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Militares britânicos e franceses treinaram rebeldes líbios

por Gianni Carta publicado 31/08/2011 19h02, última modificação 01/09/2011 05h42
Grupo que tirou Muammar Kaddafi do poder teve orientação total dos principais países da Otan. É o que informa o cientista político Luiz Alberto Moniz Bandeira, da Universidade de Brasília

Os rebeldes que tomaram o controle do poder na Líbia contaram com uma substancial ajuda de militares britânicos e franceses em treinamentos e munições. Apesar disso, integrantes importantes na história da Al-Qaeda também agiram com esses rebeldes.  E, para completar, é muito provável que os norte-americanos já estivessem planejando a queda do ditador Muammar Kaddafi desde ao menos em 2010.

Essas são algumas conclusões de Luiz Alberto Moniz Bandeira, cientista político e historiador, professor aposentado da UNB (Universidade de Brasília). Leitor voraz da imprensa internacional e de obras a respeito da política das grandes potências, Moniz Bandeira é autor de, entre outros livros, Formação do Império Americano, que lhe rendeu o título de intelectual do ano de 2005 pela União Brasileira de Escritores e, no mesmo ano, o troféu Juca Pato. A obra foi publicada este ano pela Casa das Américas, em Cuba, e sairá até fins de 2011, na China, traduzido para o mandarim, pela editora da Uniiversidade de Renmin, em Beijing.

CartaCapital: O senhor tem informações de que tropas especiais do Reino Unido, França e Estados Unidos teriam, antes mesmo de ter sido a aprovada a “zona de exclusão” pelo Conselho de Segurança da Onu, agido ao lado dos rebeldes na Líbia. Poderia nos dar mais detalhes?

Luiz Alberto Moniz Bandeira: Segundo The Guardian revelou, tropas das forças especiais do Reino Unido chegaram à Líbia, em fevereiro deste ano, e assessoram e treinaram os chamados “rebeldes” em Benghazi, no leste da Líbia, região tradicionalmente separatista. Em 7 de março, os “rebeldes” libertaram dois oficiais do M16, o serviço de inteligência britânico. As tropas especiais britânicas entraram na Líbia, de helicóptero, e desceram na fazenda de Tom Smith (suposto agente do M16), perto de Benghazi, com armas, munições, explosivos, cadernetas com informações militares, mapas e passaportes falsos. O objetivo era entrar em contato com os líderes da oposição em Benghazi. E não há duvida de que lá também estiveram soldados franceses.

CC: Publicamos há poucos dias no site da CartaCapital que a Al-Qaeda estaria no comando da batalha por Trípoli. Abdelhakim Belhaj, conhecido pela CIA como Abu Abdallah Al-Sadek,  fundador do Grupo Islâmico de Combate (GIC) e agora integrante do Conselho Nacional de Transição, apoiado por 34 países, seria o líder dos insurgentes.

LAMB: Não foi sem fundamento que Kaddafi, logo no início, denunciou que a Al-Qaeda estava por trás da rebelião em Benghazi. As potências ocidentais desprezaram a denúncia, como se fosse propaganda política. Porém, ele estava muito bem informado por seu serviço secreto. Abdelhakim Belhaj ou Abu Abdallah al-Sadek, fundador do Grupo de Combate Islâmico Líbio, comanda, juntamente com Khaled Chrif e Sami Saadi, a Brigada de Trípoli, que recebeu treinamento secreto, durante dois meses, de forças especiais dos Estados Unidos. Essa milícia está à frente do combate em Trípoli, apoiada por militares das forças especiais do Reino Unido e da França. Belhaj lutou contra as tropas da União Soviética, com os mujahideen, no Afeganistão, onde organizou campos de treinamento para o jihadistas durante os anos 1980, o que é sabido tanto pela CIA quanto pelo M16 e o Mossad. Em 2006, o Grupo Islâmico de Combatentes Líbios, liderado por Belhaj, fundiu-se com Al-Qaeda, no Mahgreb Islâmico (noroeste da África).

CC: Essa história não lembra aquela da colaboração entre a CIA e Osama Bin Laden?
LAMB: Essa colaboração é antiga. Em 1979, o presidente (americano) Jimmy Carter autorizou a CIA a dar assistência encoberta aos mujahidin afegães, mediante propaganda e outras operações de guerra psicológica, possibilitando à população o acesso ao rádio e outras provisões, de modo a sustentar a insurgência contra o governo de Cabul, que tinha o respaldo da União Soviética. O general Muhammad Zia al-Haq,  na época presidente do Paquistão, e o príncipe Turqui bin Faisal, chefe do serviço de inteligência da Arábia Saudita, tinham estreitas vinculações com Osama bin Laden e serviram como intermediários do financiamento da CIA aos mujahidin mobilizados para combater as tropas soviéticas. Era o cinturão verde (Islã) contra o avanço vermelho (comunismo). A Jihad, porém, não terminou com a saída das tropas soviéticas. Os Estados Unidos foram um aliado circunstancial. E cerca de 600 a mil fundamentalistas, com a ajuda de bin Laden e de outros patrocinadores da Jihad ou atravessando os desertos de Marrocos e da Tunísia, retornaram à Argélia e à Líbia, onde se concentraram em Benghazi.

CC: Sabe quando e como a Otan começou a armar os rebeldes?
LAMB: Tudo indica que os Estados Unidos, faz algum tempo, já haviam decidido remover Kaddafi, mudar o regime e aguardavam apenas a oportunidade. É muito provável que o planejamento da operação houvesse começado em 2010, antes do levante no Egito. Em outubro daquele ano, Nuri al-Mesmari, chefe de protocolo de Kaddafi, abandonou a Líbia e, depois de passar pela Tunísia, asilou-se na França, onde manteve contato com os militares, começando o complô contra Kaddafi envolvendo ativistas da oposição em Benghazi. O jornalista italiano Franco Bechis revelou no diário direitista Libero, em 24 de março 2011, que aparentemente o serviço secreto francês começou a planejar a rebelião em Benghazi em 21 de outubro de 2010. Ele acusou o presidente Nicolas Sarkozy de manipular a revolta na Líbia. E Sarkozy não deixaria de contar com o respaldo dos Estados Unidos. Em 26 de fevereiro, nove dias, após a sublevação em Benghazi, o presidente Barack Obama declarou que Kaddafi havia perdido a legitimidade e devia deixar o governo. Ele estava a considerar a intervenção militar e há algumas evidências de que já havia introduzido forças militares na região.

CC: O senhor prevê na Líbia uma desordem como no Afeganistão e no Iraque?
LAMB: A situação da Líbia é muito complexa. Em 1969, Kaddafi derrubou com um golpe militar o rei Idris. Desde então, buscou impor à Líbia um só partido. É um país onde o Estado nacional ainda não se consolidou. É semi-tribal, o mais tribal entre os países árabes. Há mais de 140 tribos e clãs na Líbia e vão disputar o vácuo do poder, dado que nenhum governo implantado pelos “rebeldes” da Otan terá legitimidade. Kaddafi tentou reduzir a influência das tribos, mas depois teve de fazer alianças e manipular a fidelidade das tribos a fim de manter sua ditadura. Tornou-se, no país, um fator de equilíbrio como Saddam Hussein, no Iraque. Com a sua derrubada, as potências ocidentais não terão condições de controlar as lutas tribais.

CC: Os Estados Unidos poderão intervir na Síria?
LAMB: Não creio. A posição geopolítica da Líbia é muito mais complicada e uma intervenção estrangeira certamente desestabilizaria todo o Oriente Médio, embora desde 2006 os Estados Unidos estejam a financiar a oposição. Mas, depois da Líbia, Obama não conta com a possibilidade de obter uma resolução do Conselho de Segurança, ainda que muito vaga, para encobrir a intervenção militar e, depois, disfarçá-la com a máscara da Otan. E decerto não deseja envolver-se, diretamente, em novo confronto militar, como ocorre no Iraque e no Afeganistão

CC: E o interesse pelo petróleo da Líbia?
LAMB:
O petróleo, certamente, foi um dos motivos da intervenção na Otan na Líbia, mas não creio que foi decisivo. Os Estados Unidos, bem como a França e o Reino Unido, querem legitimar o direito de intervenção humanitária, para encobrir seus interesses estratégicos e geopolíticos, entre os quais, evidentemente, o petróleo. A Líbia, antes da guerra, estava a produzir 2 bilhões de barris por dia. A França importava 5,63% do petróleo da Líbia, porém seu objetivo é aumentar a participação das companhias francesas na exploração, para garantir seu abastecimento, durante o século 21. Também o Reino Unido e os Estados Unidos pretendem  manter sob controle os principais campos de produção. Mas há outros interesses em pauta. Sarkozy deseja restabelecer os contratos para venda de aviões Rafales, a fim de substituir os Mirages líbios destruídos pelos bombardeios da própria França, sob o manto da Otan, bem como garantir para as construtoras francesas as obras de reconstrução de Trípoli. Depois o United States Africa Command (AFRICOM) entregará às companhias militares ligadas ao Pentágono, mediante vultosos contratos de milhões de dólares, as tarefas de recrutar e treinar as forças militares do novo governo da Líbia. Encapados Otan, os Estados Unidos tentarão manter o domínio ultra-imperialista do cartel das grandes potências ocidentais, dominando estrategicamente o Mediterrâneo, onde o único estado adverso agora é a Síria.

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