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Internacional

Armas químicas

Moscou volta à cena internacional com iniciativa para Síria

por Deutsche Welle publicado 15/09/2013 12h25, última modificação 15/09/2013 14h38
A intermediação russa no conflito abriu caminho para a diplomacia. O Kremlin está de volta à cena. Mas uma nova política para Damasco não está em seus planos
WARD AL-KESWANI / AFP PHOTO
damasco

Rebeldes opositores na capital Damasco

"Um sucesso tático da diplomacia russa": assim Margarete Klein, do Instituto Alemão de Relações Internacionais e de Segurança (SWP), classificou a iniciativa do Kremlin para colocar as armas químicas sírias sob controle internacional. Em conversa com a Deutsche Welle, ela apontou que assim foi evitado o pior dos cenários para a Rússia. Um ataque militar dos EUA teria enfraquecido o regime de Bashar al-Assad em Damasco e, para Moscou, pairava a ameaça de perder seu aliado mais importante no Oriente Médio. Isso foi evitado, ao menos num futuro previsível, disse Klein.

Também o editor independente e especialista militar moscovita Alexander Golz falou de uma jogada inteligente de Moscou. Ele lembrou que quem lançou a sugestão para o controle internacional das armas químicas sírias, já há mais de um ano, não foi o ministro russo do Exterior, Serguei Lavrov, nem Vladimir Putin, mas sim o senador americano Richard Lugar. "Mas Lavrov e Putin se lembraram dessa sugestão na hora certa e no lugar certo", disse Golz à DW.

Os meios de comunicação russos não poupam elogios a seu presidente. Uma manchete no site da emissora de NTV anunciava: "Franceses concedem a Putin Prêmio Nobel pela paz na Síria", com um link remetendo ao principal programa de notícias, o Segodnya (Hoje). Num resumo das notícias sobre a Síria, o apresentador Pavel Matveyev diz: "Está claro que a Rússia com sua iniciativa sobre o controle de armas químicas acertou em cheio. Em princípio, até mesmo a Otan apoia a iniciativa".

E mais adiante no texto: "O presidente russo se tornou um herói nos últimos dias. Nas ruas de Roma, estão sendo pregados cartazes de Putin com os dizeres 'Estou com Putin'. No Egito, revela-se o amor a Putin com o adendo: 'Adeus, Estados Unidos'. E, na França, sugeriu-se até mesmo que o Prêmio Nobel da Paz seja outorgado a Putin, com a justificativa de que, se ele realmente impedir um ataque militar, sem dúvida fez mais pela paz do que o Prêmio Nobel Barack Obama." Não foram dados detalhes, no entanto, sobre quem são esses sinistros franceses e sobre quando e onde essa sugestão foi feita.

Putin dá lição a Washington. O próprio Putin aproveitou a oportunidade para dar uma lição nos Estados Unidos. Em artigo publicado no New York Times, ele assinalou: "Há motivo para o receio de que uma intervenção militar em conflitos internos de outros Estados se torne uma prática cotidiana dos EUA. Isso está de acordo com os interesses de longo prazo dos Estados Unidos? Eu tenho minhas dúvidas. Cada vez mais, milhões de pessoas de todo o mundo passaram a não ver os EUA como um modelo democrático, mas sim como um país que aposta somente na violência, que forja coalizões a partir do princípio 'Quem não está conosco, está contra nós'".

Mas a iniciativa de Moscou abre mesmo um caminho para a democracia? Os especialistas duvidam. Margarete Klein, do SWP, acredita que "o governo sírio irá tentar aproveitar a proposta para ganhar tempo". Decerto abriu-se uma "janela de possibilidades", também para uma nova rodada de negociações entre as partes conflitantes na Síria, No entanto, a especialista pergunta, quem irá se sentar à mesa de negociações?

A oposição síria rejeita Assad e, no entanto, a proposta russa pressupõe uma cooperação da comunidade internacional tanto com o regime Assad quanto com a oposição. Caso contrário, não pode ser garantida a segurança dos inspetores internacionais na Síria.

Kremlin não muda política para Síria. O especialista militar independente Golz está seguro de que, sem a ameaça de um ataque militar, Moscou e Damasco não teriam se movido nem um milímetro. "Até poucos dias atrás, parece que Moscou tinha caído no esquecimento da política mundial. O ápice foi a recusa de Obama a se encontrar com Putin. O Ocidente estava cansado de escutar as eternas lamentações da Rússia." Agora, porém, o país conseguiu voltar à cena.

Mas a posição russa mudou frente ao regime na Síria? Alexander Golz responde assim: "O fundamento da política exterior russa é a noção de que os conflitos internos de um país devem ser resolvidos sem intervenção externa. Isso significa que qualquer líder autoritário pode fazer o que quiser com o seu povo." Por isso, o especialista não acredita numa mudança de atitude do Kremlin em relação ao regime Assad.


Autoria Alexander Warkentin (ca)
Edição Augusto Valente