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Lições das multidões árabes

por Emiliano José — publicado 10/03/2011 16h39, última modificação 10/03/2011 17h18
As insurreições dos países árabes revelam não apenas o admirável mundo novo das novas tecnologias, mas a vontade política das multidões a sacudir as nações, subverter ordens
Lições das multidões árabes

As insurreições dos países árabes revelam não apenas o admirável mundo novo das novas tecnologias, mas a vontade política das multidões a sacudir as nações, subverter ordens. Por Emiliano José. Foto: Gianluigi Guercia/ AFP

Quando tínhamos todas as respostas, mudaram as perguntas. A frase foi recolhida de um muro de Quito por Eduardo Galeano, e está em seu saboroso Palavras Andantes, e tem o condão de nos colocar diante do mundo de hoje, do atual mundo, atualíssimo mundo, e suas revoluções. Tínhamos, queríamos ter, todas as respostas, especialmente nós, de esquerda, acostumados a alguma regras que os manuais nos ensinavam, e que agora vão sendo subvertidas pela realidade, dura e maravilhosa realidade dos povos em luta. As multidões não leram os nossos manuais. E as nossas regras, coitadas, tão perfeitas, perderam atualidade. Ou não? Quem sabe...

A direita, também, e mais do que nós da esquerda, anda tonta. Desde que Fukuyama andou falando besteiras em tempo de sucesso do neoliberalismo. Se é verdade que a história não caminha para nenhum fim predeterminado e glorioso, como imaginávamos nós em tempos não tão remotos, também é absolutamente verdadeiro que a história não terminou, como imaginou Fukuyama no seu delírio e prostração diante do deus mercado.

As insurreições dos países árabes revelam não apenas o admirável mundo novo das novas tecnologias, mas a vontade política das multidões a sacudir as nações, subverter ordens, suscitar novas perguntas, desafiar o pensamento revolucionário e democrático da humanidade.

No pensamento ocidental, havia quase que uma sacralização da ordem árabe, de suas estruturas autoritárias, como se nada pudesse perturbá-la ou como se uma eventual perturbação político-social nunca pudesse ultrapassar a lógica interna de suas culturas, como se a democracia não pudesse contaminar aquele mundo. Entre nós havia até uma aceitação quase passiva de práticas profundamente desumanas e contrárias aos direitos humanos mais elementares, e cito o tratamento dado às mulheres. Não tenho ilusões sobre mudanças súbitas na concepção de vida árabe, porque as coisas nunca se dão assim. A cultura é bela e é resistente. Mas, as revoluções árabes nos permitem dizer com tranqüilidade que nada será como antes. No mundo árabe e no restante do mundo.

É provável que alguns dos nossos à esquerda queiram refletir sobre a espontaneidade dos movimentos árabes e sobre as dúvidas que cercam o futuro. Já houve quem o fizesse. O essencial, no entanto, é que tais movimentos, e salve, salve a espontaneidade das multidões, revelam a sede profunda de democracia e de liberdade que se espraia pelo mundo. E essa sede é derivada não de uma conspiração proveniente dos centros hegemônicos do mundo, menos ainda dos EUA, que estavam afinados com muitos dos regimes árabes que caíram ou que estão claudicando neste momento.

Não se trata apenas de reivindicações em torno de uma democracia formal. Não se trata apenas de eleições livres, embora elas sejam fundamentais. O que está em jogo nessa movimentação, que não é apenas árabe, é um desejo muito mais profundo de participação dos povos no destino de suas nações e no destino do mundo. De um jeito ou de outro, os rios correm para o mar.

De um jeito ou de outro, os povos do mundo, de modo particular os pobres do mundo, estão percebendo que o mundo só tem salvação por eles mesmos. Um olhar profundo e generoso sobre a humanidade só pode vir deles. É este o significado que deve ser acolhido não apenas pelos árabes, mas por todos os que imaginem uma Terra mais justa, mais acolhedora, mais respeitadora dos direitos humanos. Mais globalizada para todos.

Não se queira tolher participações populares. É inútil. Há uma torrente globalizada, de uma sociedade em rede, de pobres que se articulam, de multidões que não se conformam mais em ficar à margem do destino do território onde vivem, em ficar à margem da história. Não se trata de uma profecia. Nem deve assustar ninguém.

Trata-se de saudar esse novo momento na história, recolher os ares e lições desse novo admirável mundo novo, e compreender que a democracia não pode ser apenas a democracia de eleições. Tem que ser muito mais. Tem que admitir a participação direta dos povos. E com urgência. As labaredas árabes estão a nos ensinar. Ninguém pode dizer que não foi avisado.

No caso brasileiro, é verdade aquilo que o professor do Departamento de Ciência Política da Universidade Federal de Minas Gerais, Leonardo Avritzer, disse à CartaCapital de 2/3/2011, sobre o fato de a sociedade civil não ser nem tão apática quanto se supõe, nem tão alijada como se imagina. Sem dúvida alguma, como ele diz, tem aumentado a influência da sociedade civil na elaboração das políticas públicas. Cresceu a participação dos conselhos.  Não há uma sociedade amorfa, como querem alguns desesperançados na política.

E a participação da sociedade civil tende a crescer, o protagonismo do povo tende a se acentuar. As multidões se movimentam. No mundo e no Brasil. As lições do Oriente estão quentes. Os que governam, os que estão no Legislativo, no Executivo, no Judiciário não devem perder isso de vista. Não podem se isolar em seus gabinetes. Têm de escutar o clamor das multidões, mesmo quando o barulho não seja tão grande. Escutar a voz das ruas é um conselho sábio, e que vem de tempos imemoriais.  Ainda para recorrer à entrevista do professor Avritzer, não custaria, por exemplo, ao Judiciário permitir a participação da sociedade civil na sabatina dos juízes indicados ao Supremo e até outros mecanismos que garantissem uma participação mais decisiva do povo na organização do poder judiciário.

A reforma política, ora em andamento no Congresso Nacional, deveria levar em conta com muito carinho a questão da participação popular, quem sabe aperfeiçoando e radicalizando aspectos da participação direta da população. Cada vez mais, é necessário encarar essa participação como um aspecto essencial da democracia contemporânea. Ela pode oxigenar a vida democrática, torná-la mais de acordo com os tempos que vivemos, nos quais o protagonismo do povo cresce, o papel das multidões torna-se cada vez mais decisivo. Ignorar isso é pecado mortal. É trabalhar contra a democracia, que não pode ser mais apenas e tão somente o regime de eleições formais, tal e qual nos acostumamos. É preciso dar outros passos. Para assegurar, usemos uma palavra da moda, a sustentabilidade democrática.

*jornalista, escritor, deputado federal.

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