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Internacional

Momento difícil

Na União Europeia, a indignação fermenta

por Gianni Carta publicado 29/06/2011 15h02, última modificação 25/10/2011 11h48
O remédio contra a crise poderia ser o fortalecimento da UE, faltam, porém, líderes à altura e vontade política. Por Gianni Carta, de Paris. Foto: Louisa Gouliamaki/AFP

A crise europeia, de enigmático desfecho, encontra análises díspares. Em Bruxelas, Daniel Cohn-Bendit, o lendário líder estudantil de maio de 1968 sob o nome de guerra Dany le Rouge, hoje deputado dos Verdes no Parlamento Europeu, sustenta que a crise, provocada pelo neoliberalismo desenfreado, impõe “a ascensão política da União Europeia”. Para Cohn-Bendit, hoje com 66 anos e sempre objetivo na oratória, é preciso criar os Estados Unidos da Europa para lidar com crises como a atual. Ele vê luz no final do túnel? “Não sabemos quanto tempo esta crise vai durar, mas a Europa já atravessou guerras, confrontos, tantas coisas... Sim, vamos sobreviver a mais essa.”

Em um café em Paris, Katia Delcenserie, professora de francês de 38 anos, é mais pessimista. “Eu queria uma Europa mais humana, como aquela de Goethe, que viajava para a Itália em busca de cultura.” E, no entanto, emenda Delcenserie, “temos uma Europa comercial, dominada por bancos que são um pouco como o diabo”. Segundo a professora, é preciso instilar um maior sentimento de europeidade nas jovens gerações. “Mas as escolas francesas não oferecem cursos sobre a UE, e isso é uma pena.”

Mureike Kleine, cientista política do European Institute da London School- of Economics, atualmente a escrever um livro sobre governança informal na Uniao Europeia, acredita numa “mescla de regras formais e informais” para governar a UE. No entanto, argumenta Kleine, “para que haja flexibilidade, são necessárias regras formais claras”. Ela cita o exemplo de uma ausência de mecanismos para resolver uma crise financeira no seio da UE. A disciplina fiscal, estabelecida pelo pacto de estabilidade e crescimento, limita a 3% o teto para déficits anuais em relação ao Produto Interno Bruto. E basta. A Zona do Euro, portanto, sempre esteve vulnerável a uma crise financeira. Kleine parece acreditar no progresso da UE, mas pinta um futuro negro. “Estamos vendo apenas as primeiras repercussões da crise financeira. Daqui em diante, elas se agravarão.”

A crise econômica catapultou para elevadas alturas os níveis de dívidas, déficits públicos e taxas de desemprego. A Grécia, por exemplo, tem uma dívida pública de 119% em relação ao PIB, déficit público de -10,5% relativo ao PIB e taxa de desemprego de 8,4%. A Espanha, considerada um dos países mais frágeis da Zona do Euro, está com 60,1% de dívida pública, e -9,2% de déficit público. Tem, portanto, um endividamento inferior aos de Grécia, Irlanda e Portugal. Mas sua situação social é, no mínimo, explosiva, devido à taxa de desemprego, de 20%. Pior: a economia espanhola é tão grande quanto as economias grega, irlandesa e portuguesa juntas. Poderiam a UE e o FMI criar um pacote de resgate para um país dessa dimensão?

Em jogo está o euro. Jean-Claude Trichet, presidente do Banco Central Europeu, defende, é claro, a moeda europeia. Apesar da crise grega, ele disse nesta semana que o euro é uma moeda “estável” e “confiável”. Ainda segundo Trichet, o BCE garantiu uma estabilidade de preços com uma inflação anual inferior a 2% durante 12 anos. “Nós salvaguardamos, portanto, o poder de compra do euro.” Eis, porém, a questão que vale 1 bilhão de euros: a moeda europeia continuará estável e confiável?

