Você está aqui: Página Inicial / Internacional / Mesmo após resgate, mercado pressiona títulos da dívida espanhola

Internacional

Crise na Europa

Mesmo após resgate, mercado pressiona títulos da dívida espanhola

por Gabriel Bonis publicado 13/06/2012 12h07, última modificação 06/06/2015 17h37
Dúvida sobre origem do dinheiro que a Espanha receberá eleva juros da dívida do país e também joga pressão sobre a Itália
espanha

O rendimento pago pelos bônus espanhóis a dez anos chegou na manhã desta terça-feira a 6,826%, um nível recorde. Foto: Javier Soriano/AFP

A crise da dívida pública na Europa voltou a dar sinais de que avança sobre as economias de Espanha e Itália na terça-feira 12. Quatro dias após os países da Zona do Euro concordarem em emprestar 100 bilhões de euros aos bancos espanhóis, os bônus da Espanha com vencimento em dez anos atingiram 6,82%, o maior patamar desde a criação do euro, em 1999. A desconfiança do mercado também respingou nos títulos da Itália, que chegaram a 6,28%, nível mais elevado desde janeiro. Quanto maior a taxa de juros, maior o risco de um calote. Enquanto isso, os mesmos papeis da Alemanha, vistos como os mais seguros da Europa, foram negociados a um vencimento de 1,41% ao ano.

Após os resultados de terça-feira, Espanha e Itália entraram em alerta. A taxa dos títulos dos dois países se aproximou de 7%, nível visto pelo mercado como uma espécie de "teto econômico". Ao atingir esse patamar, o financiamento com a venda de bônus no mercado passa a ser insustentável em longo prazo, porque o valor a ser pago aos credores é muito maior que o levantado para quitar despesas imediatas. Ainda assim, o Tesouro espanhol garantiu que continuará com seu programa de financiamento, já tendo atingido 56,8% de sua meta de 86 bilhões de euros para este ano. Neste cenário, as bolsas europeias não deslancharam, embora tenham fechado em leve alta na terça, com exceção de Milão, que caiu 0,7%.

O abalo da Espanha - e seus 24,4% de desempregados - traz para a crise contornos mais dramáticos. A reação do mercado aos títulos do país se deve mais à incerteza sobre a origem do dinheiro do que ao temor de o resgate falhar, defende Antonio Carlos Alves dos Santos, doutor em economia e professor da PUC-SP. Segundo ele, ainda não está claro se o empréstimo sairá do Fundo Europeu de Estabilidade Financeira (FEEF) ou do Mecanismo Europeu de Estabilidade (MEE). Caso venha do MEE, a eventual quebra de um banco daria preferência aos países da Zona do Euro em receber valores de uma liquidação. A opção conta com o influente apoio da Alemanha. Por outro lado, o mercado aposta no financiamento pelo FEEF, que não tem preferência por favorecidos. Resolvido de onde sairá o dinheiro, ainda restará saber quais os juros (se ficariam em patamares baixos em torno de 3%) que a Espanha deve pagar. Isso deve ser decidido em reunião dos ministros de Finanças da Zona do Euro em 21 de junho.

Há ainda outros fatores pesando nos resultados dos títulos espanhóis. Segundo Julio Sergio Gomes de Almeida, doutor em economia e consultor do Instituto de Estudos para o Desenvolvimento Industrial (IEDI), a Espanha não tinha como evitar o pedido de auxílio, mas ao fazê-lo “explicitou a fragilidade do seu sistema bancário”. Isso foi percebido com rapidez pela agência de risco Fitch, que no início da semana rebaixou a nota de 18 bancos espanhóis, incluindo Santander e BBVA, os dois maiores do país. Além disso, um relatório de analistas do Barclays Capital aponta que um crédito de 70 a 80 bilhões de euros elevaria a dívida pública espanhola em até 7,5 pontos percentuais. Ao final de 2011 a dívida do país era de 68,5% do PIB e, neste cenário, pode chegar a 95% em 2015, segundo projeções. Esse fator, no entanto, não é muito preocupante para Silva, pois o empréstimo é apenas para bancos regionais mal geridos. “A origem do problema não é o Estado, embora em última análise a responsabilidade pelo pagamento dos empréstimos recaia sobre o governo.”

