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MST participa de encontro histórico entre esquerda palestina e israelense

por Viviane Vaz, em Jerusalém — publicado 12/05/2011 10h45, última modificação 12/05/2011 10h55
Centenas de ativistas se encontraram em Hebron para dialogar sobre a ocupação da Cisjordânia e a desigualdade social
MST participa de encontro histórico entre esquerda palestina e israelense

), 130 ativistas de esquerda palestinos e 120 israelenses enfrentaram o risco de se encontrar no território palestino de Hebron para dialogar sobre a ocupação da Cisjordânia e os problemas de desigualdade social na Terra Santa

Às vésperas da data em que os israelenses comemoram o 63º aniversário de criação de seu país (Dia da Independência) e que os palestinos marcam como Naqba (Dia do Desastre), 130 ativistas de esquerda palestinos e 120 israelenses enfrentaram o risco de se encontrar no território palestino de Hebron para dialogar sobre a ocupação da Cisjordânia e os problemas de desigualdade social na Terra Santa. O histórico encontro –as esquerdas israelense e palestina não se reuniam desde a Segunda Intifada, em 2000, também ganhou um toque verde e amarelo: o Movimento dos Sem Terra (MST) recebeu uma homenagem especial no fim do encontro.

No sábado, 7 de maio, enquanto os judeus religiosos saíam em direção às sinagogas de Jerusalém, os ativistas de movimentos de esquerda israelense se reuniam no bairro German Colony e enchiam vans rumo a Hebron. Como medida de segurança, para visitar a Palestina, os cidadãos israelenses precisam de autorização da Forças de Defesa de Israel (FDI). Os ativistas, porém, ignoraram a norma. “Se pedíssemos, eles não nos dariam”, disse uma ativista à Carta Capital, única revista brasileira na cobertura do evento.

Os ativistas não temeram desafiar as ordens e furar o bloqueio. “O máximo que pode acontecer é que nos levem todos presos”, disse outra ativista. Um dos organizadores, porém, pediu ao grupo para se manter restrito ao hotel onde seria a reunião. “Foi o combinado com as lideranças palestinas. Não devemos sair para fazer compras nem mesmo para tomar café. Pode ser perigoso para nós”, explicou.

A conferência titulada “Uma luta conjunta para o fim da ocupação e do racismo” levou mais de oito meses para ser preparada e o financiamento veio da Agência Catalã de Cooperação ao Desenvolvimento (ACCD), por meio da ONG Sodepau. “A luta contra a colonização não é o começo nem o fim. É o meio –parte de uma luta conjunta que esperamos poder desenvolver melhor”, ressaltou Michael Vorshnuski, do comitê organizador.

“As pessoas estão muito emocionadas. Foi um passo adiante de tremenda importância. Esta reunião serviu para criar confiança entre ambas as partes e permitir o intercâmbio de ideias”, disse à Carta Capital o palestrante israelense Gerardo Liebner do movimento Tarabut, que une árabes e judeus contra a desigualdade social e a ocupação israelense na Cisjordânia e Gaza. “Inclusive as perguntas difíceis (do público) serviram para mostrar que estamos falando abertamente”, completou Liebner.

Para o palestino Nassar Ibrahim, diretor do Centro de Informação Alternativa (AIC), que ajudou a coordenar a conferência, foi “uma ocasião histórica e uma pedra angular nas relações israelo-palestinas”. “Esta não foi uma conferência de ONGs, mas de ativistas palestinos e israelenses que querem construir a paz juntos, fundada na justiça e valores compartilhados”, disse.

Troca de bandeiras

No meio de israelenses e palestinos, o brasileiro Marcelo Buzetto, do setor de relações internacionais do Movimento dos Sem Terra (MST) de São Paulo, recebeu homenagens. Membros do Partido do Povo Palestino e ativistas políticos e sociais agradeceram a presença do MST como um dos movimentos de “maior importância” na defesa dos direitos sociais e nacionais do povo palestino. Marcelo entregou a bandeira do Brasil e do MST como presente aos palestrantes.

Segundo o militante brasileiro, o MST busca maneiras concretas de apoiar o povo palestino seja com trabalho voluntário nas colheitas de azeitonas como também na criação de estratégias conjuntas, como ajudar na construção da Via Campesina na Palestina. Um projeto em estudo seria a importação do azeite de oliva dos palestinos. “Eles têm dificuldade de comercializar seus produtos, como o azeite. E o Brasil é um grande importador. Então nos perguntamos, por que não comprarmos da Palestina?”, questiona Marcelo.

Dois Estados?

Em Tel Aviv, no fim de abril, cerca de 300 israelenses de esquerda pediram a criação e independência de um Estado palestino seguindo as fronteiras de 1967, em paz e “ao lado de Israel, segundo as fronteiras de nossa independência fixadas pelo armistício de 1949”. Por outro lado, a esquerda israelense e palestina não souberam responder à Carta Capital se o último acordo assinado no Cairo, estabelecendo a reconciliação dos grupos palestinos, sobretudo entre o Fatah e o Hamas, poderia afetar as negociações de paz com Israel, uma vez que a posição original do Hamas era a de não aceitar a existência do Estado israelense.

O participante israelense Ophir Toubul pediu ao público palestino recordar que não existe só um ponto de vista em Israel e que inclusive há judeus de cultura árabe, provenientes de países do Magreb, também chamados de mizrahi (oriente). “Sou judeu de família que veio do Marrocos e falamos árabe em casa”, disse Ophir. “Mas enquanto houver bombas caindo nos ônibus de Israel, vai ficar difícil convencer o governo a mudar de política em relação aos territórios ocupados”, disse Ophir.

O governador do distrito de Hebron, Kamal Hmeid, agradeceu os israelenses que visitaram Hebron e pediu "o fim das políticas colonialistas na cidade e nos territórios palestinos, como os assentamentos de famílias de judeus ortodoxos, o muro de separação, a presença militar, check-points e controle nas estradas". Na próxima semana os ativistas palestinos e israelenses planejam realizar outra reunião.

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