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Murphy atômico

por Antonio Luiz M. C. Costa publicado 24/03/2011 09h04, última modificação 28/03/2011 11h27
O impensável se desencadeia em Fukushima e força o mundo a rediscutir a energia nuclear. Por Antonio Luiz M. C. Costa
Murphy atômico

O impensável se desencadeia em Fukushima e força o mundo a rediscutir a energia nuclear. Por Antonio Luiz M. C. Costa. Foto: Jiji Press/AFP

Matéria de capa da edição 638, de 18/03/2011

O impensável se desencadeia em Fukushima e força o mundo a rediscutir a energia nuclear

Nas primeiras horas da crise deflagrada pelo grande terremoto seguido de tsunami no Japão (às 14h46 locais da sexta-feira 11, 2h46 da madrugada em Brasília), ouviu-se e leu-se muito a frase “se fosse no Brasil...”, comparando o pequeno número de fatalidades então confirmadas da tragédia, primeiro dezenas, depois centenas, com as quase 900 mortes nos deslizamentos da serra fluminense.

Mas a realidade foi severa para com o afobamento de comentaristas e internautas obcecados em buscar em qualquer notícia, boa ou má, o lado que sirva para justificar posições políticas ou preconceitos. Infelizmente, foi ainda mais implacável para com o povo japonês. À medida que jornalistas e equipes de resgate chegavam ao devastado litoral nordeste, ficou evidente que a tragédia era enormemente maior do que se tinha esperado. Várias pequenas cidades e bairros da costa foram varridos pelo tsunami gerado pelo terremoto de epicentro submarino, sem que se tenha notícia da maior parte de seus habitantes. A contagem oficial de mortos está na casa dos milhares, mas os desaparecidos são provavelmente dezenas de milhares e há 500 mil desabrigados, sofrendo os efeitos das nevascas do rigoroso inverno no norte do Japão e da falta de remédios e alimento.

O terremoto de grau 9,0 na escala Richter, o quarto maior desde 1900, quando os sismógrafos começaram a medi-los, foi demais até para o país mais preparado para enfrentá-los em todo o mundo. Tanto por seus grandes recursos econômicos e tecnológicos quanto por sua vasta experiência: o Japão é epicentro de 20% dos terremotos do mundo e sofreu alguns dos mais mortais da história, como o de 1923 em Tóquio, grau 7,9, que matou 142 mil.

Tudo isso não bastou ante a fúria das placas tectônicas e a maior prova disso é o drama nuclear que se desencadeou no país.- O Japão tinha 17 usinas nucleares, com um total de 55 reatores. Todos os 11 reatores ativos (outros estavam fechados para a manutenção) na área atingida pelo tsunami, em quatro usinas, foram desligados automaticamente, mas isso não impediu o desastre. As águas do tsunami saltaram sobre os diques e invadiram os porões, inutilizando muitos dos geradores a diesel que deveriam sustentar os sistemas emergenciais de refrigeração. Ao mesmo tempo, linhas de transmissão foram destruídas, deixando as instalações sem energia depois que suas baterias de oito horas se esgotaram. Todas as quatro usinas localizadas no litoral nordeste foram afetadas ao mesmo tempo, num tipo inédito de crise.

O único reator de Tokai, a usina mais ao sul e mais próxima de Tóquio (120 quilômetros, a mesma distância do reator de Angra dos Reis ao Rio de Janeiro) sofreu uma interrupção da refrigeração que foi aparentemente controlada. Dos três reatores de Onagawa, a usina mais ao norte e mais moderna, um sofreu um incêndio em suas turbinas e houve um alerta por radiação excessiva no exterior, mas este foi depois atribuído ao vazamento de Fukushima, 150 quilômetros ao sul. Em Fukushima 2 ou Fukushima Daini, três dos quatro reatores tiveram pane nos sistemas de refrigeração, numa crise que parece estar ao menos precariamente administrada, apesar de 30 mil pessoas terem sido avisadas para deixar a área, em um raio de 10 quilômetros.

