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O agitado verão dos socialistas

por Gianni Carta publicado 24/07/2009 12h42, última modificação 25/10/2011 13h39
O cenário político francês tem se revelado bastante acalorado graças às escaramuças entre os líderes do Partido Socialista

O cenário político francês tem se revelado bastante acalorado graças às escaramuças entre os líderes do Partido Socialista

Julho e agosto são meses de tédio para jornalistas europeus por causa da escassez de histórias dignas de veiculação. Este não é o caso neste verão. O cenário político francês tem se revelado bastante acalorado graças às escaramuças entre os líderes do Partido Socialista, que lançam suas flechadas via celulares BlackBerry, blogs, mídia e até em cartas publicadas por diários estrangeiros. 

A nada carismática Martine Aubry, secretária-geral do PS, puxa as orelhas dos “rebeldes” do partido, como Manuel Valls, o deputado e prefeito de Evry, de 45 anos, que ambiciona a modernização do PS e sua candidatura à Presidência, em 2012. Felizmente, para o PS, adentrou o tablado o midiático filósofo Bernard Henri-Lévy. 

Talvez ele seja mais popular pelas suas marcas registradas: camisas de brancura imaculada, e sua vasta cabeleira com mechas ligeiramente grisalhas – certamente refratárias devido a golpes de vento de um eficiente secador de cabelo. Mas BHL por vezes diz coisa com coisa. “O Partido Socialista está morto”, opina ao Journal du Dimanche. E formula uma metáfora: o PS é como um “cavaleiro de Italo Calvino cuja armadura estava vazia”. 

Nicolas Sarkozy, do seu canto, assegura ao povo: o segundo partido da França não está à beira do abismo. Claro, Sarko precisa de uma oposição, especialmente se ela for o cavaleiro de Calvino. E dada a aparente calmaria, o presidente, vulgo Bling-Bling, deixou até de dar o ar da graça em todos os órgãos da mídia.

Fez mais: chamou a Corte de Contas para fazer uma auditoria do orçamento do Elysée. Ao contrário de seus antecessores, Sarko revelou-se um presidente transparente. Todas aquelas garden parties, carrões e viagens financiadas pelo contribuinte seriam esclarecidas. Mas Sarko teve uma má notícia: os magistrados da Corte revelaram que o Elysée teria versado, em 2008, 1,5 milhão de euros para a Publifact, gabinete de estudos dirigido por Patrick Buisson, conselheiro de Sarko com assumidas inclinações de extrema-direita. 

O misterioso Buisson teria manipulado sondagens realizadas pelo instituto OpinionWay. Os resultados das pesquisas políticas desse instituto, feitas pela internet, têm sido divulgados pelo diário de direita Le Figaro, e pelo canal de tevê LCI. Segundo o Libération, já em 2007 o maior cliente do OpinionWay era a UMP (partido político de Sarko), via Publifact. 

Contente de poder desviar um pouco a atenção do povo para Sarko, o PS pede a criação de uma comissão parlamentar, que só poderá vir a ser discutida após o recesso parlamentar, em meados de setembro. Mas um possível escândalo envolvendo Sarko não resolverá os dilemas do PS. 

A mais recente briga intestina no seio do PS foi iniciada com um SMS que a prefeita de Lille, Aubry, enviou de seu BlackBerry a Manuel Valls, em 14 de julho. Diante dos discursos de Valls de modernização do PS, a primeira-secretária foi objetiva: ele deveria se calar, ou deixar o partido.

Uma semana após o recado de Aubry, Valls publicou um artigo no Financial Times. O deputado argumenta que se o PS não mudar, morrerá. Esboça alguns aspectos para uma nova doutrina para a esquerda. Diz que os sucessos de Sarko não provocaram a crise do PS. Os argumentos do deputado socialista são válidos: os cortes de impostos, entre outras “reformas”, favoreceram os ricos. Valls, contudo, oferece críticas, mas nenhum programa para a esquerda. 

O PS vai mal há tempos. Não tem líder e ideias novas. Ganhou as últimas presidenciais e legislativas em 1988 e 1993. Trata-se de um partido que vence pleitos regionais. Nas eleições de 2007, Ségolène Royal perdeu para Sarko. 

Nas eleições europeias no início de junho, o PS levou uma surra do UMP. Por pouco não perdeu para o Verde Daniel Cohn-Bendit, o lendário estudante radical de 1968. O PS também tem de lidar com partidos como o Novo Partido Anticapitalista de Olivier Besancenot, um trotskista mais conhecido como o “Carteiro Vermelho” (ele é carteiro e político). Besancenot não irá longe, mas faz um discurso necessário: justiça social, impostos para os ricos e salários decentes. E o PS foca na igualdade entre o homem e a mulher. 

Para piorar o quadro para o PS, a direita europeia recorre a remédios da esquerda para lidar com a crise: regulação dos mercados, críticas ao capitalismo... E a base eleitoral, outrora fiel a este ou àquele partido, mudou. Por ora, Valls e BHL dizem que é preciso dar um novo nome ao PS. Esta seria uma forma de diminuir a “confusão”. Falta luz.