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Ler para crer

por Gianni Carta publicado 26/02/2010 11h15, última modificação 25/10/2011 13h38
E-books não substituem o prazer de ter um livro entre as mãos, virar as páginas, apalpá-las, cheirá-las

E-books não substituem o prazer de ter um livro entre as mãos, virar as páginas, apalpá-las e cheirá-las

Sorvia um chope no mítico Café de Flore, outrora ponto de encontro dos existencialistas no bairro de Saint-Germain-des-Près, em Paris, e as pessoas me observavam como se eu fosse um extraterrestre. Algumas lançavam olhares de reprovação, outras pareciam intrigadas. O motivo: enquanto eu bebia calmamente meu chope, devorava um excelente novo livro de Natalie Fenton, New Media, Old News (Londres: Sage, 210 págs., 26,30 euros). Ou melhor, eu o lia em meu e-reader, o aparelho no qual você baixa e-books da internet.

Sim, confesso. Até pouco tempo atrás eu também era cético em relação a e-books. Foi o que senti quando flagrei um homem com um aparelho desses no trem Eurostar, de Paris a Londres. O que aquele senhor de uns 60 anos, cabelos compridos e jeans, estaria lendo? Certamente, não o último livro de George Soros. A julgar por sua aparência, teria de ser algo mais de vanguarda para hippie da geração baby boom. Poderia ser Trainspotting, de Irvine Welsh? Mas e se estivesse diante de uma publicação de autoajuda com o título Como Ser um Pai Melhor? Eis outro caso no qual o e-book é vantajoso.

Não, claro, e-books não substituem o prazer de ter um livro entre as mãos, virar as páginas, apalpá-las, cheirá-las. O mesmo se aplica a jornais como The New York Times, os quais também podem ser baixados em e-books. Claro, para o NYT e outros veículos internacionais em crise, o e-book poderia constituir um novo modelo – e, por tabela, a salvação da imprensa escrita na era digital. Mas onde ficaria o prazer de ir a uma banca, ou livraria, para tatear as novidades, ver capas e, por fim, ler a nova aquisição repleta de estímulos intelectuais?

No último Natal, me presentearam com um e-reader, um Sony PRS-600. Em escassos dias, minha percepção do aparelho mudou radicalmente. Mais leve que um livro de bolso, ele tem um belo design, é cinza-metálico, com uma capa de couro preta. Graças a uma nova tecnologia, a E-Ink (e-tinta), a leitura se torna agradável, quase como aquela de um livro. Você vira páginas ao toque de um botão e tem a possibilidade de usar uma caneta stylus (prateada e incorporada na parte superior do aparelho) para anotar diretamente no texto.

O usuário pode, dependendo da memória do e-reader, selecionar entre até 1,3 mil livros. Ou seja, ele tem à disposição uma biblioteca ambulante. E esta é uma vantagem insuperável para muitos adeptos. Lembro-me de viagens de avião em que minha mala de livros comprados excedia o peso máximo permitido. Agora adquiro uns três, quatro livros, e os outros posso baixar de uma livraria virtual de qualquer lugar do mundo e armazená-los no e-reader. Mais. Carrego a bateria e o e-reader funciona por duas semanas. 

Claro, e-books não são um mar de rosas. Se um celular tem vida útil de 18 meses, é certo que, ao sabor de avanços tecnológicos, meu e-book será o equivalente a um trator velho em um piscar de olhos. Isto não ocorre com livros, que têm longa durabilidade e jamais serão obsoletos.

Há outro problema. Um livro comprado de uma livraria virtual pode desaparecer do seu aparelho, caso a livraria não tenha realmente o copyright da obra. Foi o que aconteceu em uma disputa entre a Macmillan e a Amazon. Recentemente, 1984, de George Orwell, sumiu dos e-readers Kindle da Amazon. E, como acontece no caso da música baixada em diversos aparelhos, piratas da internet encontram meios de armazenar livros não gratuitos.

Contudo, apesar dos obstáculos, o e-book chegou para ficar. E não sejamos nostálgicos. Lembro-me quando tomei um trem Eurostar em 2000 e inseri um DVD no meu laptop. Munido de fones de ouvido, assisti ao filme durante o trajeto. As pessoas me lançavam olhares, alguns como aqueles do Café de Flore, de absoluta perplexidade. Outras pessoas pareciam intrigadas.

O e-book não substituirá o livro porque as experiências de leitura são diferentes. Assim como assistir a um DVD na televisão ou no laptop pode ser útil em certos contextos, ir ao cinema sempre representará um prazer para muita gente. Aliás,- a Paris que abriga o Café de Flore é provavelmente a cidade mais bem munida de cinemas, cinéfilos e revistas especializadas do mundo. E em termos digitais, pode-se dizer o mesmo. A Biblioteca Nacional funciona por meio de um sistema de reservas de livros e mesas de leitura via internet. Vários de seus volumes foram digitalizados e podem ser baixados.

Terminado meu chope no Café de Flore, fechei meu e-book. Em seguida, fui à L’Écume des Pages, a tradicional livraria ao lado, para ver o que havia de novo.