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Internacional

Ocupem Wall Street

Manifestantes prometem não silenciar

por Eduardo Graça — publicado 16/11/2011 16h23, última modificação 16/11/2011 16h23
“Eu os perdoo, mas seus filhos não vão perdoá-los, a História muito menos”, gritava, para os policiais, manifestante que virou símbolo dos protestos em NY
ocupe

Manifestante levanta cartaz durante protesto em Nova York

De Nova York

 

Oficialmente, a ocupação da praça Zuccotti pelos manifestantes do Ocupem Wall Street terminou às quatro da manhã desta terça-feira quando as últimas tendas, barracas e colchões infláveis foram retirados pela polícia, a pedido da prefeitura. A biblioteca popular, o centro de mídia, a cozinha comunitária, foram postos abaixo, enquanto centenas de cidadãos foram presos por se recusarem a deixar o local. Alguns chegaram a se amarrar nas árvores da praça em um impressionante exercício de resistência.

O prefeito Mike Bloomberg, sem filiação partidária, defendeu a operação afirmando que as condições sanitárias na praça, localizada nas imediações de Wall Street, estavam “intoleráveis”, e que os manifestantes impediam o uso do espaço privado, propriedade do gigante imobiliário Brookfield, mas administrado pela municipalidade, pelos demais moradores da cidade. A faxina-surpresa, que começou na virada do dia, aconteceu, curiosamente, dois dias antes do início da série de protestos programados para marcar os dois meses de posse dos 3 mil metros quadrados mais disputados de Manhattan no momento pelos que defendem uma maior regulamentação no mercado financeiro ianque.

Durante as últimas semanas, cidades como Oakland e Denver viram ações até mais violentas da polícia contra os manifestantes, que se multiplicam país afora. No fim da tarde, a prefeitura venceu uma batalha jurídica, quando um juiz da Suprema Corte do estado de Nova York garantiu ao Estado o direito de encerrar o primeiro capítulo do Ocupem Wall Street em Nova York.

“Nós não seremos silenciados”. “A blitz da polícia às duas da manhã foi ilegal”. “Cop-ocupação ilegal” (“cop” é gíria comum para identificar o policial, algo como “tira”). “Temos o direito de protestar garantido pela Constituição”. “Meu filho foi preso hoje de manhã por uma ocupação pacífica. Qual foi o seu crime? Nós somos os 99% da população”.

Estas eram algumas das frases escritas nas faixas e cartazes que voltaram às ruas que cercam a Zuccotti na tarde fria e chuvosa do outono nova-iorquino, com os manifestantes prometendo retomar o local. “Eu os perdoo, mas seus filhos não vão perdoá-los, a História muito menos”, gritava, para os policiais, o ex-bibliotecário Robert James Carlsson, 25 anos, que foi parar na capa da revista “The Economist”, em uma edição do mês passado, com uma nota de dólar na boca, como se o capital o impedisse de falar, uma das imagens mais icônicas dos dois meses de ocupação da praça localizada a meio caminho entre Wall Street e a área em que ficavam as Torres Gêmeas do World Trade Center.

Alguns manifestantes diziam que já há pelo menos outras vinte áreas na cidade que poderiam ser ocupadas se os policiais permanecessem cercando a Zuccotti.

Uma das áreas, um parque cercado em Tribeca, entre a rua Canal e a Sexta Avenida, de propriedade da igreja episcopal, chegou a ser rapidamente invadida pelo grupo, mas a polícia prendeu todos os manifestantes que pularam o muro para iniciar a ocupação. Na ocasião, de acordo com o New York Times, um vereador e jornalistas do Daily News, da National Public Radio e da Associated Press, que tentavam entrevistar representantes do Ocupem Wall Street dentro da propriedade privada, acabaram presos.

“Isso traz uma questão interessante: repórteres podem marchar com soldados americanos nos campos minados do Afeganistão, mas não podem testemunhar a limpeza e a desocupação de uma praça pública em Manhattan”, escreveu Michael Powell, uma das estrelas do popular blog “City Room”, do “Times”. Para Powell, a operação policial acabou revitalizando o Ocupem Wall Street, colocando o movimento novamente na pauta do dia.

Até o fim do dia, os tambores continuavam rufando e as palavras de ordem contra Wall Street, agora também dirigidas contra a polícia e o ‘prefeito bilionário, representante dos 1%”, seguiam altos e claros nas ruas que margeiam a Zuccotti. E a cidade espera, em um mix de curiosidade e apreensão, o que os meninos da praça preparam para o dia 17 de novembro, dois meses do início do movimento que moveu o discurso político nos EUA decididamente para a esquerda.

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