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Kaddafi reage

por Gianni Carta publicado 14/03/2011 10h30, última modificação 06/06/2015 18h17
O ditador impõe duras derrotas aos rebelados, enquanto o Ocidente assiste perplexo aos conflitos.

O ditador impõe duras derrotas aos rebelados, enquanto o Ocidente assiste perplexo aos conflitos

Há algo de novo na frente da guerra civil na Líbia: após sucessivos avanços, os rebeldes começaram a perder terreno e o ditador Muammar Kaddafi passou a contabilizar vitórias expressivas. Na quinta-feira 10, forças leais ao coronel anunciaram a recuperação do porto petroleiro de Ras Lanouf, cuja conquista foi um dos grandes trunfos da oposição, e diziam controlar a maior parte de Zawiya, a 50 quilômetros da capital, Trípoli. Misratah, outra cidade costeira estratégica, até então reduto rebelde, também parecia ameaçada pelas forças pró-Kad­dafi. Mesmo em Bengazi, segunda maior cidade do país, reinava um clima de caos. E é de lá que o presidente do governo provisório do Conselho Nacional Líbio, Mustafa Abdul Jalil, coordena os rebelados.

Enquanto isso, Kaddafi buscava canais, cada vez mais escassos, de negociação com o Ocidente. Após a França reconhecer o governo rebelde como legítimo, os Estados Unidos, na mesma quinta 10, anunciaram o rompimento diplomático com Trípoli. Esperava-se para a sexta 11 uma decisão da Otan que poderia delimitar uma zona de exclusão aérea (no-fly zone) no céu líbio, o que neutralizaria os ataques dos aviões a serviço do ditador. Também a União Europeia, que havia suspendido os vistos e congelado os bens no exterior da família de Kaddafi e de vários de seus aliados, estudava novas sanções.

A França não considera, porém, a Otan “organização pertinente para uma ação coercitiva”. O governo de Nicolas Sarkozy, em linha com o primeiro-ministro britânico, David Cameron, defende uma coa­lizão de voluntários que intervenha de forma mais direta no conflito. O objetivo seria impor uma no-fly zone com o apoio (secreto) de forças especiais no solo. A operação, que poderia ser colocada em prática no espaço de uma semana, implicaria um risco político pelo fato de poder provocar mortes de civis. Não estava claro se dela participariam os Estados Unidos.
Diplomatas franceses e britânicos já haviam redigido uma resolução para autorizar a criação da zona de exclusão aérea de sorte a impedir a decolagem de aviões e helicópteros de fabricação russa de Kaddafi. Em conversa com Cameron, o presidente dos EUA, Barack Obama, aprovou o projeto franco-britânico. Em questão de horas, a resolução poderia ser colocada em discussão­ pelo Conselho de Segurança da ONU.
Mas obstáculos para impor a no-fly zone não faltam. De saída, a resolução teria de ser apoiada pelos cinco integrantes permanentes do Conselho de Segurança. Pairava no ar a forte possibilidade de a Rússia e a China vetarem a resolução. Os dois países mostram-se hostis ao que consideram uma ingerência nos assuntos internos da Líbia.
Para Hillary Clinton, a secretária de Estado norte-americana, a condição para uma no-fly zone seria sua aprovação pelo Conselho de Segurança. “Achamos ser importante que as Nações Unidas tomem essa decisão, e não os Estados Unidos, e até agora as Nações Unidas não fizeram isso.” Anders Fogh Rasmussen, secretário-geral da Otan, concorda: “A Otan não tem intenção de intervir sem mandato da ONU”. Ademais, vozes na organização alegam que, de acordo com a lei internacional, as barbaridades cometidas por Kaddafi ainda “não são suficientemente atrozes” para justificar uma intervenção estrangeira. Mesmo assim, os espaços marítimos e aéreos da Líbia estão sob vigilância permanente.

A decisão de impor ou não a zona de exclusão aérea também dependeria da aprovação do mundo islâmico, mas esta parece ser fato consumado. Segundo o Le Monde, as lideranças islâmicas apoiam o plano de intervenção internacional. Desde o início da guerra civil, as monarquias do Golfo Pérsico e a Organização de Conferência Islâmica, com 57 países membros, eram favoráveis à zona de exclusão aérea. Única condição: uma resolução do Conselho de Segurança. Por sua vez, a Liga Árabe se reuniria no Cairo no sábado 12 para tomar uma decisão e declarações de seus integrantes apontavam para uma aprovação semelhante.