No momento, a Grécia é o país da Zona do Euro a enfrentar os maiores problemas. Nesta semana, deputados apoiaram o novo gabinete formado às pressas pelo primeiro-ministro Giorgios Papandreou. No entanto, da Praça Syntagma, diante do Parlamento, o povo há quatro semanas manifesta-se contra medidas de austeridade adotadas pelo governo para quitar suas dívidas e continua a gritar: “Ladrões, ladrões, ladrões”. Os “indignados”, como se rotulam os manifestantes inspirados pelo manifesto Indignez-Vous! (Éditions Indigène, 2010), do ex-diplomata e ex-resistente francês Stéphane Hessel, culpam especuladores globais e banqueiros europeus pela crise grega.

O pacote de ajuda de 110 bilhões de euros oferecido pela UE e pelo FMI para evitar um calote de Atenas vence em março, mas o governo grego receberá a próxima parcela, de 12 bilhões de euros, neste verão e poderá, assim, sobreviver mais alguns meses. Ademais, Evangelos Venizelos, o novo robusto ministro das Finanças, acredita que a UE e o FMI lhes oferecerão um segundo pacote de resgate no valor de 85 bilhões de euros, a expirar em 2013.

Mas a questão para os credores é esta: o novo gabinete será mais eficaz em termos de reformas? De fato, as demandas ao governo grego são -significativas. Um corte de 150 mil empregos públicos, e mais 50 bilhões de euros a serem levantados via privatizações, até 2015. Papandreou, além disso, encontra oposição no seu próprio partido Socialista (Pasok). Vários deputados socialistas querem proteger empregos no setor público e são contrários a privatizações. Isso sem contar, claro, a oposição dos “indignados” na praça fronteiriça ao Parlamento. Chamado, na próxima semana, a votar o novo pacote de austeridade de quatro anos.

Irlanda e Portugal, também beneficiados por pacotes de resgate da União Europeia e do FMI, observam de perto os desdobramentos em Atenas. Idem a Espanha, onde protestos de “indignados” contra medidas de austeridade não escassearam em grandes cidades como Barcelona e Madri. Caso a Grécia saia dos trilhos do FMI, o poder de contágio será imediato. Ironicamente, a Europa, dizem críticos de planos de austeridade, obedece, como os países sul-americanos de outrora, às regras do FMI. E agências de classificação de riscos soberanos têm enorme poder nas decisões do FMI. A Grécia tem a pior nota de risco do mundo. E seria ingênuo quem pensasse que a chanceler alemã, Angela Merkel, quis ajudar os gregos por solidariedade, como observa Kleine. “A maior parte dos empréstimos para os gregos agora endividados veio da Alemanha e da França porque Merkel e Sarkozy querem salvar seus sistemas bancários da bancarrota.”

Neste atual clima de insegurança, a situação piora com a chegada de imigrantes do Norte da África, onde insurreições no contexto da Primavera Árabe parecem intermináveis. E assim, governos conservadores como os de Nicolas Sarkozy e Silvio Berlusconi, ambos pressionados por legendas de extrema-direita, argumentam sobre a necessidade de reerguer fronteiras temporárias. Em jogo estão, por tabela, regras do acordo de Schengen, que permite a livre circulação de cidadãos (a trabalho ou em viagens turísticas) através de várias fronteiras da zona da UE.

Kleine, do European Institute, inquieta-se é com o novo vagalhão de partidos de extrema-direita. “Há dez anos, o problema existia em países como a Áustria. Mas agora a extrema--direita está se instalando em países onde esse fenômeno não ocorria.” O motivo? “A crise financeira agravou o problema da Previdência Social, e agora governos precisam mudar seus sistemas com maior rapidez que em outros tempos.” Isso, diz Kleine, “cria sociedades de vencedores e perdedores e, por tabela, surge um potencial maior para se elegerem partidos populistas”. Para piorar o quadro, novos líderes como Timo Soini, dos Verdadeiros Finlandeses, recebem suficiente- apoio para difundir suas ideias contra a imigração no seio da UE.

