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Internacional

Caso Strauss-Kahn

Na alegria e na tristeza

por The Observer — publicado 06/09/2011 10h29, última modificação 06/09/2011 11h47
A debacle moral do marido, Dominique Strauss-Kahn, revelou a firmeza do caráter e a lealdade de Anne Sinclair

Por Elizabeth Day

Na primeira noite da prisão domiciliar de Dominique Strauss-Kahn em Nova York, sua mulher, Anne Sinclair, mandou buscar um jantar. O casal estava em um apartamento de luxo em Tribeca, enquanto ele aguardava julgamento, acusado de agressão sexual e tentativa de estupro contra uma camareira de hotel. Depois da temporada de Strauss-Kahn na famosa prisão de Rikers Island, Anne, de 63 anos, que foi estrela de tevê na França, decidiu que seu marido deveria fazer uma refeição adequada.

Então, telefonou para o elegante bistrô Landmarc, nas redondezas, e encomendou carnes e saladas no valor equivalente a 400 reais. A posteridade não registra como ela pediu o ponto da carne, mas pode-se supor que, diante da tenacidade de aço com que enfrentou o mais tumultuoso episódio de seu casamento até agora, provavelmente, a quis malpassada, ou, como diriam os franceses, saignant.

“Ela é uma mulher com muita personalidade, muita força”, diz o jornalista Renaud Revel, autor de uma biografia recente de Anne Sinclair, Madame DSK: Un destin brisé (Madame DSK: Um destino partido). “Ela tem um temperamento extremamente resistente. Eu a conheço há 25 anos e tenho muito respeito e admiração por ela. O que descobri enquanto pesquisava para o livro foi que ela tem uma reputação impecável, tanto profissional quanto pessoal. É muito leal, muito honesta, faz o que diz, não trapaceia.”

Diferentemente, ao que parece, de seu marido aventureiro.

Durante anos, Strauss-Kahn, ex-diretor do Fundo Monetário Internacional (FMI), foi perseguido por um enxame de mulheres que alegavam ter sido seduzidas por ele. Em 2008, a política socialista Aurélie Filipetti disse que Strauss-Kahn havia feito uma tentativa “muito pesada, muito insistente” de levá-la para a cama e que ela “providenciou para nunca me encontrar sozinha com ele em um espaço fechado”. Depois houve uma jornalista europeia que alegou que Strauss-Kahn só lhe daria uma entrevista se ela passasse o fim de semana com ele, e a escritora francesa Tristane Banon, cuja queixa jurídica contra ele por tentativa de estupro ainda é investigada pelas autoridades parisienses. Até seus aliados admitem que Strauss-Kahn é “um grande sedutor”. Nos bastidores do FMI temia-se que suas predileções sexuais fossem, nas palavras de um ex-colega, “um vício”.

Mas ao longo de tudo isso sua mulher o apoiou: uma presença digna, silenciosa, encorajadora. Quando uma amiga íntima, durante um almoço, teve a temeridade de sugerir que ela pen-sasse em deixar Strauss-Kahn, Anne Sinclair teria saído intempestivamente.

Segundo Revel, quando seu marido foi preso em maio, após uma camareira da Guiné que trabalhava no Hotel Sofitel em Nova York alegar tentativa de estupro-, Anne- comprava sapatos na Rue Saint-Honoré. Recebeu um telefonema do marido, enquanto se preparava para uma festa de aniversário, e Strauss-Kahn lhe falou sobre um “problema sério”. Imediatamente ela teria telefonado para seu amigo Stéphane Fouks, diretor de uma firma de publicidade, e pedido conselhos. Mas foi somente quando estava em um táxi no retorno da festa, por volta de meia-noite, que o telefone tocou de novo e ela soube da natureza exata daquele “problema”.

Sua reação não foi de raiva, como se poderia esperar. Ao contrário, ela ficou acordada até o amanhecer, ligando para todo mundo que conhecia em Nova York para garantir uma representação jurídica de alto nível para seu marido. Então Anne- voou para ficar ao lado dele e imediatamente depositou a fiança de 1 milhão de dólares em dinheiro e mais um seguro-caução de 5 milhões. Ela teria dito a amigos: “Olhe, eu ainda viverei talvez 20 anos. E quero vivê-los ao lado dele”. Em uma declaração oficial, Sinclair disse: “Não acredito nem por um segundo nas acusações de agressão sexual por meu marido. Estou certa de que sua inocência será provada”.

Depois de três meses de idas e vindas legais, essa certeza foi recompensada. Quando os promotores retiraram todas as acusações contra Strauss-Kahn, o casal saiu do tribunal e abriu caminho entre os jornalistas que esperavam.  Vestida de preto, sua marca registrada, com os cabelos penteados por trás das orelhas, permitiu-se um ligeiro, mas perceptível sorriso. Como sempre, estava ao lado de seu homem.

Anne Sinclair nasceu Anne-Élise Schwartz, em Nova York, de pais judeus franceses que fugiram dos nazistas durante a Segunda Guerra Mundial. A família, que mais tarde mudou de nome para Sinclair, voltou para sua França natal nos anos 1950 e sua filha estudou na elitista escola de estudos políticos Sciences Po, antes de se formar em Direito pela Universidade de Paris.

Seu primeiro emprego foi como apresentadora de rádio na Europe 1, onde conheceu e se apaixonou por Ivan Levaï, o chefe político da estação, com quem se casou mais tarde. Na década de 1970 ela passou para a televisão e progrediu constantemente nesse ramo, destacando-se como entrevistadora. De 1984 a 1997 foi âncora de 7/7, um programa político semanal que tinha uma das maiores audiências da França. Ela entrevistou Mikhail Gorbachev, Jacques Chirac, Bill Clinton, assim como Madonna e Sharon Stone. Sinclair tornou-se uma das jornalistas mais conhecidas do país.

Para o site The Daily Beast, a -ex-editora--chefe da Vogue francesa, Joan Juliet Buck, escreveu: “Com seus cabelos pretos encaracolados, olhos azuis, sua pele clara e suas curvas, ela emitia uma aura de sexualidade descontraída... era, de certa maneira, a Oprah dos franceses: uma mulher de uma minoria pensante, com grande poder, que era capaz de compreendê-los e torná-los famosos”.

Sinclair conheceu Strauss-Kahn, então presidente da Comissão de Finanças da França, quando o entrevistou em 1989. Apesar de ambos serem casados (Strauss-Kahn estava na segunda esposa e tinha quatro filhas; Sinclair tinha dois filhos com Levaï), foi amor à primeira vista. O casal divorciou-se de seus respectivos e casou-se em 1991. “Houve uma proximidade imediata”, lembrou Sinclair em uma entrevista à Paris Match. “Foi como se viéssemos da mesma aldeia, como se nos conhecêssemos desde sempre.” Seis anos depois, quando Strauss-Kahn tornou-se ministro das Finanças da França, Sinclair abandonou sua carreira para evitar conflito de interesses.

Desde o início, diz Revel, Anne foi ambiciosa por ele. “Ela sempre considerou que seu destino político fosse o Elysée.” Sinclair conseguiu fornecer as ligações e o dinheiro para financiar suas campanhas. Neta do negociante de arte Paul Rosenberg, que representou Picasso, Sinclair é herdeira e dona de uma coleção de arte de valor inestimável. O casal tem dois apartamentos em Paris, uma casa em Marrakesh e outra em Washington, no bairro de Georgetown, de onde Sinclair escreve um blog influente (suspenso desde maio). Por enquanto essa ambição parece estacionada. Mas seria um erro- minar a -determinação de Anne Sinclair.
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