Mas em Fukushima 1 ou Fukushima Daiichi, 11,5 quilômetros ao norte de Fukushima 2, a situação evoluiu de mal a pior. Dos seis reatores, quatro caminharam inexoravelmente para uma situação crítica, inclusive um dos que estavam desativados antes do terremoto. Seus sistemas de segurança e resfriamento foram danificados pelas explosões nos três primeiros, num efeito dominó. A partir do dia 15, um dos reatores em situação mais grave passou a ser o número 4, um dos que estavam parados para manutenção.

Quem acompanhou a crise nuclear deve ter notado, também nesse caso, o afobamento para adiantar julgamentos apressados dos fatos em razão de diferentes agendas e preconceitos. De um lado, portais sensacionalistas e internautas aterrorizados ou mal-intencionados espalharam pânico. O pior caso foi uma mensagem apócrifa atribuída à BBC, aparentemente originada das Filipinas. Por meio de celulares e redes sociais, “confirmava” o vazamento de radiação e recomendava aos habitantes de toda a Ásia ficar 24 horas dentro de casa se houvesse chuva e esfregar solução de iodo na nuca (um absurdo). Causou pânico e corridas a supermercados das Filipinas ao Paquistão.

De outro lado, os simpatizantes da tecnologia nuclear mostraram pressa excessiva em garantir que não haveria perigo, o problema já estava controlado. Seria de grau 4, menos grave que o derretimento parcial do núcleo do reator de Three Mile Island, nos EUA, em 1979, classificado como de grau 5. Tomando por verdade absoluta os parcos informes oficiais da Tokyo Electric Power Company (Tepco), responsável por Fukushima, retransmitidos pelo governo japonês e pela Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA), tacharam de alarmismo as considerações em contrário. Acidente como o de Chernobyl (grau 7), garantiam, só mesmo na União Soviética.

Mais uma vez, infelizmente, não era assim. A situação era mais grave do que se queria fazer acreditar, como começou a ficar claro após a explosão do edifício do rea-tor 1, na tarde do sábado 12 de março. Era a demonstração clara de que a situação escapava do controle. O bombeamento tinha falhado a ponto de expor o núcleo do reator, normalmente mergulhado n’água, permitindo que alcançasse mais de mil graus Celsius. A essa temperatura, o vapor d’água se decompõe em oxigênio e hidrogênio, uma mistura que se torna explosiva ao atingir concentração suficiente. Na manhã do dia 13, o mesmo aconteceu no reator 3. Na manhã do dia 15, foi a vez do reator 2.

Os reatores 4, 5 e 6, desligados há meses para manutenção, mal tinham sido mencionados nos primeiros dias e nunca como um risco, mas nessa manhã o topo do reator 4 também explodiu. Falhou a refrigeração do combustível nuclear descartado, possivelmente devido às explosões anteriores. O tanque no andar superior, na qual astes cheias de pelotas de urânio eram mantidas para esfriar gradualmente antes de serem conduzidas a depósitos de lixo nuclear, deve ter secado, ferveu e se incendiou.

A notícia enfureceu o primeiro-ministro Naoto Kan, que irrompeu nos escritórios dos executivos da Tepco ainda na manhã do dia 15: “Que diabos está acontecendo? A tevê divulgou a explosão, mas nada foi dito ao gabinete do primeiro-ministro por uma hora! São só vocês (para lidar com o problema). Recuar simplesmente não é uma opção. Estejam prontos para o que der e vier. Se caírem fora, será o fim da Tepco, ponto final”. Segundo testemunhas, os gritos de Kan podiam ser ouvidos do lado de fora da sala de reunião.

O problema, é claro, é que não era aos executivos da Tepco – que arriscam, no máximo, o emprego – e sim a seus empregados que cabia a tarefa potencialmente suicida de insistir na tentativa de domar o dragão.
Impossibilitados de restaurar o bombeamento normal com água destilada, restou improvisar, jogando água do mar para resfriar o reator (misturada com ácido bórico, que absorve nêutrons e modera a reação nuclear). É uma medida desesperada, nunca antes tentada: além de inutilizar o reator – a essa altura a menor das preocupações –, é perigosa porque, ao contrário da água pura, os sais e as impurezas do mar se tornam radioativos.

