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Internacional

Análise

Não há culpa coletiva na Faixa de Gaza

por José Antonio Lima publicado 04/08/2014 12h01, última modificação 08/08/2014 13h36
Alguns defensores de Israel flertam com o barbarismo ao tentar justificar a morte de civis na Faixa de Gaza
Said Khatib / AFP
Criança na Faixa de Gaza

No domingo 3, em Rafah, na Faixa de Gaza, garota chora durante o funeral de nove membros da família al-Ghul, mortos em um ataque israelense

Vamos começar refletindo sobre as duas frases abaixo.

"Quando você faz parte de um processo eleitoral que (elege) uma organização terrorista que proclama em palavras e ações que seu principal objetivo é destruir o seu país vizinho e não construir escolas, comércio ou postos de trabalho, você é cúmplice e não uma vítima civil."

"O povo é quem escolhe o governo por vontade própria, uma escolha que decorre de seu acordo com suas políticas. (...) O povo é que financia os ataques contra nós (...) por meio de seus candidatos eleitos. (...) É por isso que o povo não é inocente por todos os crimes cometidos."

O primeiro comentário é de David-Seth Kirshner, presidente do Conselho de Rabinos de Nova York, que na semana procurou justificar os ataques das Forças Armadas de Israel contra civis palestinos na Faixa de Gaza. O segundo é de Osama bin Laden.

É altamente perturbador quando um líder religioso legítimo e conceituado, caso de Kirshner, passa a usar o mesmo tipo de retórica do maior terrorista da história. Esse tipo de argumento, no entanto, tem surgido entre os defensores de Israel. Ele aparece à medida que o mundo entende como falaciosa a tese do "direito à defesa", uma contradição em termos tendo em vista o cerco terrestre, aéreo e naval mantido por Israel e pelo Egito à Faixa de Gaza nos últimos nove anos. Surge, também, como resposta à pressão internacional sobre Israel, por causa do grande número de vítimas civis deixado pela Operação Protective Edge.

Há inúmeras tentativas de explicar, do lado israelense, a quantidade de vítimas civis. O jornal The Times of Israel concluiu em reportagem que os números são inflados apenas como propaganda do Hamas. O editorial do jornal seguiu linha semelhante, mas questionou por que a operação Protective Edge tem tanta cobertura e o confronto na Síria ficou de lado. Outras tentativas de explicar a morte dos civis são bem mais desconcertantes.

É o caso dos que defendem que os palestinos merecem morrer porque o Hamas foi eleito em 2006. Além da fala do rabino nova-iorquino, dois textos são emblemáticos nesse sentido. No jornal The Washington Post, o colunista Charles Krauthammer direcionou suas críticas não ao Hamas, mas a todos os "palestinos de Gaza": "Eles elegeram o Hamas. Então, em vez de construir um Estado com suas instituições políticas e econômicas de atendimento, passaram a maior parte de uma década transformando Gaza em uma base militar em massa, repleto de armas terroristas, para fazer a guerra incessante em Israel". No Wall Street Journal, Thane Rosenbaum, diretor do Fórum de Direito, Cultura e Sociedade na Faculdade de Direito da Universidade de Nova York, foi mais explícito. "O povo de Gaza elegeu esmagadoramente o Hamas (...). O que eles acharam que ia acontecer? Em algum nível básico, você perde seu direito de ser chamado de civil, quando elege livremente os membros de uma organização terrorista como estadistas."

Além da perversidade dessa "teoria", análoga à usada por Bin Laden para justificar a morte de civis no 11 de Setembro, ela resulta de uma generosa dose de ignorância histórica, política, matemática e jurídica.

Como o Hamas chegou ao poder

A sempre citada eleição de 2006 foi realizada em janeiro daquele ano, tanto na Faixa de Gaza quanto na Cisjordânia. Era um pleito parlamentar e foi disputado por 14 partidos. O Hamas venceu o pleito, mas a maioria obtida pelo grupo deveu-se a uma questão matemática: o sistema eleitoral vigente, do tipo winner takes all (o vencedor leva tudo). Não houve vitória "esmagadora" – o Hamas obteve 44,45% dos votos e o Fatah, 41,43%. Os dois grupos, eventualmente, se envolveram em uma guerra civil encerrada com o Fatah controlando a Cisjordânia e o Hamas, a Faixa de Gaza.

