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Jerusalém dividida?

por Bruno Huberman — publicado 27/04/2011 09h53, última modificação 28/04/2011 10h50
Assentamentos judeus que estão se espalhando pelos bairros árabes do lado leste da cidade sagrada revelam as diferenças de direitos e deveres entre israelenses e palestinos. Por Bruno Huberman
Jerusalém dividida?

Assentamentos judeus que estão se espalhando pelos bairros árabes do lado leste da cidade sagrada revelam as diferenças de direitos e deveres entre israelenses e palestinos. Na imagem, tratores derrubam construção no bairro Sheikh Jarrah. Texto e foto: Bruno Huberman

“Minha mãe plantou essa limoeiro há 50 anos”, aponta Nassar Ghawi enquanto caminhávamos em frente à casa onde costumava morar, em Sheikh Jarrah, bairro árabe de Jerusalém Oriental. Hoje, a casa está decorada com bandeirolas israelenses e uma gigante menorah em seu topo. Famílias judias ocupam os sete cômodos antes habitados pelos Ghawi, muçulmanos. Esse é um dos vários assentamentos judeus que estão se espalhando pelos bairros árabes do lado leste da cidade sagrada, que deveria vir a ser a capital do futuro Estado Palestino. 

Hoje, Nassar sequer tem permissão para ficar em frente ao muro do sobrado que seus país construíram em 1948, após a Guerra de Independência de Israel, quando toda a família Ghawi foi expulsa do vilarejo onde morava, próximo a Tel Aviv. Deslocados, os Ghawi decidiram erguer uma casa provisória no campo de refugiados na parte jordaniana de Jerusalém, a espera de um acordo que lhes garantissem o direito de retorno ao vilarejo de origem, previsto em resolução da ONU. O que era para ser provisório, tornou-se definitivo; e o campo de refugiados virou um bairro: Sheikh Jarrah. 

Em 2009, a Justiça israelense determinou que toda a família de Nassar deveria deixar a casa para dar lugar ao assentamento judeu. Desde 1967, quando Jerusalém Oriental passou ao domínio de Israel após a Guerra dos Seis Dias, o pai de Nassar e depois ele próprio enfrentaram três diferentes litígios jurídicos com associações de assentamentos judias. O derradeiro processo que determinou a expulsão da família de Nassar durou quase dez anos e foi movido pela Nahalat Shimon International, financiada por judeus milionários americanos. 

Nassar chegou a provar, com documentos israelenses, que o terreno era de uma família palestina, enquanto a organização afirmava que pertencia a uma família judia. “Quando apresentei a prova de que tínhamos o direito de continuar em nossa casa, a Corte israelense disse: ‘tarde demais’ e fomos expulsos a força por mais de cem policiais israelenses na semana seguinte.” Nassar, em protesto, montou uma tenda em frente a casa, de onde também acabou expulso, agora pela segurança particular do assentamento. Hoje, ele e sua família vivem ao norte de Jerusalém, próximo a Ramallah. “O governo israelense quer expulsar todos os palestinos de Jerusalém para não ter que dividir a cidade com a Palestina”. Somente entre 2003 e 2009, segundo a ONG israelense B’tselem, oito mil palestinos tiveram o seu direito de residência revogado em Jerusalém Oriental. 

O governo de Israel não esconde de ninguém o seu desejo de “judaizar” Jerusalém com o intuito de não dividi-la com os palestinos. Desde a unificação de cidade em 1967, a prefeitura e o governo fazem ações sistemáticas para sufocar os bairros árabes e converter o maior número de residências. “Essa é uma questão demográfica e não apenas habitacional”, afirma o vereador de Jerusalém Meir Margalit, membro do Meretz, partido de esquerda judeu que defende os direitos dos palestinos na cidade. “Dos 31 representantes no Conselho Municipal, nenhum é árabe, portanto cabe a nós garantir os seus direitos.” Quanto ao “nós”, Margalit refere-se a ele e o outro representante do Meretz, Yosef Alalu, uma vez que o Conselho é dominado por partidos de direita e ortodoxos. 

