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Opinião

Nós e o infindável holocausto palestino

por Roberto Amaral publicado 08/08/2014 11h09, última modificação 12/08/2014 17h04
A humanidade somos nós, uma singularidade que não anula as responsabilidades individuais
Mahmud Hams / AFP

O objeto da agressão continuada de Israel a Gaza (as tréguas e os períodos de não ofensiva militar são espaços irrelevantes numa já longa história de assassinatos coletivos) não é o Hamas, que entra na história como Pilatos no Credo. O alvo inegável da matança é o povo palestino, assassinado friamente, covardemente, em um confronto bestial que opõe um dos mais poderosos exércitos do mundo a uma população desarmada, ou "armada" de pedras e puro desespero.

E fica para estudo de quem ainda se interessar por um povo que a civilização ocidental e cristã considera "de segunda classe", e como de segunda classe o trata, o significado de abalo psicológico, de trauma e destruição emocional de gerações e gerações de crianças criadas sob o medo e o terror, sob a incerteza do amanhã no qual não podem acreditar, convivendo com o assassinato de parentes e amigos, de pais e irmãos, e a destruição de suas casas, escolas, hospitais, e de sua gente.

Sem saber por que, pois ninguém consegue explicar-lhes a razão da brutalidade.  Conhecem-se as mortes, não entre combatentes, mas entre civis, em sua maioria crianças (429), mulheres (243) e idosos (120), alcançados pelas bombas em suas residências, nas mesquitas, nos hospitais e em escolas, inclusive em escolas da ONU, transformadas em refúgio – vulnerável, ver-se-ia – para desabrigados (multidão crescente que se conta pelos milhares). Entre mulheres, crianças e idosos contam-se cerca de 10 mil feridos.

As fotos que nos chegam dos primeiros momentos da "trégua" trazem o espectro da destruição: Gaza, a Gaza que ficou, com cerca de 9 mil residências destruídas, é um cemitério cinzento de monturos, cuja reconstrução pede anos e bilhões de dólares. O último levantamento informa que morreram algo em torno de 2 mil palestinos – repitamos mil vezes: civis, na sua maioria mulheres e crianças, assassinados em suas casas, mesquitas e escolas – e 67 israelenses, quase todos militares. A esses assassinatos em massa um grande matutino carioca chama de troca de "hostilidades" entre "Hamas e israelenses". Compungido, aparentando distanciamento diante da miséria, Barack Obama lamenta os "incidentes" como se se tratasse, a tragédia, de um acidente natural e inevitável, um tsunami, um terremoto, um furacão. Mas trata-se de chacina evitável, e dela não estão distantes ou ausentes os Estados Unidos, nem cada um dos seus presidentes, pessoalmente, desde 1948, inclusive o atual, que armam Israel e lhe dão respaldo militar e politico para que o facínora de plantão na chefia do Estado judeu dê rédeas soltas aos seus instintos sanguinários.

As digitais dos presidentes dos EUA, hoje as de Obama, acompanham o cadáver de cada uma das vítimas, passadas, presentes e futuras, pois outras muitas virão. Diz-se que o grupo Hamas – cuja sobrevivência se alimenta diretamente na truculência sionista – afirna a imprensa internacional e o repete a imprensa cabocla – é terrorista; mas silenciam todos na definição de Israel como Estado terrorista. Simplesmente acusa-se o oprimido de reagir tresloucadamente à opressão, e silencia-se diante da racionalidade do Estado invasor que planejadamente rouba terras, liberdade e esperança. É preciso repetir e repetir sempre: Gaza (e os sionistas negam aos palestinos até a condição de povo!) está cercada pelo Estado policial de Israel que, com a ajuda do Egito, controla suas fronteiras por terra, mar e ar, controla sua água, controla sua energia, controla os suprimentos de alimentos e dos chamados "gêneros de primeira necessidade", controla seu comércio, controla a entrada e saída de sua gente. Nessa história há uma Casa-Grande e há uma Senzala, e Gaza é quase só um quilombo sem cor perseguido por novos "capitães do mato", apetrechados das mais modernas técnicas de assassinato em massa, e impunes como impunes e irresponsáveis eram os ‘senhores’ do escravismo, ontem como hoje surpreendidos pela incompreensível revolta dos desesperados.

Nossa sociedade cínica, como lembra Bertolt Brecht, considera violento o rio que arrasa tudo, mas absolve as margens que o aprisionam.

