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Conflito

Levante no Equador

por Antonio Luiz M. C. Costa publicado 30/09/2010 19h24, última modificação 06/06/2015 18h17
O comandante das Forças armadas, Ernesto González, assegurou que acata a autoridade do presidente Rafael Correa e pediu aos policiais para desistirem
Levante no Equador

O comandante das Forças armadas, Ernesto González, assegurou que acata a autoridade do presidente Rafael Correa e pediu aos policiais para desistirem. Por Antonio Luiz M. C. Costa

Na manhã de 30 de setembro, a polícia e parte das forças armadas se levantaram contra o governo de Rafael Correa no Equador, tendo como pretexto o protesto contra a aprovação de uma lei que suprime certos bônus e reajustes automáticos por tempo de serviço dessas corporações, como medida de corte de gastos públicos.

Nos dias anteriores, o presidente cogitava usar recurso previsto na Constituição que lhe faculta dissolver o Congresso e convocar eleições antecipadas para o Executivo e Legislativo – governando por decreto até que estas se realizem – devido à recusa de parte de seus partidários de apoiar projetos de cortes de gastos com funcionalismo.

Cerca de 800 policiais (há 41 mil no país) tomaram quartéis e delegacias de Quito e bloquearam o acesso à cidade, 150 aviadores fecharam o aeroporto e a base aérea. O presidente foi ao Regimento Quito, o maior destacamento policial da cidade, tentar dialogar. Disse aos rebelados que foi quem mais fez por seus soldos e lembrou-os quanto ganhavam antes de seu governo, mas os policiais o chamaram de “mentiroso” e o agrediram com coquetéis molotov e uma bomba de gás lacrimogêneo, que explodiu perto de seu rosto.

“Senhores, se querem matar o presidente, aqui está. Matem-me se tem vontade, matem-me se têm valor, em vez de estar na multidão, covardemente escondidos”, disse Correa, exaltado e ferido no rosto e numa perna.

O presidente deixou o quartel em meio a uma nuvem de gás e foi levado ao hospital da Polícia Nacional, que foi cercado pelos rebelados. Recebendo soro para tratamento da asfixia, falou por telefone a Hugo Chávez, tratar-se de tentativa de golpe. Em entrevista à Rádio Pública, do Equador, disse que o movimento era inspirado por grupos de militares e policiais ligados ao partido Sociedade Patriótica (do ex-presidente Lúcio Gutiérrez, deposto em 2005) e fez uma quase despedida: “os policiais estão tentando entrar no meu quarto pelos telhados, se algo me acontecer, um abraço infinito à Pátria e à minha família, sempre os amarei”. Ao mesmo tempo, os policiais ocuparam a Assembleia Nacional e aprisionaram vinte deputados governistas. Duas deputadas, Marisol Peñafiel e Linda Machuca, foram agredidas.

Em Cuenca, terceira cidade do país, as estradas e aeroporto também foram fechados por policiais e força aérea. Em Guayaquil, a maior cidade do país e também o maior reduto da oposição, houve, além disso, saques de bancos e comércios, aproveitando a greve policial. Na província Cotopaxi, ao norte de Quito, os escritórios do governo local foram invadidos por uma autoproclamada “administração popular”, que pediu a dissolução do governo e da Assembleia e a abolição das leis de Correa, mobilizada pelo MPD, movimento liderado pelo Partido Comunista Marxista-Leninista, de linha albanesa que aparentemente tenta aproveitar a confusão para ganhar prestígio entre indígenas e funcionários públicos. O governo local e seus simpatizantes refugiaram-se na sede da Aliança Nacional, o partido governista.

O governo decretou estado de exceção – provavelmente foi a primeira vez que uma medida dessa importância foi anunciada em primeira mão pelo Twitter – por cinco dias, sem toque de recolher. As Forças Armadas foram encarregadas de restaurar a ordem e todos os canais de televisão entraram em cadeia nacional ininterrupta, por tempo indefinido, com a TV estatal, que passou a transmitir os pronunciamentos oficiais, embora policiais tentassem cortar a transmissão.

Declarações de apoio internacional a Rafael Correa vieram de praticamente todos os países latino-americanos – inclusive os alinhados aos EUA, como Peru, Colômbia e até Honduras – e também da Espanha e França e do secretário-geral da OEA, José Miguel Insulza. O Departamento de Estado dos EUA, no primeiro momento, limitou-se a dizer que “observava atentamente” a situação, mas votou junto com os demais países das Américas na resolução unânime da OEA de respaldo ao governo legítimo. Uma reunião de emergência da Unasul foi convocada para a noite, em Buenos Aires. Peru e Colômbia fecharam suas fronteiras com o país.

O comandante das Forças armadas, Ernesto González, assegurou que acata a autoridade do presidente Rafael Correa e pediu aos policiais para desistirem do levante. Também deram apoio ao governo vice-presidente Lenin Moreno, o presidente da Assembleia, Fernando Cordero, e o prefeito de Guayaquil, Jaime Nebot, que se disse “oposicionista, mas não golpista”.

O chanceler Ricardo Patiño, discursou em frente ao palácio de governo pedindo a população que resgatasse o presidente acossado. Uma marcha popular dirigiu-se ao hospital e foi enfrentada pelos rebeldes a gás lacrimogêneo e balas de borracha. Informou-se que uma comissão de policiais negociava com Correa, mas a ministra da Coordenação Política, Dóris Soliz, disse que não se tomaria nenhuma resolução a esse respeito enquanto o presidente não estivesse de volta ao Palácio do Governo.

Depois de três horas de tensão, durante a qual se escutava do hospital a polícia pedir reforços, acirrou-se o conflito entre os rebelados e os populares, acompanhados pelo chanceler Patiño, que cantavam um refrão bolivariano: “Alerta que camina / La espada de Bolívar / por América Latina". Alguns dos populares romperam o cordão de isolamento policial e chegaram ao hospital, perseguidos pelos policiais. O exército não interferiu, embora um helicóptero militar sobrevoasse o confronto. Estranhamente, o general Freddy Martínez, comandante da polícia que se declarou leal ao governo, afirmou que os policiais que enfrentam a multidão convocada pelo governo não estão sequestrando o presidente, mas apenas lhe dão “proteção”.