O apoio do mundo árabe a uma intervenção na Líbia por estrangeiros é explicável pelas vendette e rivalidades privadas de Kaddafi com emires, presidentes e sultões. A animosidade do coronel é particular­mente acirrada contra os monarcas, como o do Marrocos. O líder líbio também acusa o emir e o governo do Kuwait de serem demasiadamente próximos aos EUA.
Alguns observadores duvidam da eficiência da zona de exclusão aérea. Robert Gates, secretário americano da Defesa, argumenta, por exemplo, que implementar uma no-fly zone é algo sempre complexo. Decisão similar foi tomada em outros lugares, na primeira Guerra do Golfo, em 1991, e na Bósnia-Herzegovina, em 1993. Desta feita, implicaria o bombardeio preliminar das forças líbias de defesa. Os arsenais do exército e da aviação não foram, é verdade, modernizados, por causa do embargo da ONU de 1992 a 2004. Mas, embora obsoletos, apresentam perigo, segundo experts.

Ou seja, a no-fly zone seria um eufemismo para uma declaração de guerra contra a Líbia em vez de uma medida destinada apenas a evitar novas mortes. Mais de mil pessoas morreram desde o início das revoltas, três semanas atrás. Segundo estimativas da ONU, 212 mil pessoas fugiram do país. Somente em Lampedusa, pequena ilha de 6 mil habitantes ao sul da Sicília, desembarcaram 6,3 mil migrantes desde o início das revoltas na Tunísia, em janeiro.

A resposta de Kaddafi para o projeto da zona de exclusão aérea parece confirmar a percepção de Gates: haverá retaliação. Em entrevista, na quarta-feira 9, à rede francesa de tevê LCI, ele disse: “É mentira dos países colonizadores como a França, Grã-Bretanha e Estados Unidos de que estou lutando contra meu povo”. Tudo não passaria de um plano “colonialista” para tirá-lo do poder. Para uma rede turca de tevê Kad­dafi afirmou: “Eles querem é nosso petróleo”. E isso, emendou, seria bom porque “o povo líbio enxergaria a verdade”. Segundo François Sargeant, editorialista do diário francês Libération, o “guia supremo” usará qualquer tipo de intervenção, incluindo a imposição de uma no-fly zone, para calibrar seu discurso de “fibra nacionalista”.

Uma intervenção militar com tropas provocaria problemas mais graves ainda. Numerosos observadores ocidentais são contrários. Roger Cohen, do New York Times, elencou vários e bons motivos: “A amarga experiência no Iraque, a importância da autonomia dos movimentos árabes de liberação, a facilidade de entrar e a dificuldade de sair desses países, as acusa­ções contra os países ocidentais de estarem mirando o petróleo e o fato de que duas guerras ocidentais em paí­ses muçulmanos são suficientes”. Cohen acrescenta: “Mas o motivo mais profundo é a bancarrota moral do Ocidente em relação ao mundo árabe. Os árabes não precisam de soldados estadunidenses e europeus para obter a liberdade que os EUA e a UE lhes negaram tranquilamente”.

A Liga Árabe e outros grupos da região também são contrários à presença de tropas estrangeiras na Líbia. Mahmoud Jebril, ministro das Relações Exteriores do governo provisório do CNL, disse para os deputados do Parlamento Europeu em Estrasburgo que o importante seria “conferir maiores poderes para o povo continuar a sua luta armada contra Kaddafi por meios diferentes”. Jebril sugeriu a no-fly zone, ou o fornecimento de armas aos rebeldes, jamais uma intervenção militar. “O povo líbio quer escrever sua própria história”, finalizou, sob aplausos dos parlamentares europeus. Vários congressistas pressionaram Catherine Ashton, a representante da UE para a política exterior, a reconhecer o governo rebelde de Jebril. Ashton respondeu não ter mandado para tanto.

Após quatro décadas de opressão, a oposição na Líbia é fraca, dividida até sobre o tipo de intervenção estrangeira a ser realizada no país. As forças de voluntários rebeldes, comandadas por um punhado de desertores do exército, têm coragem e entusiasmo, mas são inexperientes. Ao que parece, Jalil é presidente provisório por falta de outros líderes com traquejo político. Ex-ministro da Justiça de Kaddafi, o chefe rebelde deu um ultimato de 72 horas para seu ex-patrão deixar o país. Kaddafi deveria proclamar um cessar-fogo imediato e, se assim procedesse, seria isentado de qualquer responsabilidade penal. É forçoso reconhecer que Jalil não perceba a mudança da situação, diante das últimas chegadas da frente. O movimento rebelde perdeu o momento certo, ainda assim Kaddafi enviou o ex-premier Jadallah Azzouz Talhi para negociar com os opositores, e Talhi teria oferecido a divisão da receita do petróleo de forma mais equânime com as cidades a leste de Trípoli. Certo é que Jalil não cedeu. Em represália, Kaddafi ofereceu uma recompensa pela prisão de seu ex-ministro.

Independentemente do futuro de Kaddafi e da Líbia, Jalil parece cada vez mais figura descartável.

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