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"Nos sistemas corruptos, as pessoas decentes têm duas opções: conformar-se ou ser esmagadas"

por The Observer — publicado 02/07/2012 15h32, última modificação 06/06/2015 18h59
Segundo o secretário britânico Vince Cable, o surgimento de uma nova raça de banqueiros "decentes" evitará outros absurdos financeiros. Mas até reconhecermos que o sistema em si é defeituoso os bancos continuarão transformando trabalhadores comuns em escroques sem vergonha e mercadores em busca de ganhos rápidos
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Escritório do Barclays em Nova York. O banco pagará 290 milhões de euros para encerrar uma investigação sobre a manipulação de taxas interbancárias de juros feitas por seus operadores. Foto: Stan Honda / AFP

Malandros! Larápios! Jogadores de dados! Charlatães! Chamar os escroques pelos nomes certos é satisfatório - e talvez seja a única satisfação que o público terá. Mas também é, estranhamente, bastante ingênuo. Pois assume que pessoas melhores e mais decentes não acabariam manipulando as taxas de juros ou ludibriando na venda de produtos financeiros.

Toda a evidência dos muitos escândalos dos últimos anos é que não são os sociopatas que criam culturas podres. São as culturas fechadas, arrogantes e irresponsáveis que transformam pessoas comuns em sociopatas. Coloque uma jovem Madre Teresa, um jovem Nelson Mandela ou são Francisco de Assis na sala de corretagem do Barclays e você pode apostar (com probabilidades cuidadosamente manipuladas) em quanto tempo passará antes que eles estejam metidos até o pescoço em golpes e esquemas.

No entanto, um mito em estilo hollywoodiano de redenção pessoal permanece. O bem-intencionado Vince Cable disse ao programa Channel 4 News na noite de sexta-feira que "a cobiça e a corrupção permeiam partes substanciais do sistema bancário" e que instituições como a Barclays Capital estão "podres até o caroço".

As duas frases sugerem adequadamente que os problemas são fundamentais e institucionais. Mas o secretário de Economia então concluiu com um apelo otimista a um renascimento moral pessoal como a chave para a reforma: "Há muitas pessoas decentes passando agora pelo sistema bancário... que não fazem parte dessa [cultura podre] e possibilitam esse tipo de mudança em longo prazo".
Essa é a grande ilusão: que as "pessoas decentes" farão a diferença. Sabemos que nos sistemas corruptos as pessoas decentes acabam tendo duas opções: conformar-se ou ser esmagadas. Felizmente para a natureza humana, sempre há pessoas boas e morais que veem o que está acontecendo ao seu redor e decidem que não poderão viver consigo mesmas se aceitarem aquilo. Infelizmente para a sociedade humana, essas pessoas são quase sempre assediadas, marginalizadas e destruídas. Nos sistemas ruins, a pessoa decente é o maluco, o bizarro, o idiota que não joga no time, não é um de nós.

Em um dos bancos que derrubaram a economia irlandesa, o Allied Irish Bank, por exemplo, três auditores internos sucessivos procuraram a direção com preocupações profundas e precisas sobre práticas corruptas que haviam descoberto. Cada um deles foi demitido ou marginalizado. Em um dos casos, o banco até conseguiu culpar o denunciante pelas práticas corruptas que ele revelou.

É isso que os sistemas ruins fazem: recompensam o submisso com a aprovação tribal ("Boa, rapaz") e reformulam a consciência como negatividade. Eles invertem o altruísmo usando os instintos de decência - trabalhar de maneira cooperativa, "estar nisto juntos", defender uma ética comum - para normalizar o comportamento sociopata e tornar a decência desprezível.

Até mesmo as boas intenções são inúteis nesse mundo. Considere, por exemplo, os bispos católicos que acabaram conspirando com os pedófilos predatórios, transferindo-os de paróquia em paróquia. Todos eles são homens treinados durante muitos anos no pensamento moral. Todos eles, talvez, sonhavam em ser santos, da mesma maneira que outros meninos sonhavam em ser jogadores de futebol. A maioria deles são homens individualmente decentes, compassivos e bem-intencionados. Mas acabaram permitindo e encobrindo os mais terríveis crimes contra crianças.

