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Kofi Annan deixa posto de enviado especial para a Síria

por José Antonio Lima publicado 02/08/2012 13h14, última modificação 06/06/2015 18h19
Saída é mais um duro golpe para o processo político na Síria, em meio a temores de violência crescente dos dois lados
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Annan no último dia 28 de julho, nas arquibancadas da competições de natação dos Jogos Olímpicos de Londres. Foto: Martin Bureau / AFP

As chances de que a crise na Síria seja resolvida por meios pacíficos ficaram ainda mais reduzidas nesta quinta-feira 2. O ex-secretário-geral das Nações Unidas, Kofi Annan, que servia como enviado especial da ONU e da Liga Árabe para a Síria, vai abandonar o posto em 31 de agosto, quando se encerra seu mandato. O anúncio foi confirmado pelo atual secretário-geral da ONU, Ban Ki-moon, segundo quem consultas com a Liga Árabe já estão em curso para escolher um novo mediador para a paz.

No fim de agosto, Annan completará seis meses na função. Foi um período no qual ele apresentou diversas iniciativas, mas não teve sucesso algum. O conflito entre a dividida oposição que tenta destituir o ditador Bashar al-Assad e o regime, que tenta se manter no poder a todo custo, apenas piorou, se tornando uma guerra civil. Foi também durante o período em que Annan coordenava os esforços por uma solução política que potências ocidentais e regionais dinamitaram seu trabalho ao interferir de maneira intensa na Síria.

O Irã e, em menor medida, a Rússia, ajudaram a armar as forças leais a Assad. Ao mesmo tempo, Arábia Saudita, Catar, Turquia e Estados Unidos têm prestado todo o tipo de auxílio aos rebeldes, fornecendo armas, equipamentos de comunicação, medicamentos, ajuda logística e informações a alguns dos diversos grupos que tentam derrubar o ditador há 17 meses. Na quarta-feira 1º, a imprensa dos Estados Unidos revelou, inclusive, que o presidente Barack Obama autorizou .

A escolha de um novo enviado especial não será simples. Precisará ser uma pessoa de confiança das grandes potências ocidentais, da Liga Árabe, hoje muito influenciada pelo Catar, rival de Assad, e também do próprio ditador sírio. Mais do que isso, será preciso encontrar uma figura que aceite comandar uma iniciativa que, na realidade, é natimorta.

O atentado de 18 de julho, em que morreram quatro generais do círculo íntimo de Assad, incluindo seu cunhado, encorajou os opositores. Os rebeldes tentam realizar uma grande ofensiva contra as forças leais ao ditador e, atualmente, o confronto chegou a um impasse em Alepo, centro comercial e maior cidade da Síria. Assad resiste, mas com o apoio que seus opositores recebem de países ricos e poderosos, cresce a possibilidade de ele ser derrubado, ainda que a longo prazo. À medida que este desfecho fica claro, crescem os temores sobre o que é a oposição da Síria e quais são seus objetivos.

Nesta semana, um vídeo divulgado no Youtube chocou. Nas cenas de violência escancaradas, quatro soldados são executados de forma sumária e é possível ver uma pilha de corpos. Os autores do massacre seriam rebeldes, que estariam usando as mesmas táticas de violência extrema empregadas pelas forças leais a Assad. Diante do clamor gerado principalmente no Ocidente, dirigentes do Exército Livre da Síria prometeram investigar o caso e punir os culpados. Também causa preocupação a quantidade de grupos diferentes combatendo as forças de Assad. Lutam contra o regime civis, muitos militares desertores, organizados no Exército Livre da Síria, mas também jihadistas sírios e estrangeiros, alguns alinhados à ideologia da rede terrorista Al-Qaeda.

A manutenção da posição de enviado especial para a Síria por parte da comunidade internacional é um exemplo de como a hipocrisia é a principal característica da forma como o mundo lida com a situação naquele país. Enquanto mantém apelos por uma negociação, segue interferindo para mudar os rumos do conflito. Um novo nome como enviado especial, caso alguém aceite esta posição, será útil apenas para tentar evitar massacres uma vez que a guerra civil esteja resolvida dentro da Síria.