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por Gianni Carta publicado 11/03/2008 15h41, última modificação 25/10/2011 13h41
Ao eleger seu 62º primeiro-ministro no pós-guerra, a Itália atravessará um período de estabilidade

Ao eleger seu 62º primeiro-ministro no pós-guerra, a Itália atravessará um período de estabilidade
Com as eleições legislativas italianas, nos dias 13 e 14, duas novas tendências políticas se confirmam: a imagem dos candidatos ganha primeiro plano em detrimento da substância do manifesto de seus partidos; e o sistema eleitoral, até agora dominado por instáveis coalizões, como aquela de centro-esquerda, de Romano Prodi, que desabou em janeiro, devido à perda de maioria no Senado, começa a adquirir características bipartidárias.

Nenhuma das novidades é, porém, sinal de que, ao eleger seu 62º primeiro-ministro no pós-guerra, a Itália atravessará um período de estabilidade. O primeiro motivo é o mais preocupante: o partido de centro-direita Povo da Liberdade (PDL), de Silvio Berlusconi, premier em 1994 (por sete meses) e de 2001 a 2006, conta com 10 pontos porcentuais de vantagem sobre seu rival, o Partido Democrático (PD), liderado pelo centro-esquerdista Walter Veltroni, ex-prefeito de Roma, de 52 anos.

Berlusconi, ex-cantor em cruzeiros turísticos que se tornou o homem mais rico da Itália, é inapto para o cargo. De saída, foi acusado mais de dez vezes por atividades criminosas. E existe o conflito de interesses: Berlusconi é dono de um império que monopoliza canais privados de tevê e considerável fatia da imprensa escrita. Graças à mídia, ele difundiu país afora uma “síndrome de Dorian Gray”, como disse o jornalista Enrico Bonerandi, do La Repubblica. Fez plásticas, implantes capilares, regimes, e se julga um dom-juan (suas gafes merecem um livro).

Desta feita, promete impostos mais baixos, maiores controles de imigração (leia-se mais centros de detenções e expulsões) e “abolir privilégios de políticos”, assunto bastante em voga num país com uma dívida pública estratosférica. E no qual o povo, principalmente os jovens, se refere aos poderosos políticos idosos como a “casta”.

Berlusconi fez muito pouco pela Itália no seu segundo mandato, o primeiro completado por um premier no pós-guerra. Ao mesmo tempo, o custo de vida continuou alto e os salários caíram. Na verdade, ele passou a maior parte de seu mandato atacando o sistema judiciário, para evitar sua prisão.

Embora seja professoral e padeça de certa timidez, Veltroni tem 30 anos de política – e 20 de vida a menos que Berlusconi. Mas essa seria a sua primeira oportunidade de ocupar o cargo de premier. Veltroni pode não ter o carisma do candidato Barack Obama, a quem admira e de quem emprestou o slogan de sua campanha: Yes we can (Si può fare). Mas o ex-jornalista Veltroni sabe quando tem de dar o ar da graça.

Ex-prefeito de Roma nos últimos sete anos, criou um festival internacional de cinema e foi fotografado, entre outros, com Sean Connery e Nicole Kidman. Cinéfilo, amante de jazz e autor de vários livros, trouxe uma brisa de Dolce Vita dos anos 50 de volta à capital, com concertos realizados no Coliseu por músicos do calibre de Simon & Garfunkel. As “noites brancas” foram um sucesso, embora habitantes da cidade reclamem das arruaças provocadas por beberrões.

Ao contrário de Berlusconi, Veltroni não busca vitória por meio de sua personalidade, mas do programa de seu partido. Ex-comunista, soube, como, aliás, o próprio PCI, mudar com os tempos. Em outubro passado, tornou-se líder do PD. Ele propõe impostos mais baixos e reformas para dar maior flexibilidade ao mercado.

Veltroni é, contudo, a prova de que ainda se pode distinguir a esquerda da direita. A primeira reforma de seu programa é ajudar os menos favorecidos, reforçando o Estado de Bem-Estar Social. Em vez de lutar contra a imigração, coloca ênfase na integração dos imigrantes, embora sustente ser preciso distinguir aqueles que buscam um novo país para trabalhar dos criminosos.
Por fim, Veltroni recusou aliar seu PD a outros partidos no pleito, visto que a coalizão do ex-premier Prodi, de 11 legendas, provou ser tão frágil quanto as anteriores. E, assim, foi o primeiro político a romper com o sistema eleitoral (com votos diretos e de representação proporcional; e reintroduzido, em 2005, por Berlusconi para dividir as esquerdas) e a flertar com o bipartidarismo. Veltroni fez mais: se mostrou pronto a formar uma aliança até com o PDL, única maneira de tentar resolver os sérios problemas estruturais do país.

Berlusconi formou uma aliança com os velhos aliados e rejeitou qualquer aliança com o PD. A Itália parece prestes a votar no continuísmo.