evidente, o altruísmo não pode ser a única meta de um país. Em seu livro Brasil: 60 Anos de Operações de Paz (Rio de Janeiro, Serviço de Documentação da Marinha, 2009), Campos Tarrisse da Fontoura, embaixador no Líbano, escreve que o Brasil, Estado fundador da ONU, “é coerente com suas responsabilidades internacionais”. Mais: baseado na Carta das Nações Unidas, “o Brasil entende que medidas coercitivas devem ser sempre a opção de última instância”.
Campos Tarrisse da Fontoura constata ainda: “A instabilidade política, social ou econômica em países e regiões, por longínqua que possa parecer, acaba por afetar toda a comunidade internacional”. A preservação da paz, continua, é garantia para as atividades socioeconômicas. Isso tem seu preço, e o embaixador não mastiga palavras: “Esse preço é o da participação nos esforços internacionais para superar controvérsias e dissipar surtos de violência no mundo”.
Um dos pioneiros a integrar operações de paz foi John Anderson Munro, capitão-tenente, um dos três brasileiros entre 36 observadores voluntários da Comissão Especial das Nações Unidas para os Bálcãs (Unscob), estabelecida pela ONU em outubro de 1947. Início da Guerra Fria. Um movimento comunista com 25 mil militantes criou então a “Grécia Livre”, na região do Grammos. Pairava no horizonte uma guerra civil, visto que os comunistas, integrantes do Exército Democrático da Grécia, encontravam-se equipados até os dentes com armas abandonadas pelos alemães.
Imparcial, dentro do possível (e eis um ponto de contenda nessas missões), a Unscob tinha mandato para vistoriar as fronteiras entre Grécia e Albânia, Iugoslávia e Bulgária. Meta: monitorar o tráfico de armas e fornecimento de ajuda médica, e livre trânsito aos militantes da chamada “Grécia Livre”. Debaixo de feroz inverno, Munro e seus pares tinham de enfrentar zonas minadas e montanhosas, sujeitos a emboscadas. Os trajetos eram feitos a pé, no lombo de mulas ou em jipes. Estavam, assim, expostos aos mesmos perigos dos militares gregos.
Em 1956, após a nacionalização do Canal de Suez pelo presidente Gamal Abdel Nasser, o Brasil mantinha um contingente de 3.305 homens na Força de Emergência das Nações Unidas (Unef-I). Aquela foi primeira experiência das Forças Armadas brasileiras em fornecer tropas para a ONU. E quando a Unef-I deixou o território em 1967, expulsa pelo governo egípcio, irrompeu a Guerra dos Seis Dias, que recompôs o mapa do Oriente Médio.
Além da missão no Haiti, mais recentemente o Brasil participou em intervenções de paz em Angola, Moçambique, Timor-Leste, Saara Ocidental e Costa do Marfim. Sobre seu livro, o embaixador Campos Tarrisse da Fontoura me diz: “Meu objetivo era fazer uma homenagem, não tinha outra intenção, muito menos ganhar dinheiro’’. O livro está à venda em duas livrarias da Marinha, no Rio de Janeiro.

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