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Gianni Carta

Netanyahu vence pleito em Israel, mas futura coalizão é uma incógnita

por Gianni Carta publicado 23/01/2013 09h35, última modificação 23/01/2013 09h49
Ao contrário de expectativas, eleitores votam contra maioria absoluta de partidos direitistas e religiosos

De Tel-Aviv

Yair Lapid foi a grande surpresa nas legislativas de terça-feira 22. Em segundo lugar em pesquisas de boca de urna com 19 assentos no Knesset (Parlamento), sua legenda centrista Yesh Atid (Existe um Futuro) será essencial para a formação de uma nova coalizão.

O primeiro-ministro conservador Benjamin Netanyahu, que uniu seu partido de direita Likud ao Yisrael Beitenu do ex-chanceler ultranacionalista Avigdor Lieberman, obteve a maioria com 31 cadeiras, ante as 42 esperadas das 120 do Knesset.

Em terceiro lugar, o Partido Trabalhista, liderado pela ex-jornalista Shelly Yachimovich, ficou com 17 cadeiras.

Os motivos da queda vertiginosa do Likud-Beitenu nesse sistema de representação proporcional são três.

De saída, considerável parte de conservadores votaram no quarto colocado, Naftali Bennet, da agremiação ultranacionalista religiosa Lar Judaico.

Ao contrário de Netanyahu e Lieberman, que promovem uma política de novos assentamentos na Cisjordânia, Bennett, o ex-chefe de gabinete de Netanyahu cuja agremiação obteve 12 votos, fala abertamente sobre a anexação de 60% da Cisjordânia. Mais: judeus ultraortodoxos devem fazer serviço militar.

A segunda razão pela perda de votos de Netanyahu e Lieberman – e talvez a principal –, foram os erros táticos cometidos pela dupla, que durante a campanha eleitoral focaram no tema segurança, e, em particular, na ameaça representada pelo Irã. Por tabela, Netanyahu evitou as negociações de paz entre Israel e a Palestina.

Em um recente discurso, Netanyahu comparou a ameaça nuclear do Irã com a da Alemanha nazista durante o Holocausto.

Após os resultados iniciais na noite de terça-feira, Netanyahu, mais conhecido como Bibi, agradeceu os eleitores “pela oportunidade de liderar o Estado pela terceira vez”.

Logo em seguida, voltou ao tema segurança: “O primeiro desafio do governo continua sendo prevenir ataques do Irã”. Em seguida, o premier falou, entre outros, em estabilizar a economia.

O terceiro fator a favorecer o voto em agremiações de centro-esquerda (e isso era também inesperado) foi o alto índice de comparecimento às urnas, especialmente em bastiões liberais como Tel-Aviv.

“As greves contra o alto custo de vida, o aumento do preço dos imóveis não foram um movimento marginal 18 meses atrás, mas varreram o país”, observa Ethan Shwartz, porta-voz do Partido Trabalhista. Olhos fixos nos resultados nos televisores no centro de imprensa em Tel-Aviv, ele emenda: “Todo mundo sabe que ser de esquerda significa se posicionar pelas negociações de paz com a Palestina, e, por isso, preferimos nos concentrar em um problema que afeta todos: a economia israelense”.

Dan Avnon, professor de Ciências Políticas da Universidade Hebraica de Jerusalém, concorda que temas sociais e econômicos foram cruciais para surpresas como, entre outras, Lapid, ex-vedete da tevê que formou seu partido em 2012.

“Foi um avanço do centro em relação aos partidos de direita e religiosos”, argumenta Avnon, visivelmente otimista com os resultados de boca de urna. A classe média e os menos favorecidos foram às urnas, e, assim, “demonstraram que querem uma mudança”.

Para o cientista político, o perigo é que com uma pequena maioria, mas “estável”, Netanyahu volte a agir como um falcão. No entanto, Avnon concede que uma coalizão alternativa, ou não direitista, ultranacionalista e religiosa, “é um fato positivo”.

O motivo?

“É possível que Netanyahu se veja forçado a lidar com a paz com os palestinos e, ao mesmo tempo, seja mais diplomático com o Irã”.

Tudo, é claro, dependerá da coalizão formada por Netanyahu nas próximas semanas. Yehuda Ben Meir, ex-vice-ministro do Exterior e expert em opinião pública, não descarta uma coalizão entre Likud-Beitenu, Existe um Futuro, Lar Judaico e Shas, a legenda ultraortodoxa que obteve entre 11 e 13 votos.

Indagado se o fato de o Lar Judaico querer impor o serviço militar obrigatório para ultraortodoxos não seria um empecilho para essa formação, Ben Meir retruca: “Na hora das negociações para formar uma coalizão, o tom dos líderes partidários muda. Ademais, o Shas sempre quer integrar governos, sejam eles de direita, centro ou de esquerda”.

Avnon, da Universidade Hebraica de Jerusalém, discorda. Para ele, será difícil o Shas e o Lar Judaico se entenderem. Ele especula sobre uma coalizão entre Likud-Beitenu, Existe um Futuro, Lar Judaico e Hatnuah, a agremiação centrista da ex-chanceler Tzipi Livni, que obteve 7 votos.

Livni, contudo, disse alto e claro que não fará acordos com Netanyahu caso ele não retome as negociações de paz com os palestinos. Assunto que Bennett, do Lar Judaico rejeita. No entanto, Avnon concorda com Ben Meir que em negociações para formar um novo governo tudo é possível.

“Lapid também quer retomar as negociações de paz e pode, assim, atrair Livni e até Yachimovich, do Partido Trabalhista, que disse não estar interessada em fazer parte de um governo capitaneado por Netanyahu”, opina Avnon.

De fato, a formação de coalizões é imprevisível em Israel. Nunca, desde 1948, um partido venceu a maioria absoluta de 61 votos.

Nas próximas semanas, Netanyahu tentará formar uma coalizão. Se não conseguir, como aconteceu com Livni nas últimas eleições em 2009, o presidente Shimon Peres nomeará outro candidato para fazê-lo.

Ben Meir argumenta, porém, que o único político com “experiência” para ocupar o cargo é Netanyahu. Tanto Lapid quanto Yachimovich são inexperientes.

Avnon não parece concordar com Ben Meir. “Outro dado positivo é que temos mulheres a liderar partidos, não generais”, diz. Em miúdos, por que não um governo liderado por Yachimovich?

A única certeza, contudo, é que os israelenses estão divididos entre o bloco de centro-esquerda e o da direita e religiosa. De acordo com as pesquisas de boca de urna, 59% do povo votou no bloco liberal e 61% no direitista.