“Há uma previsão de que dentro de dez anos, os árabes serão maioria em Jerusalém”, diz o vereador. “Por conta disso, Israel está ampliando a pressão em Jerusalém Oriental para tornar a situação insustentável, forçar os palestinos a se mudarem para os bairros mais periféricos e, unilateralmente, ceder esses bairros para a Autoridade Palestina.” Os 250 mil árabes que vivem em Jerusalém não são israelenses plenos, apenas têm a cidadania o direito de viver no município uma vez que nasceram nele. Estes são conhecidos como “arabo-israelenses”, podem votar para o prefeitura de Jerusalém, mas não para o Knesset (parlamento). Estima-se que eles representem 36% da população local e que entre 2015 e 2020 se tornarão maioria. 

“Os palestinos pagam a mesma quantidade de impostos que os judeus pagam, mas recebem apenas 10% dos serviços públicos”, relata Margalit. “Isso está acabando com a educação, a saúde e a segurança em Jerusalém Oriental.” Um relatório do Centro de Pesquisa do Knesset mostra que faltam 1.354 salas de aulas nos bairros árabes. “A justiça chegou a ordenar que a prefeitura fizesse algo a respeito algumas vezes. No entanto, essa história é antiga, nunca acontece nada”, completa o vereador. 

O maior problema enfrentado pelos palestinos em Jerusalém já é histórico. Desde 1967, mais de 24 mil casas foram demolidas na Cisjordânia, em Gaza e em Jerusalém Oriental, estima o Comitê Israelense Contra a Demolição de Casas (ICAHD, no original em inglês). Apenas em Jerusalém Oriental, entre 2004 e 2008, 3.753 lares foram destruídos. “Isso acontece porque o governo não concede aos palestinos o direito de erguerem suas casas, os obrigando a construírem ilegalmente”, afirma a ativista Angela Goldfrey-Goldstein, integrante do Comitê desde a sua criação, em 1997. “A prefeitura de Jerusalém demarcou inúmeras ‘zonas verdes’ nos bairros árabes, o que proíbe os palestinos de construírem novas residências.” 

No domingo 6 de fevereiro, conforme a política local de “judaização” dos bairros árabes, o Comitê Municipal de Planejamento e Construções de Jerusalém aprovou a instalação de dois edifícios, com trezes apartamentos, para residentes judeus em Sheikh Jarrah, em uma área até então considera “verde”, próximo ao assentamento onde antigamente era a casa de Nassar. De acordo com o jornal israelense Haaretz, quem está por trás da aprovação do caso é o americano Chaim Silverstein, uma figura bastante conhecida dos círculos de direita de Jerusalém. As duas organizações de assentamentos responsáveis pelos novos edifícios, a Debril e a Velpin, são estabelecidas nos Estados Unidos e tem Silverstein entre os seus diretores. Estima-se que residam cerca de 200 mil colonos judeus nos bairros de Jerusalém Oriental, segundo o Jerusalem Institute for Israel Studies. 

A resolução do Comitê segue a decisão de 2001 da Suprema Corte israelense que deu permissão aos judeus de requererem propriedades privadas em bairros da parte oriental da cidade. Até mesmo a ONU, na resolução 478 de seu Conselho de Segurança, “proíbe qualquer alteração administrativa ou legislativa por Israel que mude o caráter e o status de Jerusalém.” No entanto, em fevereiro, o presidente americano Barack Obama vetou uma resolução no Conselho de Segurança da entidade que condenava e tornava ilegal os assentamentos israelenses em territórios ocupados. 

A justificativa utilizada para estes novos assentamentos Sheikh Jarrah, como no processo de Nassar, é que em 1948, ou seja, antes da criação de Israel, judeus moravam no bairro. “Quando fui falar com a organização que tomou a minha casa, eles disseram que foi Deus quem mandou”, relata Nassar. “Eu reconheço o direito dos judeus viverem nessa área, pelo que sofreram no Holocausto, mas o que estão fazendo nesse bairro é muito errado.” 

