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Morosidade da ONU prejudica refugiados sírios no Líbano, diz ONG

por Gabriel Bonis publicado 08/02/2013 11h19, última modificação 08/02/2013 11h19
Imigrantes forçados só recebem auxílio do ACNUR após completarem um cadastro, o que pode demorar meses

 

Milhares de refugiados sírios no Líbano estão vivendo sem assistência humanitária adequada e em condições extremamente precárias devido à morosidade da ONU. É o que diz a ONG Médicos Sem Fronteiras (MSF), no estudo “Misery beyond the war zone: Life for Syrian refugees and Displaced populations in Lebanon” (Miséria Além da Guerra: A Vida para Refugiados Sírios e Populações Deslocadas no Líbano, em tradução livre), divulgado na quinta-feira 7.

Para ter direito a algum auxílio, os imigrantes forçados devem se cadastrar nos centros de atendimento do ACNUR, agência da ONU para refugiados. Até completarem o registro, não conseguem receber assistência. Devido ao grande fluxo de refugiados, no entanto, o processo de uma família pode levar meses para acabar. “Os atrasos são inaceitáveis. O ACNUR tenta agilizar o processo, mas famílias com crianças em perigo esperam quase três meses para serem reconhecidos. Isso está muito errado”, afirmou Bruno Jochum, diretor de MSF em Genebra, durante teleconferência sobre o estudo.

“Não é o processo de registro o problema, mas condicionar a maior parte da assistência a completar esse cadastro quando a maioria desta população é de fácil identificação. Não há motivo para não dar assistência”, completa.

Ao todo, 41% dos entrevistados na pesquisa ainda não se cadastraram, seja por falta de informação, porque os pontos são muito longes ou por medo de serem enviados de volta à Síria caso não tenham documentos. “O MSF chama o governo do Líbano, doadores internacionais, autoridades locais e o ACNUR a garantir que os refugiados que chegam sejam registrados dentro de dias após sua chegada, por meio de uma expansão significante dos pontos de registro e mobilização de mais pessoal”, pede a ONG em trecho do estudo.

Mesmo quando os refugiados conseguem ser registrados, as condições de vida continuam precárias. Segundo a pesquisa, um em cada quatro migrantes não recebeu assistência e 65% dos que receberam dizem ter sido parcial e insuficiente para cobrir as necessidades da família. Em geral, eles recebem da ONU alimentação, vales para combustível e cuidados de saúde.

        

A situação é ainda pior para os "sem cadastro", que precisam arcar com elevados custos de alimentação e saúde. Duas a cada três mulheres grávidas deste grupo não têm acesso ao pré-natal e apenas 32,6% das crianças foram vacinadas. Dentre estas pessoas, 63% não receberam nenhuma ajuda de ONGs.

Em meio a este quadro, o MSF precisou ampliar o seu tipo de atuação no Líbano. Desde novembro de 2012, distribuiu mais de 25,5 mil itens de primeira necessidade a refugiados e, em janeiro, começou a entregar vale combustível para que 300 famílias tenham aquecimento nos próximos dois meses de inverno.

Sem tratamento

A ONG indica que 52% dos entrevistados não podem pagar o tratamento para doenças crônicas e quase um terço deles teve que suspender os medicamentos por causa do custo. Por isso, o MSF busca atender no país preferencialmente pessoas com enfermidades como diabetes e problemas cardiovasculares, que necessitam de remédios diários.

Segundo o ACNUR, no fim de janeiro havia mais de 165 mil refugiados registrados no Líbano, 77 mil esperavam e outros 50 mil estavam no país sem tentar o cadastro. Ao todo, incluindo também países como Egito, Jordânia, Iraque e Turquia, o número sírios deslocados chega a quase 650 mil e deve atingir 1 milhão até o meio do ano.

No Líbano, a maioria das 2,1 mil famílias pesquisadas vem da região urbana de Homs e arredores (37,7%), Damasco, Dar’aa e Idlib (36,5%), Aleppo (14,6%) e Hama (7,4%). Em junho passado, 90% dos refugiados sírios no país vinham da região de Homs.

Como o país não tem campos de refugiados oficiais, os imigrantes precisam encontrar abrigo sozinhos em regiões colapsadas pelo intenso fluxo de pessoas. O que colabora para que mais da metade dos entrevistados, registrados oficialmente ou não, estejam vivendo em locais com estruturas inadequadas, como garagens, prédios em construção e escolas.

Outro problema é que 60% dos refugiados precisam pagar por um abrigo, mas apenas 37,6% deles podem dispor dos valores pedidos por um imóvel ou quarto. “A situação típica é uma família vivendo em uma casa em construção, algumas sem teto, janelas ou portas. Eles têm que colocar plástico para se proteger do frio e da chuva, relata Jochum. "É comum ter até 15 pessoas em apenas um cômodo com um pequeno aquecedor que necessita combustível. Isso é bem representativo.”

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