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Nada como um bode expiatório

por Gianni Carta publicado 01/09/2010 10h30, última modificação 25/10/2011 13h37
Ante a crise econômica e a queda na popularidade, Sarkozy mira os ciganos

Acusado por um comitê das Nações Unidas de tratar os roma (ciganos) de forma racista e xenófoba, o governo francês permanece impassível. Até o fim deste mês Paris pretende “enviar” 700 roma para seus países de origem, Romênia e Bulgária. Como previsto, nesta quinta--feira 19, seguiram 79 para a Romênia. O governo prefere o termo “enviar”, e não ‘”expulsar”, porque os ciganos seriam, insiste a administração pública, voluntários.

Até o fim de outubro, 300 acampamentos ciganos e de “gente de viagem” – vários desses cidadãos são franceses – serão desmantelados. O motivo? Os acampamentos são, segundo o governo, centros de tráfico de drogas, abuso de crianças e mulheres e prostituição. Eis a prova de que são criminosos: em julho, ciganos e viajantes estiveram envolvidos em uma altercação contra a polícia em Saint-Aignan, comuna central. Isso após um guarda ter matado um viajante de nacionalidade francesa. Dias antes, a morte de um rapaz de origem magrebina por outro guarda republicano havia provocado, em Grenoble, sudeste francês, outra disputa entre jovens de origem africana e as forças da ordem.

Por essas e outras, o presidente Nicolas Sarkozy vai ainda mais longe: propõe revogar a nacionalidade francesa de criminosos de origem estrangeira que colocarem em perigo a vida de um policial. Visto que a proposta será formalizada até o fim deste mês, ainda não está claro se a possível lei afetará também filhos e netos de magrebinos nascidos em solo francês.

Nesse período de férias, controvérsias políticas não escasseiam. Antes do recesso parlamentar, o atual ministro do Trabalho, Eric Woerth, foi acusado de ter recebido 150 mil euros de fundos ilegais da mulher mais rica da França, Liliane Bettencourt. Woerth, então tesoureiro da UMP, virou ministro do Orçamento de Sarko, e teria feito vista grossa diante de uma suposta evasão fiscal cometida por Bettencourt, herdeira do império L’Oréal. Sarko parece ter interesse em defender a “integridade” de seu ministro. Segundo pesquisas de opinião pública, o nível de aprovação do -presidente encontra-se no mais baixo patamar desde a sua eleição.

O recesso parlamentar foi um momento de calmaria antes de uma bastante- provável tempestade. Após os conflitos de julho, Sarkozy quis interessar os veranistas debruçados sobre romances e revistas “pipol’” em outro assunto: aquele a envolver os roma e imigrantes. Em tempos de crise econômica, o povo se sente, mesmo usufruindo momentos nas praias, mais vulnerável.

Antes mesmo de sua chegada à Presidência, o então ministro do Interior Sarkozy havia declarado uma “guerra” contra a criminalidade. Le Top Cop (o policial-mor) justificou seu apelido ao chamar de “escória” os filhos e netos de imigrantes magrebinos que, num subúrbio parisiense em flamas, se batiam contra a polícia em 2005. Mas, desde que assumiu o cargo de presidente, em 2007, a segurança, tema principal de sua campanha ao lado do aumento do poder de compra, vai bastante mal (idem em relação ao poder de compra).

No seu artigo de capa do semanário Marianne, sob o título Le Voyou de la République (O Vagabundo da República), Jean-François Kahn argumenta que o “vagabundo” Sarko disse aquilo que a maioria crê: “É a imigração que gera a delinquência; o meio cigano é criminoso”.

Desta feita, o que pensam os franceses sobre uma possível lei capaz de revogar a nacionalidade francesa de criminosos de origem estrangeira? Sondagem publicada em 6 de agosto pelo diário Le Figaro revela o seguinte: entre 70% e 80% são favoráveis à proposta. Kahn observa: “O primeiro artigo da Constituição, o qual funda os princípios da nossa República – a igualdade antes da lei sem distinção de origem – está a caminho de ser abolida”. E indaga: “O que pensam os republicanos?” Michel Rocard, ex-premier socialista, diz o que pensa em entrevista publicada pela Marianne: “Não havíamos visto isso desde os nazistas... Dar prioridade à repressão é uma política de guerra civil”.

Antes do fim do recesso parlamentar, a capital ferve. De saída, ONGs, políticos de esquerda e até integrantes da agremiação direitista de Sarkozy, a UMP, não aprovam o desmantelamento de acampamentos e expulsões dos ciganos. É o caso de Jean-Pierre Grand, da legenda
sarkozista. Ele compara as demolições de acampamentos aos rafles – as razias de judeus e ciganos durante a ocupação nazista da França. As autoridades de Vichy, vale lembrar, mantiveram ciganos em acampamentos até 1946, dois anos após a liberação do país do jugo nazista.

Como era de se esperar, as tensões diplomáticas entre Paris e Bucareste crescem. Teodor Baconschi, ministro do Exterior da Romênia, declarou à rádio RFI que as expulsões de seus compatriotas são ilegais. “Estou inquieto com uma guinada populista que poderá gerar certas reações xenófobas durante esse período de crise econômica.”

A União Europeia investiga a legalidade das expulsões. Romenos e búlgaros, cidadãos europeus desde o ingresso de seus países, em 2007, na UE, podem entrar livremente na França. Ao cabo de três meses precisam, porém, ter emprego ou justificar meios financeiros para permanecer neste país. Só podem ser expulsos ao cometer um crime, ou em caso de abuso do sistema de assistência social. Os expulsos simplesmente por não ter emprego desfrutam do direito, sendo cidadãos da UE, de voltar para a França. Na verdade, para vários roma a expulsão – e o eventual regresso – é uma maneira de ganhar dinheiro: cada um dos 700 “enviados” embolsa 300 euros. Crianças recebem 100 euros.

Os roma são um alvo demasiado fácil para Sarko. Originários da Índia, chegaram na Europa no século XII e, a partir de então, são a minoria mais marginalizada no Velho Continente. Segundo Robert Kushen, diretor-executivo do Centro Europeu para os Direitos dos Roma, todos os países europeus programaram expulsões maciças de ciganos.

No fim de 2007, na capital italiana, quando uma mulher foi supostamente assassinada por uma cigana, o estado de emergência foi decretado. Chamados pela multidão, em Nápoles, de “animais selvagens” por vigilantes, ciganos (mas também albaneses e gentes de outras etnias) foram espancados. A expulsão de romenos e de outras etnias da Itália continua.

A França, em muitos pontos, se parece com a Itália no tratamento a ciganos e imigrantes. Se na terra de Silvio Berlusconi vigilantes espancam ciganos e estrangeiros, Sarkozy criou o Ministério da Imigração – e colocou todas as minorias no mesmo saco. Por meio desse ministério, sutil na aparência, o presidente francês estigmatizou, como em outros países europeus, a burca. Em um país onde 10% da população é muçulmana, o véu põe a mulher, segundo a Declaração de Direitos Humanos de 1789, em estado de subordinação ao homem. Mas será que todas as usuárias de véus na França (apenas 2 mil) o fazem porque um homem as obriga? Como insinua Rocard, a política de Sarkozy poderá provocar uma guerra civil.

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