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Rodrigo Martins

Mártir, não. Assassino

por Rodrigo Martins publicado 05/09/2011 17h03, última modificação 06/09/2011 19h57
Não dá para entender como Kaddafi, um ditador sanguinário, possa ser símbolo da 'resistência contra o Ocidente'. Por Rodrigo Martins. Foto: Adem Altan/AFP

De início, imaginei ser uma reação de meia dúzia de pessoas desinformadas ou com algum conceito obtuso de maniqueísmo político herdado da Guerra Fria. Depois, assustei-me com a proliferação de comentários em blogs, redes sociais ou mesmo no espaço reservado aos leitores em sites da mídia tradicional, inclusive o de CartaCapital, a defender abertamente o regime do ditador líbio Muammar Kaddafi, apontado como uma espécie de mártir perseguido pelas grandes potências mundiais.

Graças ao seu passado revolucionário e sua retórica anti-imperialista, o coronel conquistou a simpatia de setores da esquerda, sobretudo a bolivariana. Mas o que causa assombro é o fato de muitos desses militantes ignorarem as violações cometidas nos 42 anos da sangrenta ditadura protagonizada por Kaddafi.

As prisões arbitrárias e execuções extrajudiciais contra dissidentes políticos, os atentados terroristas que patrocinou (como a explosão de aviões estrangeiros repletos de civis), as bombas que jogou contra seu próprio povo e toda a sorte de violações aos direitos humanos parecem ter sido solertemente esquecidas ou minimizadas pelos grupos simpáticos ao ditador.

Houve até quem criticasse a publicação de uma matéria a informar que Kaddafi patrocinava o estupro coletivo das mulheres que integravam a sua guarda feminina, inclusive com a distribuição de pílulas de Viagra a militares de certas patentes. Contêineres repletos do medicamento eram entregues aos soldados.

“Afinal, foi estupro ou as mulheres se sujeitaram a isso mediante pagamento?”, chegou a indagar certo leitor, como se algum tipo de benesse pudesse compensar tal crime.

É como se o desrespeito aos direitos humanos pudesse ser tolerado em determinadas situações, sobretudo quando considero que certo regime tem ideologia semelhante ou compartilha dos mesmos opositores.

Mas nem sempre o inimigo de um oponente meu pode ser considerado meu amigo. É verdade, como ressaltou Antonio Luiz M.C. Costa, em reportagem de capa publicada na edição 635 de CartaCapital, que Kaddafi “comandou a modernização da indústria e da agricultura, investindo nesses setores dezenas de vezes mais que a antiga monarquia, e promoveu uma reforma agrária que deu dez hectares, trator e implementos agrícolas a cada família. Os recursos do petróleo proporcionaram uma boa renda per capita e razoáveis serviços de educação e saúde”. Comparada às demais nações africanas, a Líbia tem um grau de desenvolvimento notável.

Mas o mesmo texto ressalta, a quem vê o ditador com simpatia por interesse econômico ou geopolítico, que nem por isso os crimes de Kaddafi devem ser ignorados, além de expor as contradições ideológicas do líder líbio.

“Kaddafi podia ser considerado tanto um líder anti-imperialista quanto um parceiro das transnacionais europeias e um bastião do Ocidente contra o fundamentalismo. Na sua complicada trajetória e nas suas ideias excêntricas, podia encontrar-se de tudo” (). Outro artigo, publicado pelo diário francês Le Monde e traduzido pelo UOL (disponível para assinantes do portal neste link), revela como, em quatro décadas, Kaddafi flertou com várias ideologias para se manter no poder, inclusive aproximando-se de governos direitistas na França e no Reino Unido, ora engajados na intervenção da Otan para derrubá-lo.

Na defesa irrefletida do regime do coronel Kaddafi, muitos tentam desqualificar as denúncias contra o ditador ao apontar a indignação seletiva de certos jornalistas e meios de comunicação.

De fato, não falta gente disposta a condenar as prisões arbitrárias e a tortura contra dissidentes políticos em Cuba ou na China, mas que fecha os olhos diante das mesmas práticas quando as vítimas são supostos terroristas islâmicos mantidos, por vezes sem acusação formal ou qualquer prova de culpa além dos depoimentos coletados sob tortura, na prisão americana de Guantánamo. Há também os que criticam os vícios da teocracia no Irã e vêem com simpatia o igualmente teocrático regime de dalai Lama no Tibete.

Existem ainda os que condenem os atentados terroristas praticados por grupos palestinos e que se omitem diante do embargo econômico e dos sucessivos massacres que o Estado israelense praticou contra esse povo. Em todos os casos, é importante frisar, o complemento “e vice-versa” é valido.

Ainda que se exponha o discurso incoerente, e por vezes  hipócrita, presente na grande mídia, justificar ou minimizar graves violações aos direitos humanos é um estímulo à barbárie. O regime de Kaddafi caiu tarde. E, apesar de considerá-lo um ditador sanguinário, não desejo que ele seja vítima dos próprios crimes que cometeu, como tortura ou execução extrajudicial. Merece, isto sim, ser julgado pelos crimes contra a humanidade que perpetrou. Não se trata de revanchismo ou vingança, e sim de justiça, que também não comporta qualquer tipo de visão seletiva.

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