Sei das dificuldades que todos temos para encarar com distanciamento as crises humanitárias. Elas nos pertencem e nos envolvem moralmente. A dor das vítimas nos causa compaixão, enquanto o assassinato banalizado espicaça no ser humano comum – e somos todos nós – o sentimento da revolta. Um e outro sentimentos impedem o raciocínio frio, se é possível conservar-se frio o espectador de um genocídio sem fim. De uma forma ou de outra dele participamos como algozes ou vítimas, pois cada um de nós escolhe o seu papel. A omissão é impossível. O "espectador", assim, é de fato um participante, covarde, mas sempre participante e responsável. Há os que se revoltam e há os que se consomem na angústia burguesa da falsa impotência – o não saber o que fazer, o nada poder fazer para impedir tanto horror – sentimento que carregamos para esconder nossa tibieza, e assim nos quitarmos moralmente com nossas consciências em crise. Ora, o conhecimento nos faz responsáveis pelo mundo, e, assim, pelo que ocorre em Gaza.

Acionando os gatilhos que disparam bombas teleguiadas está o dedo sujo da "alma ocidental", que, seja alimentado pela miséria do fanatismo religioso, seja dedicado às periódicas "limpezas étnicas", seja por pura ganância, vem matando e escravizando desde sempre na busca interminável dos ímpios. Sempre os há, sempre haverão; não os encontrando, o opressor os cria, pois há sempre um adversário a ser demonizado. Assim, o Ocidente organizou as Cruzadas e acendeu as fogueiras da Inquisição, e os "colonizadores", em nome disso e daquilo mas principalmente em nome de Deus, destruíram povos, nações e civilizações, levaram a guerra, a escravidão e o dissídio a todos os rincões do mundo, até onde puderam chegar suas armas. Sob o pretexto de levar adiante a mensagem evangelizadora, o fanatismo persegue, há séculos, a "civilização superior", projeto que o hitlerismo, em uma Alemanha hipnotizada, levou ao paroxismo.

Depois de 1914, o Ocidente redesenhou o mundo segundo seu apetite, violando história, tradições, culturas milenares, valores, civilizações. A velha e sediça regra de dividir para melhor dominar e dominar a ferro e fogo, como foram dominados e explorados chineses, indianos e árabes. Desde o fim da Segunda Guerra Mundial os Estados Unidos, depois de chafurdarem nos vastos domínios do petróleo, levaram a guerra ao Vietnã, desestabilizaram o Afeganistão, destruíram o Iraque, a Síria e a Líbia e ameaçam o Irã, pondo por terra qualquer promessa de paz, impossibilitando a democracia. No Oriente, servem às forças da guerra. Hitler falava na necessidade de "espaço vital" que lhes dava (aos alemães arianos) o direito de roubar as terras dos outros; os EUA, em nome de um "destino manifesto", se atribuem o dever (mais do que o direito) de governar o mundo. Israel diz precisar alargar suas fronteiras, avançando sobre terras árabes, "para garantir sua segurança". Essa nossa "alma" ocidental e cristã construiu os campos de concentração e as câmaras de gás, graças aos quais a pátria de Goethe e Beethoven se transformou na Alemanha do Holocausto, crime coletivo que a Europa não consegue exorcizar. Daí seu eterno sentimento de culpa que está na raiz de seu apoio a Israel e no comprometedor silêncio, diante do genocídio.

A Europa que dilacerou o Oriente é responsável pelas cenas de barbárie que invadiram nosso tranquilo cotidiano pequeno-burgês. Para perturbá-lo, há, porém, a inafastável consciência de que somos responsáveis pelo mundo. Somos responsáveis como Humanidade e como indivíduos, cada um e nós de per se – porque o homem é responsável por aquilo que é, seja um guerreiro ou um colaboracionista, um "homem da lei" ou um assassino, um bravo ou um covarde, o que seja. Somos o que fazemos, somos nossos atos e nossas omissões. Essa responsabilidade não está diluída com "os outros", porque o homem é responsável individualmente pelo crime que comete, pela denúncia que proclama ou pelo silêncio que o torna corresponsável pelo crime que conhece, onde quer que ele seja cometido, qualquer que seja o agente. Nós, a Humanidade de hoje, somos tão responsáveis pelo holocausto de Gaza quanto fomos e somos pelo holocausto dos judeus e os assassinatos de comunistas, ciganos, homossexuais e doentes mentais na Segunda Guerra Mundial. A humanidade somos nós, cada um de nós somando um todo, uma singularidade que não anula as responsabilidades individuais.

Cada um de nós – na Alemanha ou nos Estados Unidos, em Israel ou no Brasil – está se escolhendo ao se definir diante do massacre dos palestinos. E o silêncio é também uma maneira de definir-se, pois, quem não condena o massacre, esse ou qualquer outro, o aceita, e estimula outros. Não há inocentes ou meros espectadores, repitamos: nessa história miserável ninguém pode "lavar as mãos".

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