Você está aqui: Página Inicial / Internacional / Muito barulho por nada

Internacional

Eleição americana

Muito barulho por nada

por Vladimir Safatle publicado 30/11/2012 09h04, última modificação 30/11/2012 09h10
O segundo mandato de Obama será brutalmente igual ao primeiro. Sua política externa tem sido miserável
Obama1

A maioria preferiu as medidas econômicas adotadas por Obama ao American Dream proposto por Romney. Foto: AFP / Jewel Samad

Poucos políticos despertaram tanta simpatia ao aparecer quanto Barack Obama. Sua figura, formação e experiência de vida pareciam anunciar o advento de um novo perfil de lideranças mundiais. Um perfil mais compreensivo em relação às demandas de um mundo multipolar, mais comprometido com causas sociais e necessidades de redistribuição de riquezas. Figura carismática e de boa oratória, Obama foi capaz de despertar esperanças.

Tais esperanças não eram sem fundamento. Diante de uma crise econômica e social semelhante àquela de 1929, vários foram os analistas que insistiram na necessidade de uma segunda versão do New Deal rooseveltiano. Nesse sentido, ninguém nunca esperou de Obama algum tipo de ação radicalmente inovadora, simplesmente uma s­equência de ações racionais. Racionalidade daqueles que são capazes de compreender o verdadeiro tamanho dos problemas e do esforço em superá-los. Seu slogan da primeira campanha, “Sim, nós podemos”, parecia, nesse contexto, indicar a consciência de quem sabe claramente a necessidade de recolocar, na mesa de discussão, um campo mais largo de possibilidades de ação, isso se não quisermos nos afogar nos impasses contínuos da política contemporânea.

Foi, porém, sintomático que sua segunda vitória tenha sido muito mais o fruto do medo causado pelos delírios conservadores de seu oponente do que das suas próprias virtudes. Se sua primeira campanha foi embalada por um “Sim, nós podemos”, a segunda poderia muito bem ser resumida por um “Não, eles não podem”. Ou seja, paradoxalmente, sua campanha não era mais baseada na esperança, mas no medo dos estragos que o Partido Republicano mostrou-se capaz de produzir com seu discurso sobre a supremacia norte-americana e um liberalismo econômico puro e duro.

Agora cada vez mais acumulam-se signos de que o segundo mandato de Obama será brutalmente igual ao primeiro. A despeito de sua promessa de taxar mais os ricos, a fim de garantir o mínimo de subvenção pública para um país que, cada vez mais, vê crescer sua fratura social, não há nada de novo sob o céu. Diga-se de passagem: tal necessidade de taxação é algo tão aceito que milionários como Warren Buffett escreveram artigos em jornais pedindo para pagar mais impostos.

Lembremos, por exemplo, quão miserável foi sua política externa. Sua promessa de fechar Guantánamo e acabar de uma vez com o vazio jurídico que ela representa foi simplesmente esquecida. Ninguém acredita que Obama voltará a ­esse ponto. Seu governo continua a servir-se das mesmas práticas brutais que seriam efetivadas por um governo republicano, se bem que com algumas inovações próprias, como o uso de drones para patrulhar o Paquistão. Lembremos que, a despeito de seu Prêmio Nobel da Paz, a maior realização diplomática de seu primeiro mandato foi assassinar Osama bin Laden.

Como se não bastasse, acabamos de ver mais uma vez em ação a mesma política em relação ao conflito palestino. Apesar de Benjamin Netanyahu ter demonstrado claramente sua preferência por Mitt Romney e ignorado soberanamente os pedidos para parar de uma vez por todas com a construção de novas colônias na Cisjordânia, nada parece demover Obama de sua tendência em apoiar qualquer ação do governo israelense.

Israel tem a estranha crença de estar imbuído do direito de eliminar seus opositores de qualquer forma, estejam onde estiverem. Para o governo, não há nada parecido a um direito internacional, tanto que ignora sistematicamente qualquer jurisdição do Tribunal Penal Internacional (a exemplo dos EUA). Assim, conforme o script de sempre, um líder do Hamas foi assassinado (o que não parece uma boa maneira de tentar dar continuidade a um processo de paz). Os palestinos, na sequência, lançaram centenas de foguetes em represália. Por fim, Israel fez centenas de incursões em Gaza, nas quais matou 161 cidadãos.

O que diz Obama? Chama os dois lados à razão e lembra o caráter intolerável da situação dos palestinos, um povo sem pátria e sem direito sequer a ter do­cumentos normais como qualquer outro povo? Usa sua força para exigir uma negociação definitiva (como fez, vejam vocês, George Bush pai ao forçar os Acordos de Oslo)? Não, Obama apenas diz que reconhece o direito israelense de se defender (posição que, se seguida à risca, deveria prever também a legitimidade dos palestinos em se defender) e promete ajudá-los financeiramente na construção de escudos antimísseis. Um republicano não faria melhor.

Mas, exatamente por ­causa disso, Obama entrará para a história como realmente queria, ou seja, como o protótipo do líder mundial do século XXI: alguém com imagem simpática, sensibilidade humana e capacidade nula de ação real.