Sheikh Jarrah é um bairro muito bem localizado em Jerusalém. Muitos palestinos de classe média, embaixadas e organizações internacionais, como a ONU e a Cruz Vermelha, o escolheram para estabelecerem-se. Até 1967, lá passava a fronteira entre Israel e Jordânia, a divisa entre o lado oriental e ocidental da cidade. Uma caminhada de dez minutos o separa do portão de Damasco, a principal entrada do bairro muçulmano da Cidade Velha. Em vinte minutos está o Domo da Rocha e a Esplanada das Mesquitas, terceiro local mais sagrado para o Islã, e o Muro das Lamentações, o lugar mais sagrado para os judeus. Desde a unificação inúmeras representações diplomáticas, edifícios governamentais e hotéis foram erguidos nas vizinhanças. E desde 2001 assentamentos judeus, ortodoxos em sua maioria. Justificável, uma vez que a apenas cinco minutos de caminhada, está Mea She’Arim, bairro ortodoxo, onde até mesmo judeus não-religiosos não são bem vindos. 

A convivência entre os colonos judeus e os palestinos, que muitas vezes falam apenas árabe, é amistosa, mas passa longe de ser pacífica e cordial. “Aqui é tranquilo, acontece problemas uma vez por mês em média, mas apenas brigas de vizinhos, nada com caráter religioso”, relata o segurança dos assentamentos Netaniel Swissa, judeu, cuja família veio do Iêmen. “O negócio é que eles não gostam de nós e não nos querem aqui.” Para Mohamad Nabulsi, frentista e cuja família também se estabeleceu no bairro após a Guerra da Independência, não há problemas com os judeus. “As vezes até jogamos bola juntos.” Nenhum colono quis falar com a reportagem. 

A falta de conquistas e o avanço dos assentamentos judeus fizeram com que ativistas organizassem um protesto semanal contra a política estatal em Sheikh Jarrah. Todas as sextas-feiras as duas da tarde, há mais de um ano, o número de manifestantes cresce. Até mesmo o ex-presidente dos EUA, Jimmy Carter, participou do protesto em outubro de 2010. “As expulsões em Sheikh Jarrah são contra o direito internacional”, disse na ocasião. “O único jeito de barrar a construção de novos assentamentos é achar uma brecha jurídica ou por pressão, seja local ou internacional”, afirma o vereador, e também manifestante, Meir Margalit. 

Para Dawood Hamoudeh, pesquisador do The Grassroots Palestinian Anti-Apartheid Wall Campaign, o plano para Jerusalém é maior do que a imposição de assentamentos em bairros árabes. “A cidade chegou a um ponto em que um terço é árabe, portanto inimigo, outro terço é ortodoxo, ou seja, improdutivo e bancado pelo governo. Jerusalém tornou-se uma das cidades mais pobres de Israel e não é atraente para os não-religiosos”, afirma o palestino, residente em Ramallah, na Palestina, contudo nascido em Jerusalém. 

A solução encontrada pelo governo foi ocupar os espaços vazios na porção oriental da cidade com pontos turísticos e comerciais, vide Sheikh Jarrah. “Querem tornar Jerusalém em uma cidade essencialmente turística e que o capital estrangeiro banque essa transformação”. Prova disso é o monotrilho que ligará a parte ocidental da cidade aos primeiros assentamentos judeus na Cisjordânia. A companhia que o construiu e que manterá seu funcionamento é a francesa Veolia. “Fica mais difícil para os palestinos lutarem contra o lobby de corporações internacionais do que contra empresas israelenses”, afirma Hamoudeh. “Os governos estrangeiros ficam com o rabo preso na hora de pressionar Israel uma vez que ali tem grandes empresas do seu país.” 

Um exemplo desse tipo de ação diferenciada está em Silwan, bairro árabe onde moram 50 mil palestinos, localizado ao lado do Portão de Sião, principal entrada para o bairro judeu na Cidade Velha, e a poucos metros do Muro das Lamentações. “As escavações e os passeios turísticos tem irritado mais os cidadãos de Silwan do que os colonos judeus. O governo percebeu que assentamento dá muito trabalho”, analisa o pesquisador palestino. 

A boa localização, as escavações e o grande interesse do capital judeu na área não são por acaso. Em 2005, arqueólogos descobriram que ali era, nos tempos bíblicos, há 3,5 mil anos, a Cidade de David, onde o seu rei construiu o seu castelo. A cidade ficava ao lado do monte Moriah, onde aconteceu o sacrifício de Isaac por Abrão e foi erguido o templo para guardar a Arca da Aliança pelo rei Salomão. “A partir dessa revelação, os assentamentos que eram realizados apenas com a justificativa de que ali antigamente moravam judeus passou a ser feito de forma sistemática nos lugares considerados sagrados por eles”, conta Muna Hasan, integrante do Centro de Informação de Silwan. 

