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No exílio, Dalai Lama completa 80 anos

por Deutsche Welle publicado 08/07/2015 03h10
Líder tibetano é festejado em todo mundo, mas difamado pelo governo chinês e impedido de entrar no Tibete. A futura escolha do sucessor tornou-se questão mais política do que religiosa
Wikimedia commons
Dalai Lama

Dalai Lama ao lado do presidente norte-americano em 2014

O monge budista Tenzin Gyatso, o 14º e atual Dalai Lama, comemorou seu aniversário em 6 de julho, mas alguém que já reencarnou 13 vezes – de acordo com a tradição tibetana – talvez não leve tão a sério a sua data de nascimento.

Assim, já no final de abril ele comemorou o aniversário na presença de amigos e com outro ganhador do Prêmio Nobel da Paz, o sul-africano Desmond Tutu, num internato para exilados tibetanos.

Depois, em 21 de junho, data do aniversário do Dalai Lama segundo o calendário lunar tibetano, foi celebrada uma cerimônia na sede do governo tibetano no exílio, no norte da Índia.

Uma semana depois, ele foi o convidado surpresa do festival de Glastonbury, em Pilton, na Inglaterra. Mais de 100 mil pessoas cantaram Feliz aniversário para o Dalai Lama antes de ele falar sobre amor, perdão e tolerância.

E, neste 6 de julho, finalmente, o líder espiritual dos tibetanos vai estar em Irvine, no estado norte-americano da Califórnia, participando de uma "cúpula global da compaixão", onde recebe novas homenagens.

O Dalai Lama está acostumado a viajar para diversos países, mas há um lugar onde ele não pode estar para festejar seu aniversário: a própria terra natal, o Tibete. Em Lhasa certamente não haverá eventos ou festas em homenagem ao Nobel da Paz. Lá são proibidas fotos e imagens deste que é frequentemente chamado de "o mais famoso refugiado do mundo".

Discretamente, porém, muitos tibetanos certamente vão acender incensos e orar pelo líder espiritual. O Dalai Lama está no exílio desde 1959, quando fugiu para a Índia depois da invasão do Tibete pelas forças da República Popular da China.

O governo chinês tenta demonizá-lo como um separatista por causa de seu engajamento em prol de mais autonomia para o Tibete. Ele é chamado de "lobo em pele de cordeiro". Suas declarações são imediatamente difamadas por Pequim.

Mesmo em 2011, quando ele transferiu o seu poder político a um primeiro-ministro eleito pela diáspora tibetana, foi atacado pelo governo chinês. "Trata-se de mais um truque para enganar a comunidade internacional", declarou Pequim. A relação entre o líder espiritual e o governo chinês não apresenta qualquer sinal de melhora desde então.

No final de 2014, o Dalai Lama afirmou, em entrevista à emissora britânica BBC, que não precisava haver um próximo Dalai Lama. Ele argumentou que é melhor acabar com a Instituição agora, que ela é popular, do que correr o risco de ter um sucessor ridicularizado publicamente.

"Não há garantias de que o meu sucessor não será uma pessoa estúpida e que possa cair em desgraça. Isso seria muito triste. Sendo assim, uma tradição de séculos deveria acabar num momento em que ainda é popular", defendeu.

A escolha do novo Dalai Lama tornou-se uma questão de poder. Agora é justamente o governo ateísta em Pequim que apela com veemência pela reencarnação do líder espiritual tibetano. Em março, durante a mais recente sessão do Congresso Nacional do Povo, o parlamento pro forma do país, vários políticos atacaram duramente o Dalai Lama por suas declarações. "O poder de decisão sobre a reencarnação de Dalai Lama e sobre o fim ou continuidade de sua sucessão é do governo central da China", disse um alto representante do Partido Comunista Chinês, Zhu Weiqun, segundo o jornal The New York Times.

A questão da reencarnação não é somente religiosa, mas também política. Trata-se de ter o controle sobre as pessoas no Tibete. É verdade que a China tem o controle absoluto sobre a região desde a invasão, em 1951, e o governo tibetano no exílio não é reconhecido por nenhum país no mundo, mas nem mesmo meio século de domínio comunista conseguiu diminuir a devoção que muitos tibetanos nutrem pelo Dalai Lama e reduzir o desejo deles de tê-lo de volta.

Por muito tempo pareceu que o tempo estava do lado do governo em Pequim. Afinal, o Dalai Lama não é mais tão jovem, e sua morte pode não estar tão longe. Isso daria ao governo chinês a oportunidade, com a ajuda de monges aliados, de escolher e entronizar um Dalai Lama que fosse mais próximo do regime comunista. Com ele, Pequim poderia controlar o budismo tibetano e, assim, os próprios tibetanos. Só que o povo do Tibete não vai reconhecer um sucessor se isso for contra a vontade expressa do atual Dalai Lama.

Além disso, o Dalai Lama aparenta ter boa saúde e calculou que vai morrer em 15 ou 20 anos. Se a previsão for correta, ainda vão se passar muitos aniversários antes de se discutir se ele vai reencarnar mais uma vez.

Deutsche Welle
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