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"Kremlin tem responsabilidade na morte de Nemtsov"

por Deutsche Welle publicado 03/03/2015 04h04, última modificação 03/03/2015 09h43
Advogado Sergey Lagodinsky diz que líder oposicionista assassinado era apresentado não apenas como um adversário do regime, mas como inimigo do país
Sergei Gapron / AFP
Boris Nemtsov

Em manifestação realizada no domingo 1º, em Moscou, opositores de Putin exibem retratos de Boris Nemtsov

A morte do líder opositor Boris Nemtsov, assassinado a tiros na sexta-feira 27, ainda não foi esclarecida. Mas para o advogado e jornalista russo Sergey Lagodinsky, o Kremlin tem responsabilidade política pelo ocorrido. "O governo reprime as forças da oposição e lançou uma campanha séria contra seus oponentes. Nemtsov era apresentado não apenas como um inimigo do regime, mas também como um inimigo do país e do povo", afirma, em entrevista à DW.

Deutsche Welle: Após o assassinato do oposicionista russo Boris Nemtsov, houve vários comentários afirmando que Putin deve ter contribuído, pelo menos indiretamente, ao criar um clima político que tornasse possível esse tipo de ataque. Como você vê essa acusação?
Sergey Lagodinsky: Isso é verdade. O governo reprime as forças da oposição e lançou uma campanha séria contra seus oponentes. A campanha foi alimentada massivamente, com a ajuda dos meios de comunicação, antes da crise da Ucrânia – e até ad hominem, ou seja, incluindo ataques pessoais contra adversários isolados. Assim, o Kremlin tem, de qualquer forma, uma grande responsabilidade política pelo crime. Nemtsov e muitos outros políticos da oposição foram sistematicamente caluniados e descredibilizados. Por causa de sua crítica à política russa em relação à Ucrânia, ele era apresentado não apenas como um inimigo do regime, mas também como um inimigo do país e do povo. Críticos como ele são chamados de "quinta-coluna" [grupos subversivos clandestinos que procuram derrubar o governo], sendo, assim, indiretamente, considerados marginais.

DW: Como você explica esse clima político duro? O que Putin quer alcançar?
SL: Putin já sofria pressão antes da crise da Ucrânia, devido à situação econômica do país. O país obtém seus rendimentos principalmente do petróleo e de outros recursos naturais. No entanto, não investe na indústria nem em novas tecnologias. Em tal situação, em algum momento Putin já não conseguiria comprar o apoio da população. Além disso, houve grandes manifestações entre 2011 e 2013. Elas deixaram claro para o governo que ele teria dificuldade para se manter diante de uma sociedade civil em formação, de um lado, e de um enfraquecimento da economia, do outro, sem que certos parafusos fossem apertados.

E isso realmente ocorreu: todos os que tomaram parte em manifestações foram reprimidos ilegalmente. Oposicionistas como Alexei Navalny e outros sofreram perseguições por motivos políticos. Somado a isso, está o temor do governo de algo como a Maidan, ou seja, a Revolução Laranja ocorrida na Ucrânia.

DW: Quanto a isso, qual o papel da crise da Ucrânia?
SL: Um grande papel. Quando a Ucrânia se atreveu a pensar em se desgarrar, as preocupações do Kremlin chegaram ao ponto alto. E ele optou por uma ação militar, que também serviu para mobilizar apoio interno. Na verdade, o acionamento da mídia juntamente como o aparelho repressivo funcionou perfeitamente. Essa é a base para que o apoio a Putin entre a população chegue a 80%. Isso só é possível se houver uma atenção não apenas externa, mas também interna, quando se procura também inimigos domésticos.

Pessoas como Nemtsov são candidatos perfeitos para este papel. Ao criticá-lo, é possível se criticar indiretamente a liberalização fracassada da década de 1990 – apesar do fato de Putin também ter tido uma participação nela. Nemtsov tem um posicionamento claramente pró-ocidental. Assim, você pode se posicionar contra o Ocidente ao criticá-lo. E é possível também se demonizar um suposto liberalismo de mercado – apesar do fato de o próprio Putin ser a favor do livre-mercado. Ele mesmo pode se apresentar, por outro lado, como alguém do "bem", que garante a estabilidade à população.

DW: O que o assassinato de Nemtsov significa para a oposição?
SL: Tentaram intimidar a oposição. Está claro agora que seus representantes são considerados marginais, sem direito a proteção. O sistema pode fazer tudo com eles, incluindo a aniquilação física. Até agora, não era o caso. É claro que houve terríveis assassinatos de jornalistas. O que é novo é que agora um político da oposição foi assassinado. Até agora, eles vinham sendo presos, mas não assassinados. Portanto, isto significa um recrudescimento da situação.

No entanto, acredito que o assassinato oferece uma chance para a oposição – no sentido de que, pelo menos, faz despertar a parte informada da população, ou seja, aqueles que se informam por outros meios que a televisão russa. Estes cidadãos podem compreender que agora nada é mais necessário do que se fazer uma pausa para se parar essa escalada.

DW: E para o governo? Qual é o impacto do atentado?
SL: O assassinato poderia dar a Putin uma oportunidade de não mais agir contra a oposição, mas contra os militantes nacionalistas e as forças anti-Maidan que atuam na Rússia. Pois elas o pressionam. Nas manifestações anti-Maidan, há poucos dias, foram ouvidos slogans nacionalistas. Por ocasião desse evento trágico, o governo poderia reconsiderar sua política e se empenhar por um curso interno apaziguador.

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