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Jovens britânicos

No future

por Gianni Carta publicado 04/04/2008 15h14, última modificação 25/10/2011 13h40
Uma epidemia de violência, crime e embriaguez entre os jovens assusta os britânicos. O que está causando essa crise?

Uma epidemia de violência, crime e embriaguez entre os jovens assusta os britânicos. O que está causando essa crise?
“Help, help me!’’, gritou alguém, enquanto pousava a mão nas minhas costas. Embora fossem 3 da tarde no verão passado, a Church Road, burgo de Wimbledon, sudoeste de Londres, estava vazia. O ofegante rapaz não tinha mais de 16 anos, bochechas demasiadamente rubras – e seu olhar faiscava total assombro. 

Ele apontou para a nossa frente, e disse: “Eles querem me dar uma surra”. Jovens encapuzados, ou hoodies, em bicicletas, nos encaravam. “Por que querem bater nele?”, indaguei. “Ele sabe o motivo’’, retrucou um jovem, visivelmente o líder. 

Sugeri uma solução mais civilizada, mas os encapuzados desceram de suas bicicletas. O líder lançou-se contra o rapaz que eu tentava proteger, desferindo-lhe um tremendo soco no rosto. Com as mãos cobrindo o nariz ensangüentado, ele fugiu. Comecei a discutir com o líder, mas seus colegas formaram um círculo ao meu redor, e começaram a me ameaçar. Passaram dois homens robustos, e apertaram o passo. 

Felizmente, despontaram no final da rua dois policiais, acompanhados do jovem com o nariz em frangalhos. Os encapuzados escaparam nas suas bicicletas. 

Em outra ocasião, num burgo não muito longe, o de Fulham, vi dois encapuzados ameaçarem uma jovem, pegarem seu iPod e correrem da turma que saiu de um pub. 

Vi outras cenas envolvendo hoodies, li sobre homens mortos por gangues e, portanto, a capa da edição de 7 de abril do semanário Time não me surpreendeu. No centro da bandeira britânica vê-se um jovem encapuzado, olhos avermelhados. Manchete: “Infeliz, odiado e fora de controle’’. E logo abaixo: “Uma epidemia de violência, crime e embriaguez entre os jovens assusta os britânicos. O que está causando essa crise?’’ 

Nas páginas internas, uma pesquisa revela que um quinto dos britânicos prefere não sair à noite para evitar confrontos com gangues de jovens. Com base em organizações respeitáveis como o Unicef, a Time revela que os britânicos de 15 anos se embriagam com maior freqüência, comparativamente a seus pares de outros países da Europa. No Reino Unido esse índice é de 27%, ante 3% na França. Superam todos os europeus no consumo de drogas – e em brigas (44% no Reino Unido; 28% na Alemanha). Outra enquete, sobre o bem-estar dos jovens, realizada em 21 países industrializados, coloca os britânicos em último lugar. 

E o quadro não parece melhorar. Pesquisa feita pelo semanal The Independent on Sunday, publicada neste ano, revelou que um em cinco adolescentes carregam facas no bolso. Neste ano, cinco adolescentes foram mortos esfaqueados, e mais cinco ficaram gravemente feridos. 

Somente em Londres, no ano passado, 27 adolescentes foram mortos por jovens com facas ou armas de fogo. Adultos também são suas vítimas. Em janeiro, três adolescentes mataram Garry Newlove, de 47 anos. Por essas e outras, o atual governo está prestes a utilizar, em escolas secundárias, um sistema de detector de metais, como nos aeroportos. 

São vários os motivos para essa nova cultura de hoodies. De acordo com a Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), mães e pais britânicos passam menos tempo com os filhos que aqueles de outras nacionalidades. Ou seja, as referências de seus filhos passam a ser celebridades como os príncipes William e Harry, nada avessos a uma boa bebedeira, e mesmo o filho do então premier Tony Blair, Euan, preso em 2000 por estar “bêbado e incapacitado”. Outros modelos são, claro, os hooligans e skinheads de extrema-direita. 

Some-se a isso o fato de o Reino Unido ser o país com maior disparidade social na Europa. De acordo com a Time, uma em cada três crianças nasce abaixo do nível de pobreza. A escassa possibilidade de mobilidade social deve-se à estrutura de classes, mantida pelas elites em grande medida por meio do sistema escolar. O ensino na maioria das escolas públicas é muito inferior ao das particulares. No setor público a média de alunos por classe é 26,2%, comparada a 10,7% no privado. 

A Fulham Prep School, escola privada onde cogitei matricular meus filhos até descobrir os preços, cobra 24 mil dólares ao ano por criança. Essas escolas formam os futuros alunos de Oxford e Cambridge (ou Oxbridge), num reino onde 93% da população estuda em escolas públicas. Se os 7% que freqüentam as particulares chegam a Oxbridge, cerca de 50% dos alunos de escolas públicas têm o mesmo paradeiro. E qual será o porcentual dos outros 50% que viram violentos hoodies?