Por quê? Porque eles tinham poder demais. Porque não precisavam responder a ninguém fora de sua própria instituição. Porque tinham uma lealdade ferrenha para com seus colegas. Porque eles não queriam ser aquele que traiu a tribo. Porque o que poderia parecer revoltante na primeira vez tornava-se normal com o tempo. E porque eles puderam se convencer de que realmente tudo era a serviço de um objetivo moral maior.

Os banqueiros não são diferentes - na verdade, os paralelos são marcantes. Eles também lidam com mistérios arcanos cujo significado é negado aos não iniciados. Eles também têm uma linha exclusiva com o Ser Supremo ou, como o chamamos hoje, o Mercado. Eles também operam em mundos fechados que geram suas próprias normas e uma lealdade tribal fervorosa. Eles também têm seus acólitos e verdadeiros fiéis - nesse caso, os economistas e políticos - para tranquilizá-los de que seu comportamento egoísta e revoltante é na verdade para o bem maior. Toda uma ideologia lhes diz que a cobiça viciosa em nível pessoal se traduz milagrosamente em um bem social e econômico coletivo.

Existe outro paralelo entre os banqueiros e os eclesiásticos. Ambos têm estado acima da lei. Ou melhor, cada qual tem seu próprio sistema interno de leis: a lei canônica para o clero, as regulamentações financeiras para os banqueiros. Esses sistemas tornam-se na realidade substitutos para o entendimento básico de criminalidade. Ajude um pedófilo na sociedade comum, e poderá esperar, se for apanhado, passar por apuros. Roube um milhão de libras de uma pequena empresa e você cairá. Mas faça essas coisas dentro dos limites de seus próprios códigos internos e os crimes se tornam ofensas técnicas. A vergonha é minimizada; as consequências são atenuadas.

O que se pode fazer sobre isso? Todo mundo fala sobre a necessidade, na expressão de Mervyn King, de "uma verdadeira mudança na cultura do setor". Mas "cultura" tem uma sensação delicada. Sugere que estamos lidando com as práticas estranhas de tribos exóticas que enfiam ossos no nariz ou se pintam de azul. Implica que devemos chamar os antropólogos, em vez da polícia.

Não há absolutamente nada de exótico na cultura dos mercadores de golpes sofisticados. Filósofos políticos há muito tempo sabem que quando as pessoas têm o poder de se safar com alguma coisa, elas vão tentar se safar com tudo. Dois mil e quinhentos anos atrás, Platão contou a história de Gyges, que encontrou um anel que o tornava invisível. Em poucas semanas ele se transformou de um pastor inocente em um monstro corrupto.

Os banqueiros têm o anel da invisibilidade de Gyges. A maior parte da sociedade não pode ver o que eles fazem. Eles gozam da impunidade virtual por atos que prejudicam a outras pessoas e à sociedade como um todo.

Mas existe um detalhe a mais: não apenas eles não podem ser vistos plenamente, como eles mesmos não podem ver. A cultura do bônus e a desigualdade grotesca que ela sustenta criam uma desconexão da sociedade comum. Nada lá é real: os clientes são apenas mais insumos para a máquina de lucros; as taxas de juros são apenas números para alimentar bônus.

As pessoas decentes sempre serão devoradas por esse sistema indecente. O verdadeiro desafio é reconhecer que sua indecência não é acidental, mas inerente. Essas instituições são grandes demais, justificadamente arrogantes, com frequência bajulados por lacaios intelectuais e políticos e afastadas demais dos valores democráticos e sociais. Elas levaram o mundo à beira do colapso econômico e sobreviveram com poucas mudanças reais. A menos que as democracias as obriguem a agir de outro modo, elas vão esperar com razão que saiam impunes desses pequenos escândalos.

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