Em suma, Marine Le Pen, líder da Frente Nacional na França, não está só. Na Dinamarca, o Partido do Povo Dinamarquês conseguiu dar maior rigidez às leis migratórias do país. Os Democratas Suecos, por sua vez, tiveram sucesso no pleito geral em setembro. Mas, ao contrário da Dinamarca, outros partidos não aceitaram formar uma coalizão com o partido. Motivo: são intolerantes e xenófobos. No entanto, na Holanda, o Partido para a Liberdade (PVV) e seu líder Geert Wilders, com sua excêntrica cabeleira, gozam de grande influência. A paixão de Wilders, diz ele, é o anti-islamismo.

Todas essas agremiações, entre outras, são contra o euro e a União Europeia, e fazem campanha contra refugiados e a imigração, mesmo aquela de países do Leste Europeu. Indagado se essa gente representa um problema para a integração da UE, Cohn-Bendit minimiza: “Esse fenômeno começou com a Liga Lombarda na Itália, que não quer mais pagar nada ao Sul. É o egoísmo dos ricos”. Esta direita representa apenas 20% dos votos em toda a Europa. Mas, claro, continua o deputado Verde, “é preciso combatê-los criando uma política de imigração comum”.

Sarkozy expulsou os roma da França no ano passado, e Berlusconi fez um pacto com o ditador líbio Muammar Kaddafi para impedir a vinda de refugiados para Lampedusa, ao sul da Itália. Embora ambos tenham adotado medidas reacionárias, como lidar hoje com o fluxo de refugiados oriundos do Norte da África? Cohn-Bendit propõe lhes oferecer vistos temporários, como no tempo da guerra na Bósnia. Cinquenta mil refugiados, argumenta, são facilmente distribuídos na UE. “Não é integrando a ideologia de extrema--direita, como fazem Sarkozy e Berlusconi, que podemos administrar a situação dos refugiados”, opina.

Outro problema a assolar a UE é a falta de líderes fortes. Cohn-Bendit concorda. Idem Kleine, do European Institute. Berlusconi, Sarkozy e Zapatero são apenas três exemplos. “Não somente os povos europeus estão exigindo mais de seus líderes, mas houve uma transferência de poder de governos soberanos para Bruxelas”, alega Kleine. E grande parte da legislação nacional, como a do meio ambiente, é hoje de origem europeia. Portanto, interesses europeus e nacionais se confundem.

Mas líderes da UE também estão longe de ser fortalezas. Cohn-Bendit cita dois: Herman van Rompuy, presidente do Conselho da UE, e José Manuel Durão Barroso, presidente da Comissão Europeia. Kleine acrescenta Catherine Ashton, chefe da Política Exterior. Para a cientista política, a Política Exterior da UE é um verdadeiro caos.

Também preocupante é a questão do alargamento da UE. Com 27 países, a França e a Alemanha bloqueiam o acesso da Turquia. Cohn-Bendit é pela integração da Turquia, “se ela continuar a se modernizar e a se democratizar”. O deputado diz, porém, não concordar com o argumento de que o partido islâmico na Turquia está no poder, embora mescle política e religião. Positivo é que a legenda opere em um espaço democrático.

Édouard Bailby, ex-correspondente do semanário L’Express na América Latina, hoje freelancer do Le Monde Diplomatique, lembra que os objetivos para se construir uma Europa unida mudaram. Ele tornou-se um dos primeiros sócios da Federação de Estudantes Europeus após a Segunda Guerra Mundial, porque acreditava que “era preciso me unir ao inimigo, os alemães”. Era uma maneira de lidar com os traumas sofridos durante a guerra. O presidente francês François Mitterrand e o chanceler alemão Helmut Kohl foram os últimos a acreditar na integração europeia como forma de trazer paz para uma UE unida. Hoje, diz Bailby, a UE é um centro de especulação para se ganhar dinheiro rápido. “Tenho orgulho de ser europeu, mas esta não é a Europa que quero.”

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