A situação do reator 4 tornou-se a mais perigosa, pois a radiação altíssima impede a aproximação de trabalhadores e o derretimento de combustível nuclear usado ameaça formar massa crítica para uma reação em cadeia sustentada – o chamado “acidente de criticalidade” – e liberar a radiação diretamente na atmosfera.

Não chega a ser uma bomba atômica, que exigiria urânio enriquecido a pelo menos 80%, quando o combustível de centrais elétricas não passa de 5%, mas isso não aconteceu nem em Chernobyl. Fora acidentes em procedimentos experimentais, o único precedente foi o desastre de 1999 em Tokaimura, quando técnicos inexperientes prepararam uma carga para o reator de pesquisa de Joyo (a 20 quilômetros do rea-tor industrial de Tokai). Sob pressão para terminar o serviço rapidamente e sem entender o significado de massa crítica, juntaram num só tanque de precipitação sete baldes de urânio enriquecido – 16,6 quilos, ou sete vezes o limite permitido. Foram 27 os contaminados por radiação, dois dos quais morreram em meses. Em Fukushima, a quantidade pode ser muito maior.

Depois da explosão no reator 4, a radiação superou os limites legalmente toleráveis e a maioria dos 850 trabalhadores da usina foi retirada, permanecendo apenas uma pequena equipe – “os 50 heróis de Fukushima” para os jornais, embora sejam 180, trabalhando em turnos de 50 a 70. O derretimento parcial do núcleo parece ter acontecido nos reatores 1, 2 e 3 e, neste último, fogo e explosões sugerem que a carapaça de aço que protege o núcleo deve ter-se rachado. Além do reator 4, também os reatores 5 e 6 estão se aquecendo acima do normal. Para resfriá-los, tentou-se lançar água com ácido bórico de helicópteros ou com canhões d’água de repressão de manifestações, ideias antes descartadas pelo alto risco para os operadores, mas com poucos resultados. Cerca de 77 mil moradores foram removidos de um raio de 20 quilômetros. Os EUA acham pouco e ordenaram a seus cidadãos e militares afastarem-se 80 quilômetros – inclusive, por ironia, o porta-aviões nuclear Ronald Reagan, carregado de armas atômicas. A Espanha recomendou 120 quilômetros.

Não se via situação tão trágica desde Chernobyl, em 1986, quando dezenas de engenheiros, operários e bombeiros morreram de envenenamento radioativo em dias ou semanas (e milhares de moradores a médio e longo prazo, principalmente por câncer de tireoide). Os japoneses estão mais treinados e protegidos, mas o traje especial só pode proteger o usuário da inalação de partículas radioativas. É inútil contra a radiação gama no ambiente.

Chernobyl tinha quatro reatores que geravam 4 mil megawatts e apenas um sofreu derretimento do núcleo. Os outros três permaneceram intactos e, apesar da continuação radioativa, continuaram a operar por muitos anos. Só em 1999, oito anos depois do fim da URSS, o governo da Ucrânia desativou de vez a usina. Em Fukushima 1, estão em perigo todos os seis reatores, que somam mais de 6 mil megawatts.

Por outro lado, os reatores de Fukushima 1, apesar de contemporâneos de Chernobyl (foram inaugurados em 1971-1979 e os soviéticos eram de 1977-1983), têm um projeto mais seguro. Além de menos sujeito a falha humana, o núcleo do reator tem blindagem de aço de 15 centímetros, inexistente em Chernobyl, e a reação é controlada com barras de metal (háfnio), menos inflamáveis que as de grafite usadas no reator ucraniano. Teoricamente, o derretimento do núcleo seria contido no subsolo para produzir apenas contaminação local, a menos que explodisse em contato com água subterrânea.

Mas os fatos mostram que a blindagem não é tão indestrutível o quanto se pensava, sem mencionar a possibilidade totalmente imprevista de um acidente de criticalidade nos reatores desativados. A avaliação da gravidade passou a ser de grau 6, com real possibilidade de chegar ao grau 7.