Atualmente são 350 assentamentos judeus em vários cantos do bairro. A partir de 2008 começaram as escavações, embaixo das casas dos palestinos, e a construção de um túnel para ligar os pontos turísticos, ou seja, os assentamentos judeus. A Cidade de David se tornou uma das principais atrações turísticas de Jerusalém ao receber mais de 400 mil visitantes por ano. “As escavações tem um caráter arqueológico para os judeus, mas para nós elas são uma manifestação política. Elas estão provocando o colapso de ruas, que não são reparados pela prefeitura quando acontece na frente de uma casa palestina”, revela. 

Nos últimos anos, o clima esquentou entre os colonos e os palestinos. Um jovem árabe, de 23 anos, morreu em um confronto com os seguranças dos assentamentos em setembro de 2009. O Centro de Informação de Silwan iniciou no mesmo ano um movimento de “contra-informação” e criou um tour alternativo: “a história por trás da atração turística” mostra as dificuldades que os palestinos da área enfrentam. “Os assentamentos estão formando um circulo dentro de Silwan para no futuro, em um eventual tratado de paz, este bairro ficar para os judeus”, conclui Muna. 

As manobras de ocupação de territórios antigamente árabes por meio de assentamentos para a ampliação do território israelense mostraram-se eficazes, como revelaram os denominados “papeis palestinos”, vazados pela rede de televisão do Qatar Al-Jazeera em janeiro deste ano. Alguns documentos mostram o relaxamento da ANP nas tratativas de paz com Israel acerca de algumas áreas de Jerusalém Oriental que já estão sob o domínio judeu. 

Os papeis revelam que em 4 de maio de 2008, o negociador-chefe palestino Saeb Erekat apresentou uma proposta de trocas de terra, na qual os israelenses ficariam com uma parte de seus assentamentos em Jerusalém Oriental. Uma contraproposta israelense aumentava a área de troca em que eles manteriam suas principais colônias em Jerusalém e na Cisjordânia, como Ariel, Kedumim e Ma’ale Adumim, onde moram 413 mil colonos e os palestinos ficariam as áreas ao norte da Cisjordânia e ao leste de Gaza, previstas na proposta original, e mais um pedaço de terra ao sul da Cisjordânia. O acordo ficou conhecido o “mapa de guardanapo”, porque o então primeiro-ministro israelense, Ehud Olmert, não confiou ao presidente palestino Mahmoud Abbas uma cópia do mapa original, o que obrigou Abbas a desenhá-lo em um guardanapo para guardar o que estava sendo proposto. 

A dificuldade e o cansaço das negociações com Israel, principalmente sobre os assentamentos em Jerusalém, ficou latente em outro documento vazado. Em um encontro com um conselheiro do presidente Barack Obama em janeiro de 2010, o negociador-chefe palestino se percebeu em um beco sem saída. “O que está naquele papel garante a eles a maior Jerusalém na história do povo judeu, um retorno simbólico de refugiados, um estado desmilitarizado... o que mais eu posso dar?”, desabafou Erekat, que não agüentou a pressão dos vazamentos e pediu demissão no início de fevereiro. 

“Com os atuais governantes que temos, nunca conseguiremos chegar em uma solução sobre Jerusalém”, avalia o conselheiro municipal Meir Margalit. “Um dia o consenso terá de ser uma divisão funcional da cidade e não física, assim como o previsto por Clinton em Oslo.” A proposta apresentada pelo ex-presidente dos EUA nas negociações de paz de 1993 com o israelense Yitzhak Rabin e o palestino Yasser Arafat previa que os bairros árabes de Jerusalém Oriental ficassem sob o auspício da Palestina, enquanto os bairros judeus sob a tutela israelense. 

“O que os judeus não entendem é que nunca cansaremos de lutar e não abandonaremos Jerusalém. Isso daqui também é nosso”, afirma Nassar ao entrar em seu carro e partir para o norte, rumo a sua nova, e provisória, casa.

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