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Haiti

"Não existe missão que conserte tudo", diz ex-chefe das tropas no Haiti

por Deutsche Welle publicado 03/06/2014 09h51
General Santos Cruz rebate críticas à liderança brasileira da Minustah e afirma que responsável por um país é seu próprio povo e governo
Flickr / United Nations Development Programme
Haiti

Segundo o general Santos Cruz, nos tempos de Minustah: "Existe uma avaliação excessiva sobre a missão"

"Sem romantismo." É assim que o general Carlos Alberto dos Santos Cruz enxerga a crescente participação brasileira em missões de paz internacionais. Ex-comandante da Minustah, no Haiti, ele hoje está à frente da Monusco, na República Democrática do Congo.

Em entrevista à DW, ele diz que não existe missão que resolva todos os problemas de um país. E responde às críticas de que a Minustah – que completa dez anos, sempre chefiada pelo Brasil – teria falhado ao não abordar as raízes dos problemas haitianos, embora reconheça que a parte social da missão não foi tão bem-sucedida quanto a militar.

"Os principais responsáveis pelo país são seus cidadãos. Não existe missão que vá para um local para consertar tudo. O desenvolvimento do país passa pela responsabilidade do próprio povo e dos governantes", afirma o general.

Hoje no comando da maior missão de paz do mundo, Santos Cruz é cauteloso ao avaliar as chances do Brasil em conseguir um assento permanente no Conselho de Segurança da ONU. Ele diz que a participação brasileira em missões da ONU é apenas um critério a ser observado. Outros seriam política externa e participação econômica na própria organização.

"Eu não vejo isso com romantismo, (...) isso tem que ser visto de forma muito mais realista", diz. "Excesso de romantismo é você se enxergar como a grande estrela da festa. E, às vezes, você não é."

DW: A atuação brasileira em missões de paz da ONU é cada vez maior. Qual seria, na sua opinião, o próximo país onde o Brasil poderia atuar?

Carlos Alberto dos Santos Cruz: Eu não vejo isso com romantismo. Isso precisa ser avaliado pelo Ministério das Relações Exteriores, que vai aconselhar o governo. É preciso ver realmente qual é o seu objetivo político naquela participação. Há uma projeção internacional e dentro da ONU, mas isso precisa ser muito bem avaliado.

DW: Um dos objetivos de participar mais ativamente das missões seria ter um assento permanente no Conselho de Segurança. O senhor acha que estamos mais próximos de conseguir isso?

Eu acho que você participa do ambiente internacional com maior presença e desenvoltura, não só com o objetivo de ter um assento no Conselho de Segurança. Eu acho que uma reforma ainda está distante. O modelo existe há 70 anos, não vai mudar da noite para o dia. Sem nenhum excesso de romantismo, em uma reformulação há bastante gente na fila. Há outras razões a se considerar, como política externa e participação econômica na própria organização. Isso tem que ser visto de forma muito mais realista.

DW: O que o senhor quer dizer com excesso de romantismo?

Excesso de romantismo é você se enxergar como a grande estrela da festa. E, às vezes, você não é.

DW: A Minustah, chefiada militarmente pelo Brasil, costuma ser criticada por não ter abordado as raízes dos problemas haitianos, de ordem social, econômica e política.

Existe uma avaliação excessiva sobre a missão. Os principais responsáveis pelo país são seus cidadãos. Não existe missão que vá para um local para consertar tudo. Ela vai para resolver alguns problemas emergenciais. Já o desenvolvimento do país passa pela responsabilidade do próprio povo e dos governantes. É difícil isso acompanhar a parte militar, que é muito rápida e específica. O desenvolvimento envolve a capacidade dos políticos locais e a administração pública, que muitas vezes é deficiente. Além disso, há uma influência internacional, com recursos, agências e ONGs. É uma rede tão complexa e grande que você acaba não vendo resultado.

DW: Mas isso também está previsto na missão...

Sim, está previsto. Mas essas promessas de doações de recursos e serviços têm um componente político muito forte. Entre a promessa e a realização há um tempo muito longo. O Congresso tem que aprovar, o dinheiro precisa estar no orçamento, depois o projeto não fica pronto ou a qualidade não é aceita pelo Banco Mundial e pelo país doador. São locais em que não há mão de obra qualificada, é preciso trazer de fora e o preço fica exorbitante. Por isso, a promessa acaba sendo desconectada da realidade imediata. No andamento histórico de um país há degraus que você não pode saltar, tem que subir um por um.

DW: O senhor não teme que se desperdicem os esforços de estabilização?

Isso pode acontecer, mas também não podemos ficar para sempre. Os países têm o direito de ser completamente independentes. Eles têm que ser responsáveis pelo seu destino. Você não pode deformar o relacionamento político interno da população com o poder público.

DW: Também criticam a estabilização por ter sido violenta...

Esse discurso é muito político e genérico. Sempre haverá pessoas contra e, às vezes, é por conveniência política. Mas não houve reclamação de ‘danos colaterais’, como se diz. Nós desmantelamos as gangues muito rapidamente e fizemos isso com muita qualidade.

DW: Por que o senhor acha que foi escolhido como comandante da Monusco?

Em primeiro lugar, devido à experiência no Haiti. Porque o uso da força em ambiente internacional é muito complicado, então é bom ter um pouco de experiência. Além disso, eu faço parte de um país e de um Exército que têm prestígio, com uma diplomacia que sabe projetar o país. Na verdade você é o resultado de tudo isso.

DW: Depois de um ano na Monusco, como o senhor avalia as conquistas da missão?

A principal conquista, desde junho do ano passado, foi exatamente a derrota do M23. Porque era um movimento rebelde, com uma história de crime muito grande, que estava colado na cidade. Todo o tempo havia aquele peso da invasão e de ataque aos campos de refugiados. A derrota do M23 significou o alívio da população de Goma, de mais de um milhão de habitantes. Na volta da cidade, na região de Kiwanja, Rutshuru e Bunagana, quase cem mil pessoas puderam voltar às suas residências e atividades agrícolas. E foi um orgulho para o Exército do Congo, porque eles são os principais atores, a ONU é um suporte.

DW: E quais seriam os desafios políticos da Monusco?

Existe uma lista, mas eu diria que o grande desafio é mover todos os atores com a mesma intenção. Inclusive os internacionais. Precisaria haver um interesse político comum de realmente abafar o conflito e eliminar os grupos armados.Também teria que haver um trabalho muito sério de combate ao tráfico de armas no Congo. Porque tem muita gente importante envolvida, do contrário não haveria aquele volume de armamento e munição lá. Tem que ser feito um controle muito forte da exploração mineral e do comércio ilegal. Além de aumentar a presença do Estado e o combate à corrupção.

DW: No início do ano houve um massacre em Masisi, perto de Goma, com 70 mortos. Um dos papeis da Monusco é proteger a população. O senhor acha que a missão conseguiu diminuir essas violações?

O Congo é um dos maiores países do mundo. Há problemas espalhados em uma distância de quase dois mil quilômetros. É impossível proteger todos os civis, o tempo todo, em todos os locais. Não são só esses massacres, há muitos outros, que nem são noticiados. Eles acontecem em lugares muito remotos.

  • Autoria Marina Estarque, do Rio de Janeiro
  • Edição Rafael Plaisant
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