Você está aqui: Página Inicial / Internacional / Nova York-Cabul

Internacional

EUA

Nova York-Cabul

por Wálter Maierovitch publicado 23/08/2010 16h42, última modificação 25/08/2010 13h26
Os problemas de Obama com a mesquita no Ground Zero e com a guerra no Afeganistão
Nova York-Cabul

Os problemas de Barack Obama com a mesquita no Ground Zero e com a guerra no Afeganistão. Por Wálter Fanganiello Maierovitch. Foto: Darren Hauck/AFP

O presidente Barack Obama passou a semana irritado e pro-curou desvencilhar-se da camisa de sete varas na qual se enfiou. Duas foram as causas dos desconfortos, a provocar os malabarismos presidenciais: (1) o general David Petraeus, comandante das forças no Afeganistão, e (2) o projeto de 100 milhões de dólares para a construção, em Nova York, da mesquita Ground Zero e do complexo sociocultural islâmico Cordoba Center, um prédio de 13 andares com auditório, biblioteca, restaurante, piscina e orfanato.

Fosse outro o prestígio popular de Obama, Petraeus amargaria o mesmo destino do general Stanley McChrystal, demitido do comando das tropas no Afeganistão em 23 de junho. Só para recordar, McChrystal, em entrevista à revista Rolling Stone, atacou a administração Obama, acusada de trapalhadas em questões geopolíticas e geoestratégicas a envolver o Afeganistão e o vizinho Paquistão.

Na verdade, ambos os generais surpreenderam Obama, que deles esperava um troféu. McChrystal prometera a cabeça do mulá Mohammad Omar, chefe supremo do governo taleban (1996-2001) e atual responsável pela reorganização da guerrilha, com quartel-general em Senjaray (província de Kandahar), cidade palco do casamento da sua filha com Osama bin Laden. Quem trairia o mulá Omar seria Haji Ghani, um chefe tribal, elencado pela CIA na categoria de “Senhor da Guerra” e cooptado a peso de ouro.

Como se sabe, o mulá Omar, que admitiu a instalação de campos de treinamento da Al-Qaeda e se recusou a entregar Bin Laden depois dos ataques terroristas de 11 de setembro, deu causa à invasão do Afeganistão. McChrystal passou ao sucessor Petraeus, 57 anos e fama de ter anteriormente pacificado a violenta cidade iraquiana de Mossul, os relatórios com informes de como encontrar o mulá Omar. Num dos relatórios, McChrystal aponta o recente deslocamento de Omar para a paquistanesa Quetta.

A partir dos informes de McChrystal, a CIA começou a difundir que o governo alqaedista estava no Paquistão, conforme alertado em discurso de Obama. Isso dava suporte ao anúncio da retirada das tropas do Afeganistão a partir de julho de 2011. Mas Petraeus surpreendeu. Em entrevista recente, o general negou a retirada das tropas na referida data. Sustentou que ocorreria somente um “processo condicionado à situação de campo e de momento”.

A declaração coincidiu com a divulgação de mais uma dolorosa informação: em julho, morreram 66 militares norte-americanos no Afeganistão. Em vez de nova demissão, Obama incumbiu Robert Gates, secretário da Defesa, de confirmar para julho de 2011 o início da saída das tropas: “A data de julho não é negociável”. Não faltou quem lembrasse que Gates deixará o cargo no início de 2011 e não poderá ser questionado em julho.

Para os 007 ocidentais, a ressalva de Petraeus prende-se à sua crença num acordo de paz com os talebans, que já teria sido iniciado. Por isso, o general quer mudar a imagem dos norte-americanos entre a população afegã. Ele mandou imprimir e entregar aos soldados um manual de comportamento, com 24 regras e quatro páginas. Dentre as regras está a de tirar os óculos Oakley e Ray-Ban quando em interlocução com um afegão. Para obter a paz, Petraeus entende ser necessário mudar a mentalidade dos soldados e os métodos empregados até agora. Na sua visão, a fixação de uma data certa só atrapalha.

Por outro lado, Obama recuou no apoio às edificações da mesquita e do Cordoba Center, ambos próximos do lugar das Torres Gêmeas derrubadas pelos alqaedistas. No primeiro discurso e com pleno acerto, Obama invocou o princípio da liberdade religiosa para apoiar o projeto. Mas, para cidadãos ainda traumatizados e os impregnados pela propaganda direitista de considerar todos os islâmicos terroristas, o apoio presidencial foi irresponsável.

A engrossar as críticas, além da histriônica Sarah Palin, candidata derrotada à Vice-Presidência e ex-governadora do Alasca, despontaram parlamentares democratas, o governador e o prefeito de Nova York. Sob pressão, Obama recuou e o porta-voz da Casa Branca esclareceu ter o presidente afirmado apenas “o direito de todas as religiões de terem um lugar de culto” – uma obviedade. Para o jornal israelense Haaretz, que circula nos EUA, a comunidade islâmica de Nova York estaria na iminência de abandonar o projeto, num gesto de sensibilidade e respeito à opinião pública e às vítimas do 11 de setembro.

Desse episódio, é bom lembrar que o princípio da liberdade religiosa representa uma das conquistas da civilização ocidental. E ele se aperfeiçoa com a permissão, nos Estados democráticos e leigos, de construção de locais para culto e convívio, com imunidades tributárias.

registrado em: