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Egito

'Militar é cópia de Mubarak'

por Redação Carta Capital — publicado 23/11/2011 08h51, última modificação 23/11/2011 08h51
Apesar de militares egípcios prometem entregar poder, população está cética. Jornal local alerta para uma deterioração entre povo e exército
Manifestantes não acreditam nas promessas do marechal Hussein Tantawi. Foto: Khaled Desouk/AFP

Manifestantes não acreditam nas promessas do marechal Hussein Tantawi. Foto: Khaled Desouk/AFP

As Forças Armadas que comandam o Egito desde a queda de Hosni Mubarak prometeram nesta terça-feira 22 eleições presidenciais em junho de 2012 e aceitaram a possibilidade de um referendo sobre a transferência de poder para tentar acalmar os manifestantes.
O chefe do Conselho Supremo das Forças Armadas (CSFA), o marechal Hussein Tantawi, afirmou que as eleições legislativas acontecerão a partir de segunda-feira, como estava previsto, apesar da grave crise política e dos enfretamentos entre manifestantes e forças de segurança, que causaram 30 mortes desde sábado, segundo o Ministério da Saúde.
A realização das eleições presidenciais em meados de 2012 adianta as previsões anteriores que falavam em fim de 2012 ou até 2013, na falta de um calendário concreto.
Os militares já haviam se comprometido, nos últimos meses, a entregar o poder aos civis assim que um presidente fosse eleito.
"O exército não quer o poder e coloca os interesses do povo antes de tudo. Está completamente disposto a transferir as responsabilidades imediatamente se o povo quiser, mediante a um referendo popular", garantiu Tantawi em um discurso televisionado.

Também aceitou a renúncia do governo do primeiro-ministro Esam Sharaf, nomeado em março, mas não anunciou o nome do novo chefe de governo.
Estes anúncios foram feitos no fim de uma reunião do CSFA com vários movimentos políticos, entre eles a influente Irmandade Muçulmana, para tentar buscar uma solução para a crise.
O CSFA mencionou, durante o encontro, a possibilidade de nomear o ex-chefe da Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA), Mohamed ElBaradei, como o novo primeiro-ministro, de acordo com uma fonte da AFP, mas esta hipótese não está confirmada.
ElBaradei, declarado candidato às eleições presidenciais egípcias, denunciou por sua vez um massacre na Praça Tahrir.
"Foram utilizadas bombas de gás lacrimogêneo e balas reais contra os civis em Tahrir, é um massacre", afirmou no Twitter.
Na praça, milhares de egípcios continuavam pedindo a transferência de poder aos civis e acusavam os militares de perpetuar o sistema repressivo herdado de Mubarak.
Mubarak, derrotado por uma revolta popular em 11 de fevereiro, havia cedido seu poder às Forças Armadas e transformado o marechal Tantawi no novo chefe de Estado de fato.
Na emblemática praça no Cairo, alguns manifestantes não acreditavam em nenhuma palavra do discurso do marechal. "Não podemos acreditar no que diz. O Conselho Militar teve chance, durante meses e não fez nada", afirmou Ibtisam al Hamalawy, de 50 anos.
"Tantawi é uma cópia de Mubarak", garantiu Ahmed Mamduh. "É Mubarak com farda e este discurso parecido com o de Mubarak", acrescenta o contador de 35 anos.
"Saia!", milhares de manifestantes gritavam na Praça Tahrir para o marechal, retomando um lema muito ouvido na revolta contra o ex-presidente.
Na segunda-feira, o CSFA tinha reconhecido que o país estava em "crise". Esse cenário causa temores de episódios violentos durante as eleições legislativas de segunda-feira.
Enfrentamentos em outras cidades também foram registrados: Alexandria, Porto Said (norte), Suez, Qena (centro), Assut e Assuan (sul), além da província de Daqahliya, no delta do Nilo.
A Irmandade Muçulmana, que representa a força política mais bem organizada do país, boicotou a manifestação de terça-feira em Tahir e pediu calma, esperando que nada impeça a realização das eleições do dia 28 de novembro, tendo em conta que se consideram em vantagem.
Nesta quarta-feira, milhares de egípcios na Praça Tahrir afirmam não acreditar nas palavras do marechal, que foi ministro durante o antigo regime e que agora os manifestantes comparam ao presidente destituído Hosni Mubarak.
A determinação dos manifestantes, que já provocaram a renúncia do governo civil instalado pelo poder militar, permite imaginar uma disputa de longo prazo, a menos de uma semana das primeiras eleições legislativas desde a queda de Mubarak, que devem começar em 28 de novembro.
"Uma segunda revolução", afirma o jornal Al-Akbar na edição desta quarta-feira.
"O mais perigoso que pode acontecer é a deterioração da relação entre o povo e o Exército", adverte o jornal.
Informações da Agência France Press

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