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Nepotismo

Lances de uma république bananière

por Gianni Carta publicado 16/10/2009 16h03, última modificação 25/10/2011 13h39
Um ministro que nega na tevê ter pago por relações sexuais com menores na Tailândia e o cachorro de um ex-presidente à base de antidepressivos

Um ministro que nega na tevê ter pago por relações sexuais com menores na Tailândia e o cachorro de um ex-presidente à base de antidepressivos
Histórias de nepotismo nas altas esferas políticas, um ministro que nega na tevê ter pago por relações sexuais com menores na Tailândia e o cachorro de um ex-presidente à base de antidepressivos. Para contrastar com os supostos hábitos dessa “classe superior”, da qual faz parte um cão, jovens da periferia miserável vão aos centros das grandes cidades agredir integrantes dessa mesma elite e também da classe média. O leitor poderia pensar que este é o enredo de um livro de ficção cujo cenário é um país do Terceiro Mundo. Mas não, os fatos acima são reais. E vieram à tona neste mês de outubro, aqui na França. 

Trata-se de uma fábula digna de uma “república bananeira”, concluiu um editorialista ao comentar o último escândalo, o do nepotismo do presidente Nicolas Sarkozy. L’affaire Sarkozy Junior, cujo protagonista é também conhecido como príncipe Jean, seria o ponto de partida para o enredo. Jean, filho de Sarko, tem 23 anos. Reprovado no primeiro e segundo ano da faculdade de Direito da Sorbonne, Sarko filho tem três anos acadêmicos pela frente. Isso no caso de se tornar um aluno aplicado. 

Mas o jovem tem, dizem em coro os asseclas de Sarko pai, um talento inato para a política. Por esse motivo teria sido nomeado para assumir, em dezembro, a presidência do Epad, a agência pública de desenvolvimento que administra La Défense, o mais opulento distrito parisiense. Com 160 hectares, La Défense é permeado por um mar de arranha-céus modernos, vários deles bancos. O Epad controla um orçamento anual de mais de 1 bilhão de euros.

A experiência do jovem é limitada. Ele é, desde as eleições cantonais de 2008, conselheiro-geral de Neuilly-sur-Seine-Sud, no Hauts-de-Seine, um dos cem departamentos administrativos da França. É líder, na mesma região, do UMP, o partido conservador que catapultou o pai à Presidência da República. Se Sarko filho foi eleito conselheiro-geral, a nomeação para a direção do Epad é obra de Sarko pai. 

É muito cedo para julgarmos o jovem. Mas vejamos. Em 2007, Jean fez a sua primeira grande aparição na mídia, quando lhe roubaram a scooter. Sarko pai, então ministro do Interior, usou até testes de DNA para achar os ladrões. No ano anterior, Sarko filho havia sido acusado de fugir com a mesma scooter após um acidente. O rapaz foi solto “sob aplausos”, escreveu o lendário caricaturista Siné, do jornal satírico Charlie Hebdo. Siné opinou que o motorista se saiu mal porque é árabe. E acrescentou que, mesmo antes de Sarko filho se casar, o que ocorreu no ano passado, com Jessica Sebaoun, herdeira do poderoso Grupo Darty, ele queria se converter à religião da mulher, o judaísmo. “Ele vai longe, esse pequeno!”, concluiu Siné. A demissão do caricaturista por antissemitismo criou enorme polêmica. 

Como se dá desta feita. A blogosfera é divertida. No site jeansarkozypartout.com sugerem Jean Sarko como modelo para o busto de Marianne, símbolo da França. Uma petição on-line contra a nomeação do jovem para o Epad foi assinada por mais de 50 mil pessoas.

De sua parte, Sarko pai por vezes carece de habilidade. Há poucos dias, ele fez um discurso dissonante com a realidade. Declarou que, para se dar bem, os jovens não precisam mais nascer em berço de ouro. Agora, “chega lá” quem estuda e “mostra o seu valor”. Palavras pronunciadas em um liceu, sistema estabelecido por Napoleão em 1802, para acabar com os privilégios dos rebentos das elites. 

Por ora, l’affaire Sarko Junior ofusca outro escândalo: o de Frédéric Mitterrand, ministro da Cultura. Ao criticar a prisão do cineasta Roman Polanski na Suíça, o sobrinho do ex-presidente teve de lidar com um contra-ataque feroz. Os inimigos desse escritor e ativista gay basearam a ofensiva no seu livro La Mauvaise Vie, publicado quatro anos atrás. 

No best seller, Mitterrand confessa ter praticado turismo sexual na Tailândia. Mas o ministro disse ao vivo que, quando usou a expressão garçon (menino) em suas memórias, ele se referia à gente de sua idade, não a adolescentes. E que seus detratores confundiriam homossexualismo com pedofilia. De fato, garçon, em francês, também é usado para designar homens do porte do ator Sylvester Stallone. O que é estranho.
Mas ocorre que a França é o berço do Surrealismo. Veja o caso de Jacques Chirac e Sumo, o seu pequeno cão maltês. Quando deixou o Élysée, em 2007, Sumo (Chirac adora o esporte) caiu numa depressão. Mesmo sob antidepressivos, o cachorro come-çou a atacar o ex-presidente. Complexo de lutador de sumô? A última mordida provocou intenso sangramento no estômago de Chirac. Sumo foi internado numa clínica. Chirac passa bem.