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Internacional

Na Ásia, estações do ano dão rumo à vida

por Paulo Yokota — publicado 31/03/2014 04h54
A primavera chegou e, com ela, os rituais em que o efêmero é a estrela
Yoshikazu Tsuno / AFP
Japão primavera

Pessoas cruzam um parque em Tóquio em 25 de março, dia em que teve início da primavera no hemisfério norte

Como em muitas regiões do Brasil tropical predominam somente duas estações do ano, a das chuvas e a das secas com mudanças tênues entre elas, os brasileiros contam com dificuldades para apreender toda a importância que têm as estações do ano nos países de clima temperado. No extremo Oriente, com destaque na China, nas Coreias e no Japão, estas mudanças que ocorrem durante o ano determinam alterações nos hábitos do povo, como ocorre onde as estações do ano costumam ser mais definidas. Elas acabam sendo aguardadas ansiosamente, como é o caso da primavera depois de um longo e rigoroso inverno. Para os asiáticos, a natureza que procuram respeitar chega a ser considerada por muitos até uma divindade, e as mudanças de estação ganham maior relevância.

As mudanças começam pela cobertura vegetal. As folhas, como as flores, ganham colorações acentuadas e um inverno rigoroso acaba numa explosão de brotos, com algumas se antecipando às outras. No Japão, onde concentraremos nossas atenções, as ameixeiras (ume) já apresentam as suas poucas flores, como se um arranjo estivesse sendo elaborado, ainda que a temperatura esteja baixa. A população acompanha ansiosa a evolução das floradas das cerejeiras (sakura) de diversos tipos, que começam nas regiões mais quentes para caminharem para as mais frias. Organizam-se as festas, chamadas apreciação das flores (hanami), onde os espaços são disputados nos jardins em que há maiores concentrações delas, para que amigos compartilhem dos bebes e comes, evidentemente com iguarias ajustadas à época. Há uma valorização do efêmero.

A culinária procura ressaltar os produtos que estejam na época mais conveniente, quando estão mais saborosas, com destaque para os vegetais e legumes. Também os peixes e outros frutos do mar são consumidos nos períodos em que estão mais apetitosos, sendo usual não se encontrarem os mesmos fora da época.

Evidentemente as roupas utilizadas pela população antecipam as mudanças das estações e os casacos usados intensamente no inverno são substituídos pelos mais leves, ainda que a temperatura não tenha se elevado. O humor da população costuma acompanhar estas mudanças, como novos eventos culturais. Toda a vida acompanha e está fortemente condicionada a estas alterações.

Segue-se o verão, no qual a sensação de calor é mais intensa que nas regiões tropicais, pois a umidade relativa costuma ser mais alta por se tratar de um arquipélago com muitas áreas ao nível do mar, não havendo uma brisa, como no Nordeste brasileiro. Com a necessidade de economia da energia usa-se o chamado “cool biz”, com vestimentas informais mesmo nos ambientes sisudos dos escritórios oficiais, mantendo-se o ar condicionado com um mínimo elevado até nos lugares públicos.

O outono é considerado pelos japoneses a melhor estação para o turismo, pois as árvores nas montanhas ficam com uma forte coloração avermelhada de rara beleza, com abundância dos ingredientes locais diferenciados para a gastronomia. Culinárias pouco conhecidas no exterior, com suas nuances regionais, passam pelo seu auge de qualidade. Também a temperatura costuma ser a mais agradável e os jardins, templos e monumentos estão preparados para os visitantes, numa época onde as folhas começam a cair. Acaba sendo a estação mais nostálgica que expressa o sentimento mais íntimo dos japoneses. Mas, também de trabalho intenso com vistas ao longo inverno.

Como nem sempre será possível contar com vegetais e legumes frescos, para o inverno existem milhares de formas de preparação de variados tipos de conservas, com detalhes que acabam se diferenciando pelas tradições de cada família. Mesmo os mais comuns apresentam nuances de sabor, mostrando que as tradições são transmitidas por gerações. A baixa temperatura favorece o consumo de diferentes caldos, cozidos e outras culinárias que são de consumo coletivo, pois o calor do fogo também é aproveitado para o aquecimento do ambiente.

Ainda que o Natal esteja ganhando expressão comercial, e não sendo o Japão de tradição cristã, o Ano Novo é a grande festa para renovar os contatos com os familiares hoje dispersos pelo mundo. No Japão passado não havia o hábito das férias nos empregos e este período de mudança do ano costumava ter folgas mais extensas para permitir as viagens para as terras natais. As culinárias típicas preparadas com antecedência apresentam grandes variações regionais diante dos ingredientes disponíveis, pois a distância entre Okinawa no extremo sul do Japão e Hokkaido no extremo norte é de mais de três mil quilômetros, determinando diferenças.

É possível afirmar que no Japão estas mudanças de estação do ano afetam mais intensamente o comportamento da população, não podendo ser transpostos facilmente para o exterior.

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