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Notícias, mentiras e internet

por Antonio Luiz M. C. Costa publicado 14/06/2011 10h36, última modificação 14/06/2011 12h38
Blog de síria lesbica é uma fraude de autoria de um casal estadunidense que vive na Escócia

Em fevereiro de 2001, quando a “primavera árabe” acabava de ser vitoriosa na Tunísia e Egito e começava a inquietação na Síria, um blog chamado “A Gay Girl in Damascus” chamou a atenção da mídia. Nele, uma suposta síria-americana chamada Amina Abdallah Araf al Omari, muçulmana lésbica filha de uma estadunidense que optara por viver na Síria com o pai, alternava comentários sobre repressão sexual e a vida de minorias sexuais no país, com críticas a Israel e relatos sobre a violenta repressão física de manifestações políticas, das quais começava a participar.

Em abril, os relatos tornaram-se mais tensos: Amina contou que seu pai teria sido abordado por agentes do governo sírio que ameaçavam prendê-la e estuprá-la, acusando-a de envolvimento num complô fundamentalista. Ela teria passado a esconder-se em diferentes apartamentos e em maio, ao ser novamente procurada, passou a viajar clandestinamente pelo país debaixo de um véu islâmico, continuando a denunciar abusos do regime de Bashar al-Assad, inclusive em uma entrevista por e-mail à CNN.

Em 6 de junho, uma suposta prima postou no blog que ela tinha sido capturada por homens armados quando se dirigia a uma reunião de um grupo de oposição – com a costumeira riqueza de detalhes, que incluía um adesivo de Bassel al-Assad (um falecido irmão do presidente, morto em 1994) pregado no vidro do Renault Logan no qual ela teria sido sequestrada.

Uma conhecida blogueira dos EUA, Liz Henry, expressou dúvidas sobre se a história era real, pois já tivera experiência com uma imaginária muçulmana lésbica inventada por um blogueiro, a própria Amina se mostrara interessada em “personas” e ficção em seu texto e não se viam amigos, parentes ou colegas de carne e osso que atestassem sua existência fora da internet. Sandra Bagaria, uma canadense de Montreal que dera entrevistas sobre Amina e era citada como sua namorada, admitira que o relacionamento era apenas virtual, embora tivesse planos de encontrá-la na Itália.   

Mas outros blogueiros, organizações LGBT e jornalistas experientes embarcaram numa campanha “Free Amina”, exigindo de Washington que intercedesse pela libertação da suposta estadunidense. Vários grandes jornais em todo o mundo contaram sua história e estamparam a suposta foto. Mas o Departamento de Estado não tinha notícia de cidadã dos EUA com esse nome ou que, mesmo sob pseudônimo, se encaixasse em sua história e no mesmo dia, Jelena Lecic, uma croata que vive e trabalha no Reino Unido, reconheceu-se nas fotos de “Amina”, que tinham sido tiradas de sua página no Facebook (aliás, supostamente configuradas para serem privadas) e usadas por ela sem seu conhecimento ou autorização.

No dia 10, um site lésbico ironicamente chamado “Lez Get Real”, no qual Amina publicara textos antes de ter seu próprio blog, e que ajudou a criar “A Gay Girl in Damascus”, pediu desculpas a seus leitores, dizendo que o endereço IP (protocolo de internet) das mensagens de Amina apontava para Edimburgo, Escócia. A editora do site acreditava que ela era uma ficção criada por uma lésbica de 35 anos que vivia nessa cidade.

As dúvidas sobre a existência de Amina começaram a se multiplicar e em 12 de junho o site pró-palestino The Electronic Intifada denunciou que Amina era uma ficção elaborada por um casal de estadunidenses vivendo em Edimburgo, Escócia, Tom MacMaster e Britta Froelicher. Entre outros indícios que os relacionavam a Amina, ambos tinham morado antes nos EUA, em um endereço que Amina dera como seu ao se registrar como moderadora de um grupo do Yahoo!, Britta tinha publicado em seu próprio blog uma foto que anos depois apareceu no blog de Amina, com maior resolução. Ambos estavam envolvidos com a causa democrática no Oriente Médio e Britta faz um doutorado sobre a economia síria.

Questionados pelo site, Tom e Britta inicialmente negaram a fraude, mas ao fim do dia a admitiram. Tom explicou que inventara o sequestro como pretexto para suspender a atualização do blog, uma vez que estava para tirar férias na Turquia. Pediu desculpas por sua obra de ficção – que disse estar pensando em transformar em romance –, mas justificou-se dizendo que se cansara de apresentar os fatos sobre o Oriente Médio a seus compatriotas sem ser levado a sério, que os fatos relatados eram basicamente verdadeiros, que desejara dar uma voz a questões que para ele eram muito importantes, mas eram tratados superficialmente pela mídia e que “não feriu ninguém”.

As pessoas que conversaram e trocaram mensagens pessoais com “Amina” como se fosse real e as milhares de pessoas que lhe deram apoio, se afligiram por seu destino e pediram sua libertação sentiram-se, porém, muito feridas, como é natural. Muitos ativistas e blogueiros da internet, principalmente os que estão de fato envolvidos nos acontecimentos da Síria, também ficaram furiosos, por receio de que essa fraude lhes tire a credibilidade.

A ética de Tom e Britta, ao permitir que a fraude tomasse tais proporções, é muito criticável, por mais que aleguem bons propósitos. Mas é à imprensa, bem como a blogosfera que pretende substituí-la ou completá-la, quem mais precisa se questionar. É inevitável que, com boas ou más intenções, tais fraudes voltem a acontecer. Na era da internet, jornais, agências e sites de notícias precisam redobrar os cuidados com a credibilidade de suas fontes, mesmo que (ou principalmente se) elas informam a partir de países onde os fatos são difíceis de verificar. É preciso compreender os mecanismos da internet e não aceitar como verdade relatos sobre pessoas cuja existência não se consiga comprovar na vida real.

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