Mesmo na pior hipótese, o desastre não afetaria outros países além do Japão (os ventos sopram para o Pacífico e a distância até a América do Norte é tão grande quanto desta a Chernobyl) e é improvável que lance isótopos radioativos a altitude tão grande por tanto tempo e contamine uma área tão vasta quanto em 1986, mas isso pouco serve de consolo para a região de Fukushima, de densidade demográfica mais alta que a das regiões afetadas na Ucrânia e vizinhos há 25 anos. Pode ser preciso tratar e remover mais pessoas: no raio de 80 quilômetros do reator, vivem 1,9 milhão.

Ao contrário de Chernobyl, não foi falha humana, houve quem dissesse. Mas isso é discutível. A causa imediata foi o tsunami, mas a falha em preparar a usina para esse tipo de evento em um país sabidamente sujeito a fortes terremotos é ou não falha humana? O governo japonês ainda não decidiu se o terremoto foi ou não suficientemente “excepcional” para isentar a Tepco de responsabilidade legal pelas consequências. A disciplina do povo e dos trabalhadores japoneses ante a catástrofe têm sido, de fato, admiráveis, mas seus executi-vos não se mostram menos gananciosos e relapsos que os de outros países.

Como se admitiu, os reatores de Fukushima haviam sido projetados para um terremoto de até 7 graus na escala Richter (ante 6,5 em Angra dos Reis, onde o risco sísmico é muitíssimo menor). Inspetores de segurança da Comissão de Energia Atômica dos EUA advertiram, desde 1972, que os reatores da General Electric, modelo sem grandes domos de contenção usado em Fukushima, eram mais vulneráveis à explosão e à libertação de radiação em caso de derretimento. Em 2002, após denúncia de um funcionário da GE, a Tepco admitiu ter falsificado relatórios e escondido problemas como fissuras nas estruturas dos reatores por dez anos. Cerca de 35 executivos e técnicos foram demitidos e os reatores parados por meses para inspeção detalhada. E, em 2007, um mero sismo de grau 6,8 incendiou sua maior central, Kashiwazaki-Kariwa, obrigando empresa e governo a admitir que haviam subestimado os riscos de terremotos para as usinas.

Segundo o especialista russo Iouli Andreev, assessor do governo austríaco que participou das operações de limpeza em Chernobyl, a densa acumulação de descarte nuclear junto ao reator é imperdoável: “Os japoneses aproveitaram cada centímetro quadrado de espaço por ganância. Quando se tem um acúmulo tão denso de combustível usado, há uma grande probabilidade de incêndio se a água se esgota”. Mas o problema não é só o Japão: “A IAEA é uma fraude, nenhuma organização que depende da indústria nuclear pode funcionar adequadamente. Ela sempre tenta esconder a realidade”.

“Comparando o risco de acidentes nucleares com os de outras fontes de energia”, relatório da OCDE de 2010 garante que, nos países da organização, o risco de um acidente nuclear com dez vítimas seria de uma vez a cada 40 mil anos por central e um com cerca de 2 mil vítimas, uma vez a cada milhão de anos. Tudo isso se compararia favoravelmente a acidentes de trabalho em usinas convencionais, que, embora geralmente pequenos, são frequentes o suficiente para causar 300 fatalidades por ano nos países desenvolvidos e 2,5 mil em todo o mundo. Mas o impossível teima em acontecer e ser pior do que se espera.

Em consequência, o mundo inteiro revê a opção nuclear, tida nos últimos anos como aliada no combate ao aquecimento global. China e Brasil suspenderam os novos projetos, apesar de manterem as construções em curso (no caso brasileiro, só Angra 3, prevista para 2015). A Alemanha paralisou por três meses a operação dos sete mais antigos dos 17 reatores do país, um terço de sua capacidade nuclear. O fim da energia nuclear é improvável, mas novas normas de segurança aumentarão seu custo, que já subiu de mil dólares por quilowatt, em 1971, para 5 mil, nos anos 90. E substituí-la por gás ou petróleo pressionará a demanda e os preços de um produto já escasso, além de agravar a emissão de dióxido de carbono. Pesquisar fontes alternativas de energia tornou-se ainda mais urgente.

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