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Investigação

Justiça do Chile manda exumar corpo do ex-presidente Salvador Allende

por Opera Mundi — publicado 15/04/2011 16h48, última modificação 15/04/2011 17h22
Pedido foi apresentado pela filha do ex-presidente, a senadora e escritora chilena Isabel Allende, e por grupos de familiares de desaparecidos políticos. Por João Paulo Charleaux

Por João Paulo Charleaux*

A Justiça chilena ordenou nesta sexta-feira (15/04) a exumação do corpo do ex-presidente chileno Salvador Allende, morto em 11 de setembro de 1973 com um tiro na cabeça dentro do Palacio de La Moneda, durante o golpe de Estado liderado pelo então general Augusto Pinochet.

O pedido de exumação do corpo foi apresentado pela filha do ex-presidente, a senadora e escritora chilena Isabel Allende, do PS (Partido Socialista), e por vários grupos de familiares de desaparecidos políticos. “É uma busca por justiça. Queremos encontrar os culpados por esse assassinato. Ele não se suicidou, ao contrário do que a história oficial afirma”, disse ao Opera Mundi Alicia Matos, presidente da Afep (Associação de Familiares de Executados Políticos).

A história mais aceita até hoje é a de que Allende se suicidou com um tiro na cabeça. A arma usada teria sido um fuzil dado a ele pelo líder cubano Fidel Castro, mas o documentarista chileno Patricio Guzmán defende a tese de que o líder socialista teria usado uma pistola em vez de um fuzil.

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A tese de suicídio é respaldada pelo médico particular de Allende e vinha sendo aceita por familiares próximos do ex-presidente. Mas Isabel passou a pedir agora uma exumação que possibilite a obtenção de “uma prova mais rigorosa e definitiva, para afastar qualquer dúvida ou especulação” sobre a morte do pai dela. Segundo a senadora, o resultado da nova perícia terá importância “nacional e internacionalmente”.

“O palácio estava sob bombardeio, com muita fumaça, sem luz, com barulho de explosões. Como alguém poderia ter certeza do que passou?”, questiona Alicia, que, na época, era líder sindical do setor têxtil e membro da UP (Unidade Popular), liderada por Allende. Antes de morrer, o então presidente fez dois discursos transmitidos por uma rádio do sul do país. Com uma voz serena, o presidente, mesmo acuado, deixou uma mensagem lúcida sobre o futuro negro que aguardava os chilenos, mas, ao mesmo tempo, lançou esperança para o que viria depois. “O discurso dele é incompatível com a tese de suicídio”, disse Alicia.

A primeira autópsia foi realizada em 1973, antes que seu corpo fosse levados à cidade litorânea de Viña del Mar, a 125 quilômetros de Santiago, e a segunda ocorreu em 1990, após a redemocratização do Chile, quando o corpo foi exumado e levado de volta à capital.

Cercado

Allende morreu cercado pelos golpistas. Caças da Força Aérea do Chile (Fach) bombardearam uma das alas do palácio e atiradores posicionados nos edifícios ministeriais que circundam a praça disparavam contra membros da guarda presidencial. Allende recusou a oferta de deixar o país com um salvo conduto dado por Pinochet e ordenou que todos os seus assessores deixassem o palácio enquanto havia tempo. Muitos de seus colaboradores mais próximos foram executados ao sair do palácio ou logo em seguida, depois de serem transportados em caminhões militares para o Estádio Nacional, onde, primeiro, foram brutalmente torturados.

A porta pela qual o corpo de Allende foi retirado do palácio permaneceu lacrada por décadas, por ordem do governo militar e seu corpo foi inicialmente ocultado num cemitério da cidade de Vaparaiso. Em todo o mundo, Allende é cultuado pela esquerda como um ícone político e cultural, que deu sua vida pela primeira experiência de socialismo democrático existente até então. Para Alicia, a negação do suicídio não obscurece a condição de mártir do ex-presidente, mas “responsabiliza a direita, que hoje governa o Chile, e onde há muitos cúmplices deste crime”.

*Publicado originalmente no Opera Mundi.

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