E o mau desempenho da Espanha nos mercados pode durar pelo menos até a próxima semana. Por trás dos problemas internos, ainda há a preocupação com uma eventual ruptura da Grécia com o euro. Isso teria maiores chances de ocorrer caso nas eleições legislativas de 17 de julho uma coligação antiausteridade se forme e decida revisar os acordos de aperto fiscal assinados com autoridades europeias. “Até os resultados da eleição no final de semana, o mercado vai ficar tenso e qualquer suspiro pode ser visto como pneumonia”, diz o professor da PUC-SP.

Crise reflete na Itália

Com o pedido de ajuda aos bancos, a Espanha entrou para o grupo de países que recorreram a empréstimos, ao lado de Portugal, Irlanda e Grécia, e aumentou a pressão sobre a Itália. O mercado já considera que a economia italiana pode ser a próxima vítima da crise. Em meio a este clima, a ministra de Finanças da Áustria, Maria Fekter, disse na terça-feira que a Itália talvez venha a precisar de um resgate, fato negado por Roma. Mesmo assim, os títulos da dívida do país enfrentam desconfiança. “É o componente de manada. O mercado acordou e viu que o empréstimo [à Espanha] pode não vir do fundo que gostaria e age com um pouco de desespero”, acredita Santos. Almeida completa que a instabilidade chega à Itália por causa da dívida de 1,9 trilhão de euros do país. "Ou se consolida essa dívida ou esse jogo de esconde e esconde vai ter sequência.”

Para solucionar o problema, o consultor do IEDI defende que a Europa adote uma posição mais firme e troque a dívida dos países mais combalidos por um título europeu único, os eurobonds. “Esse seria o caminho fundamental para sair da crise de forma coordenada. Senão o processo será desordenado como na Grécia.” Mas a Alemanha é a maior opositora da ideia, pois a consolidação desta medida empurraria o peso da dívida para os países ditos "responsáveis", entre eles a própria a Alemanha.

União bancária

A fragilidade do sistema bancário europeu, evidenciada na crise, mudou os planos da Comissão Europeia. Segundo a BBC News, Bruxelas deve adiantar os preparativos para uma união bancária no continente para 2013. A medida criaria um órgão regulador único para os bancos dos 27 países da União Europeia. Mas o Reino Unido (que usa a libra esterlina como moeda, não o euro) dá indícios de que não vai participar do grupo, composto então somente por membros da Zona do Euro. “É uma medida que não vai resolver porque deveria ter sido feita antes de a crise se explicitar”, defende Almeida. Para ele, a necessidade de uma regulação bancaria unificada na Europa é evidente, assim como uma “agência emprestadora de última instância dos bancos”, mas isso dificilmente poderá ser estruturado com a crise avançando. "Antes seria necessário cuidar de outros temas como a unificação fiscal”, diz. Um aspecto exigido pela Alemanha para a implantação de outro plano da CE, no qual os países dariam dinheiro a um fundo para garantir depósitos dos poupadores contra quaisquer potenciais quebras de bancos. Mas neste sistema, como normalmente ocorre, a Alemanha entraria com a maior parte do dinheiro. Como os bancos europeus são os maiores emprestadores de dinheiro aos governos da região, o dispositivo diminuiria os riscos de emprestimos a países com problemas financeiros. Por conseguinte, levaria a juros menores com garantias da Alemanha e países saudáveis sem solucionar os problemas reais dos Estados em crise. Por isso, Berlim quer que cada país se comprometa antes com a união fiscal, além de aceitarem politicas estritas de orçamento.

Com informações AFP.

Leia mais em AFP Movel.

registrado em: