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José Antonio Lima

Na eleição do Banco Mundial, a Velha Ordem venceu. De novo

por José Antonio Lima publicado 17/04/2012 08h36, última modificação 06/06/2015 18h58
Em eleição sem transparência, nações desenvolvidas mantiveram a votação sob controle dos EUA, como ocorre há quase 70 anos

O desfecho da escolha do novo presidente do Banco Mundial, realizada na segunda-feira 16, em Washington, era previsível, mas a forma como ela se deu conseguiu surpreender mesmo os mais otimistas quanto às relações entre os países emergentes e as nações desenvolvidas. De forma truculenta e pouco transparente, Estados Unidos e Europa fizeram valer seu poder no processo decisório do Banco Mundial e emplacaram o nome do candidato de Washington, o norte-americano de origem sul-coreana Jim Yong Kim. Kim, reitor do Dartmouth College, uma das universidades privadas mais respeitadas dos EUA, assume o posto em 1º de julho, substituindo Robert Zoellick, para um mandato de cinco anos.

Com Kim, venceu a Velha Ordem mundial. Desde que foram criados, nos acordos de Bretton Woods, em 1944, os principais organismos multilaterais da economia mundial – o Fundo Monetário Internacional e o Banco Mundial – são controlados pelos países desenvolvidos. Há quase sete décadas está em vigor um acordo tácito que dá aos europeus a diretoria-geral do FMI e aos EUA a presidência do Banco Mundial. Com a crise financeira e econômica de 2008, as nações emergentes, entre elas o Brasil, ganharam espaço por meio do G20 (sucessor natural do G8) e tentaram alterar as regras do FMI e do Banco Mundial. O primeiro round dessa disputa se deu em 2011. Após o escândalo a envolver Dominique Strauss-Kahn, os emergentes se mobilizaram em torno do nome do presidente do Banco Central do México, Agustín Carstens, para substituí-lo. Não adiantou. No fim de junho, Christine Lagarde, ex-ministra da Economia da França, assumiu o FMI.

Na eleição do Banco Mundial, não havia expectativa de derrota para Jim Yong Kim. Os emergentes esperavam, ao menos, um segundo turno mais democrático. Mas nem isso ocorreu. Em 2010, em uma reunião para tentar reduzir as diferenças de poder de voto dentro do Banco Mundial, os membros da instituição concordaram em realizar, em 2012, um processo de escolha “transparente” e “baseado no mérito”. Era um reconhecimento de que, até ali, as escolhas do Banco Mundial foram meramente políticas. Chegou a eleição e o acordo de 2010 foi esquecido. Na sexta-feira 13, o candidato da Colômbia, José Antonio Ocampo, abandonou a disputa. Ocampo alegou que a escolha do novo presidente não passava de um “exercício político”. Organizações não-governamentais também protestaram. A britânica Oxfam chamou o processo eleitoral de “fraudulento”. A americana Save the Children disse ser “patentemente errado” escolher um nome baseado apenas na nacionalidade para dirigir uma instituição cujo objetivo primordial é combater a pobreza.

A escolha de Jim Yong Kim também não se deu de forma transparente. Sem Ocampo, os emergentes se aglutinaram em torno de Ngozi Okonjo-Iweala, ministra das Finanças da Nigéria. Ela foi pressionada a abdicar de sua candidatura, mas se recusou. “Se querem que eu desista, eles precisam dizer publicamente às pessoas o porquê”, disse ela segundo a agência AFP. “Eles não publicam as regras para que todos saibam como as coisas são feitas”, afirmou. O pedido para divulgação das regras da escolha não foi atendido. Segundo escreveu a editora de economia da rede britânica BBC, Stephanie Flanders, em sua conta no Twitter, os Estados Unidos optaram por não realizar uma votação pública depois de não conseguirem persuadir a candidata nigeriana a abandonar a disputa. A falta de transparência está escancarada no comunicado oficial do Banco Mundial sobre a escolha de Jim Yong Kim. O texto destaca que pela primeira vez a disputa teve mais de um candidato e que isso “enriqueceu o debate”. Mas não há uma linha sobre a votação. Segundo a jornalista da BBC, Ngozi Okonjo-Iweala recebeu apenas os votos de Brasil, Suíça e das nações africanas, o equivalente a 19% do total. Pouco diante dos 16% dos EUA, sem contar os 6,84% do Japão, 4% da Alemanha e 3,75% de Reino Unido e França.

Os Estados Unidos tentaram disfarçar a pressão vindoura para manter a presidência do Banco Mundial sob seu controle. Primeiro, escolhendo um candidato com experiência no trato com países pobres. Jim Yong Kim foi diretor do departamento de HIV e Aids da Organização Mundial da Saúde e ajudou a fundar a ONG Partners in Health, atuante na oferta de recursos de saúde para populações pobres. Em segundo lugar, tentando convencer os emergentes da qualidade de seu candidato. O americano fez um périplo por vários países pedindo apoio e esteve, inclusive, com o ministro da Fazenda, Guido Mantega, em Brasília. A tentativa não deu certo nem mesmo nos países desenvolvidos. A revista The Economist e o jornal Financial Times publicaram editoriais apoiando Ngozi Okonjo-Iweala. Para a Economist, eleger a nigeriana seria uma “oportunidade de ouro” para o resto do mundo mostrar ao presidente dos Estados Unidos, Barack Obama, o “significado da meritocracia”.

Obviamente, Obama conhece a importância da meritocracia para uma sociedade democrática. E entende o anseio dos emergentes por mais participação nos rumos da economia mundial. Mas ele agiu para preservar seus votos nos Estados Unidos. Criticado por seus adversários republicanos por fazer concessões a outros países e, assim, diminuir a influência dos Estados Unidos no mundo, o último desejo de Obama em um ano eleitoral como 2012 é abrir mão de um cargo internacional ocupado por seu país há 68 anos. Mas, ao fazer isso, Obama deve entender que alienou os emergentes. À BBC, Kusemi Dlamini, analista do Instituto de Assuntos Políticos da África do Sul, disse que o Banco Mundial pode se tornar irrelevante sem reformas profundas. Talvez seja cedo para isso ocorrer, mas, enquanto as nações desenvolvidas não abrirem espaço para os emergentes, as instituições multilaterais continuarão lidando com problemas como a crise econômica mundial e a pobreza de uma forma distorcida. Uma forma que, cada vez mais, pertence ao passado.