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Gianni Carta

Merkel e Hollande, um casamento forçado

por Gianni Carta publicado 16/05/2012 16h18, última modificação 06/06/2015 18h59
Chanceler e presidente têm de conciliar austeridade e crescimento; divórcio poderá provocar o fim da UE

Angela Merkel e François Hollande trocaram um aperto de mão cordial no primeiro encontro que tiveram na terça-feira 15, em Berlim. A chanceler alemã e o recém-eleito presidente francês preferiram conversar entre eles nas suas línguas maternas, e assim puseram os intérpretes para trabalhar.

Mas, se não houve efusão como nos encontros entre os conservadores Merkel e o ex-presidente Nicolas Sarkozy, eventos nos quais os dois trocavam beijos e posavam abraçados para as câmaras, a chanceler alemã e o novo presidente socialista pelo menos mostraram-se sequiosos a chegar a um consenso.

O motivo?

No curto prazo eles precisam evitar o naufrágio da Grécia, e sua subsequente saída da União Europeia (UE). Derrotados os dois partidos pró-austeridade nas legislativas de 6 de maio e diante da falta de maioria para formar um novo governo, o próximo pleito está marcado para 17 de junho. E legendas antiausteridade gregas, incluindo a de extrema-esquerda Syriza (segunda mais votada), não parecem interessadas em aderir ao pacto fiscal a pregar um programa de austeridade assinado por 25 dos 27 integrantes da UE.

Recapitulando, Merkel acredita que somente através o rigor fiscal será possível tirar a Zona do Euro da crise. Tudo ia bem quando Sarko, ainda presidente, estava de acordo com sua homóloga, algo que irritava os antisarkozystas.

Por sua vez, Hollande quer promover o crescimento do bloco europeu. E antes do tête-à-tête com Merkel, o futuro presidente dizia que caso não houvesse o acréscimo da palavra “crescimento” no pacto fiscal ele recomendaria aos parlamentares franceses para não ratificarem o tratado. Detalhe: os parlamentos de todos os países signatários têm de ratificar o tratado até o final do ano.

O socialista Michel Rocard, o mais popular premier francês da história moderna, disse a CartaCapital: “É difícil renegociar um texto (pacto fiscal) que acaba de ser assinado, mas podemos imaginar que haverá complementos. Isso porque faz pouco tempo que a ameaça da recessão tomou uma dimensão mais forte”.

De fato, na capital alemã Hollande mudou seu discurso. Afirmou que não quer alterar a política econômica de austeridade, mas sim acrescentar um plano para promover o crescimento do bloco europeu. Caso o plano de Hollande funcione – coisa que saberemos na reunião de vértice da UE em junho –, os gregos, aqueles mais mais próximos da falência, o verão como um herói (isso, claro, se os gregos continuarem na UE até junho).

Rocard acredita na possibilidade dessa liderança de Hollande. E, como todo social-democrata, o ex-premier francês acrescenta: “Mas o movimento a evitar políticas de recessão que fazem muitos estragos na Europa será apoiado também pelos sindicalistas alemães, britânicos etc. O debate para lidar com a crise sem enfraquecer o crescimento não envolve somente nações”.

Na verdade, Merkel e Hollande parecem vítimas de um casamento forçado. Por um lado, Hollande não pode decepcionar aqueles que o elegeram para promover maior crescimento na UE. Isso sem contar os prometidos aumentos de investimentos estatais, menor nível de desemprego para os jovens (menos de 25 anos) e impostos mais elevados para os ricos.

A União Democrata-Cristã (CDU, na sigla em alemão) de Merkel, em contrapartida, precisa do apoio do Partido Democrático Liberal (FDP, na sigla em alemão), formado por ferrenhos defensores de uma política econômica de austeridade.

Conciliar austeridade e crescimento econômico não é tarefa fácil. No entanto, o fato de a Zona do Euro não ser capaz de salvar um integrante da UE que representa apenas 2% do PIB do bloco é difícil de compreender. E se Merkel e Hollande não conseguirem dar conta do recado o divórcio do casal será inevitável. Por tabela, outras separações poderão provocar o fim da União Europeia.