Os aspectos históricos e políticos são ainda mais importantes, pois demonstram que a vitória do Hamas não pode ser explicada por um suposto desejo dos palestinos de colocar "uma organização terrorista no poder".

Em primeiro lugar, é preciso considerar que o Hamas é parte integrante e indissociável da sociedade palestina. O grupo surgiu em 1987, em meio à primeira Intifada contra Israel, como resultado do fortalecimento da oposição religiosa à secular Organização da Libertação da Palestina (OLP). O próprio governo de Israel fomentou grupos religiosos que deram origem ao Hamas, como forma de se contrapor à OLP, então comandada por Yasser Arafat. Essa história está, entre outros lugares, na página 45 do livro Hamas, de Beverley Milton-Edwards e Stephen Farrell. Como ocorreu em outros lugares do Oriente Médio nos anos 1970 e 1980, o islã político, a ideologia do Hamas, passou a ser um meio para os palestinos expressarem seu descontentamento com a ocupação israelense, e é assim até hoje. A partir daí, o Hamas notabilizou-se por ataques terroristas contra civis israelenses, mas a pressão militar de Israel e a queda da popularidade desse tipo de ação entre os palestinos fez o grupo iniciar uma guinada à política. O ponto culminante dessa mudança foi a eleição de 2006.

Apesar do viés político-religioso do Hamas, foi a questão política que prevaleceu na vitória. No ensaio The Hamas Agenda: How has it changed?, publicado pelo Middle East Policy Council, o pesquisador Baudouin Long afirma que a vitória não se deu por causa do islamismo do Hamas, mas foi resultado de uma campanha que "tirou vantagem do fracasso da Autoridade Palestina de estabelecer um Estado independente". Como ocorreu em Israel, onde o  fracasso do processo de paz deu poder à direita contrária ao Estado palestino, entre os palestinos houve um fortalecimento político do Hamas.

A vitória do Hamas, continua Long, foi também fruto "da corrupção e da má governança do Fatah". Uma análise do noticiário de 2006 revela isso de forma cristalina. Um dia antes da eleição, o Guardian mostrava a indignação dos palestinos com a corrupção e a incompetência do Fatah. No dia seguinte ao pleito, a Associated Press afirmava que o "Hamas capitalizou o descontentamento generalizado com anos de corrupção e ineficácia do Fatah. Grande parte de sua campanha foi focada em questões internas palestinas, ao diminuir a importância do conflito com Israel".

Parece claro, assim, que os palestinos não elegeram o Hamas porque o grupo defende em seu documento fundador o antissemitismo e a destruição de Israel, mas porque o Hamas era a alternativa "menos pior" à precariedade em que viviam.

Acima de tudo isso está a questão humana e civilizacional das regras da guerra. A diferenciação entre combatentes e não combatentes em um confronto militar data da Declaração de São Petersburgo de 1868. Hoje, ela baliza as regulações da Convenção de Haia e é a primeira das 161 regras da Lei Humanitária Internacional. Esse princípio existe para tentar manter ao menos em níveis mínimos os contornos civilizacionais que regem o mundo mesmo em momentos de crise.

Como afirmou o articulista Ramesh Ponnuru, um dos que manifestaram preocupação com a tese da "culpa coletiva" palestina, as regras da guerra "são uma conquista civilizacional que vale a pena defender". Hoje, Israel ocupa a Cisjordânia de forma ilegal e transformou a Faixa de Gaza em uma prisão a céu aberto. No atual conflito, já destruiu 4 mil residências e matou 4 mil pessoas, 300 delas crianças. A bússola moral do país está apontando para o lugar errado. Os defensores de Israel precisam entender isso e ajudar o país a corrigir seu rumo. Justificar o injustificável não é o melhor caminho.