Você está aqui: Página Inicial / Internacional / Janine, gata selvagem

Internacional

Perfil

Janine, gata selvagem

por Gianni Carta publicado 07/12/2010 16h48, última modificação 25/10/2011 11h53
A repórter de guerra americana Di Giovanni é perfeita representante de uma categoria de jornalistas especiais

A repórter de guerra americana Di Giovanni é perfeita representante de uma categoria de jornalistas especiais

Naquela tarde outonal de 1992, o Exército croata atacou pela primeira vez os muçulmanos em Vitez, na Bósnia. Os bósnio-muçulmanos revidaram disparando mísseis antiaéreos, e a repórter de guerra Janine di Giovanni e sua tradutora buscaram refúgio atrás de uma parede. “Estavamos encurralados”, lembra Ed Vulliamy, correspondente do diário britânico The Guardian e companheiro de esconderijo. “Apresentei-me para aquela moça de desconcertante beleza com sotaque americano.”

Os momentos que se seguiram àquelas circunstâncias caóticas foram surrealistas. Vesna, a tradutora croata de Di Giovanni, fez a seguinte revelação: seus pais não estavam a par de seu trabalho em campos de batalha. Portanto, ela pediu para que ninguém fizesse fotos suas. A intérprete disse, ainda, padecer de hemofilia. Cientes de que qualquer corte poderia ser desastroso para Vesna, os três tentaram se distrair. Di Giovanni contou ter passado parte de sua vida em Boulder, no Colorado (EUA). “Ela foi hippie’’, diz Vulliamy, a denotar um certo apreço por essa fase passada pela amiga.

Di Giovanni, hoje mãe de 48 anos baseada em Paris (Luca tem 6 anos), sorri quando lhe digo como Vulliamy a descreveu naquele primeiro encontro em Vitez. Sentada em um café beirando o Jardim de Luxemburgo, conta: “Eu disse ao Ed para me considerar uma mulher genuinamente livre”. E ela ainda é. Pelo menos continua a seguir sua predileção profissional: a cobertura de guerras.

Neste ano ela esteve em Helmand, no Afeganistão, embedded, ao pé da letra “embutido”, ou seja, disfarçada, no Exército britânico. Correspondente do diário Times de Londres e da revista Vanity Fair, ela está se preparando para ir ao Paquistão. Seu quinto livro, Ghosts by Daylight, será publicado pela Bloomsbury/Knopf em 2011.

A motivação inicial da jovem oriunda de New Jersey para viajar mundo afora e escrever sobre guerras foi o discurso de uma advogada judia de direitos humanos. Di Giovanni, então completando carreira acadêmica, conheceu-a durante a primeira Intifada palestina. Felicia Langer dizia ser necessário dar voz àqueles sem possibilidades de se exprimir.

Desde o fim dos anos 80, Di Giovanni cobriu a maioria das principais guerras. Esteve em países como Somália, Ruanda, Chechênia, Iraque e Afeganistão. Além de escrever livros, ganhou dois prêmios da Anistia Internacional e outro, este britânico, como Correspondente Estrangeiro do Ano. Di Giovanni é protagonista em dois documentários sobre repórteres de guerra. Julia Roberts, com a qual Di Giovanni almoçou recentemente em Nova York, pretende encarnar a repórter ítalo-americana em um filme.

Também intrigante, mas do ponto de vista jornalístico, é como Di Giovanni vê as mudanças de cobertura de guerras nas duas últimas décadas. Dois fatores principais modificaram de forma significativa a reportagem de guerra: a chance de se “embutir” nos exércitos e a adoção por parte de insurgentes do rapto como um método sistemático para adquirir resgate ou para forçar governos a fazer compromissos políticos.

Além de ser correspondente de guerra experiente, Di Giovanni tem outras credenciais para avaliar como a cobertura de guerra mudou. Ela ensina jornalismo global no Institut d’Études Politiques de Paris. Em outubro foi presidente do júri de 17º Prêmio Bayeux-Calvados de correspondentes de guerra.

Como ela se sente ao se “embutir” num exército? “Se você quiser ir a Helmand, este é o único modo de fazê-lo.” Editores aprovam porque não têm nenhuma despesa, e a probabilidade de seus repórteres serem raptados decresce. Facilita para fotógrafos chegar na linha de frente com soldados, mas os perigos enfrentados pelo fato de terem de chegar perto da ação não diminui. O recente caso do fotojornalista sul-africano João Silva, do New York Times, ilustra o problema: ele sofreu graves danos em ambas as pernas ao pisar numa mina no Afeganistão.

Di Giovanni considera-se uma wild cat (gata selvagem) – repórter independente a escolher o tema a cobrir e quem quiser entrevistar. “Quando embutido, você não pode falar com os rebeldes afeganes e iraquianos.” Por vezes, o comandante de unidade pode permitir que o repórter fale com algum rebelde, mas o oficial escolhe a pessoa entrevistada. “É frustrante.”

E há censores. Em janeiro, no Afeganistão, Di Giovanni teve de submeter seus artigos a um censor, um advogado, antes de enviá-los. “Os censores estão preocupados com a segurança.” Ela acrescenta: “Mas tenho bastante experiência de não divulgar o posicionamento de soldados”. No fim das contas, “os repórteres estão sendo míopes ao se embutir nos exércitos porque estão nas mãos do ministério britânico ou americano”.

Foi Donald Rumsfeld, ex-secretário americano da Defesa, quem transformou o modo de cobrir guerras após o 11 de Setembro. Segundo Di Giovanni, repórteres embutiam-se nos exércitos nas guerras da Crimeia e do Vietnã. Mas ela concorda que Rumsfeld deu novo estímulo a esse tipo da cobertura.

Rumsfeld permitiu que centenas de jornalistas cobrissem dessa maneira as guerras do Iraque e Afeganistão. Obviamente, o secretário queria relatórios favoráveis às intervenções do exército americano. Houve quem cumprisse a missão encomendada e a CNN revelou-se pioneira nesse tipo da reportagem parcial.

Felizmente, há algumas mentes críticas entre os jornalistas embutidos No seu recente livro, Embed: With the World’s Armies in Afghanistan (The History Press; 288 pgs; 18,99 libras), Nick Allen é crítico em relação às forças e operações da Otan no Afeganistão.

Ed Vulliamy, 56 anos, diz que “se embutir é um estado mental, e Janine não tem uma personalidade embutida”. Não surpreende o fato de Vulliamy ter preferido trabalhar sem apoio militar no seu novo livro, Amexica, que trata da guerra entre os cartéis de drogas e as autoridades ao longo da região fronteiriça de 2.100 milhas a separar os Estados Unidos do México (quadro).

Em Ghosts, Di Giovanni conta “como se apaixonar no caos”. Sua paixão é o produtor e cameraman francês Bruno Girodon, que conheceu em Sarajevo, em 1993. Depois de uma semana, os dois se separaram. Cinco anos mais tarde encontraram-se na Guerra da Argélia. Em Cabul, Di Giovanni manifestou a Girodon seu desejo de ter uma criança e uma vida estável. Ele não estave pronto.

Enquanto cobria eventos na Somália, o telefone de satélite de Di Giovanni tocou. Era Girodon, do Zimbábue. “Vamos ter um bebê, vamos nos casar.” Em 2002, Janine foi morar com ele em Abidjan. A capital da Costa do Marfim vivia pacificamente há dez anos, o casal ia ter um bebê e se casar. De repente, sozinha em casa certa noite, Di Giovanni ouviu um tiroteio e viu chamas no céu. Dias depois, chegou em casa 15 minutos após o toque de recolher. A paz se fora. O marido aconselhou-a a partir para a Europa. “Para falar a verdade, eu queria ser mãe e parti”, diz Di Giovanni.

O casamento aconteceu um ano depois em Paris, logo ela deu à luz Luca. Em Ghosts, Di Giovanni descreve Girodon nas zonas de guerra como um homem “com um ar maravilhosamente confiante de alguém que passeia na Provence em um dia de verão”. O espírito da guerra não abandonou Girodon. Como inúmeros repórteres de guerra, ele sofre de post traumatic stress disorder. Esses jornalistas bebem, drogam-se, atravessam depressões e divórcios. Tom Carver, que cobriu guerras civis em Angola, Moçambique e Ruanda para a BBC, disse-me durante um almoço em Londres: “Outro dia vi uma menina cruzar a rua e chorei por todas as crianças mortas na África”. Girodon já foi -alcoólatra, mas está sóbrio faz três anos.

“Ele é uma alma atormentada”, avalia Di Giovanni. Eles estão separados, mas ela se indaga se não se trataria de “um parêntese”. Ela sofreu de PTSD? Segundo o psiquiatra canadense Anthony Feinstein, ela não apresenta qualquer sintoma, o que é notável. Ela esteve à beira de perder a vida várias vezes, viu insurgentes, soldados e colegas serem mortos a tiros. Dois amigos próximos suicidaram-se. Antes de se enforcar na Bolívia, um deles confessou: “Vi o bastante”.

Di Giovanni teve baby blues, designação francesa para a depressão pós-parto. Quando Luca chegou, ela estocou em casa comida, água e remédios para durarem um mês. Fez planos de saída de emergência em caso de um ataque terrorista. Girodon repetia: “Mas estamos em Paris, não em Sarajevo”.

Mesmo assim, ainda grávida foi a Gaza. E ao Iraque amamentando Luca. Por que ela continua cobrindo guerras? “Não quero, claro, morrer, mas tomo riscos fazendo algo em que acredito.” Pode soar “arrogante”, mas “sinto-me invencível”. Católica, lembra-se da morte do pai, nascido em Nápoles. Ele lhe disse: “Estou indo para um lugar melhor”.

Di Giovanni quer denunciar injustiças. Sente a necessidade de informar as pessoas sobre, por exemplo, a situação na Somália, num mundo onde interessam mais “celebridades, lipoaspiração e busca da juventude”.

De todo modo, além da compaixão, ou do envolvimento político, há outros fatores que parecem levar jornalistas a cobrir guerras. Di Giovanni confessa sentir uma certa falta de identidade. Ela é uma ítalo-americana, passou a sua vida adulta na Grã-Bretanha e agora também tem passaporte francês. E ela completa: “Contas, pensões, casamento, divórcio, a solidão, dívidas, não podem te atingir em um arbusto ou numa linha de frente”.

“A adrenalina e uma vontade de viver a vida no limite são os principais motivos a levar repórteres a executar esse tipo de trabalho”, disse-me há alguns anos Richard Sambrook, então diretor da BBC World Service. A repórter de guerra Martha Gellhorn (terceira esposa de Hemingway), com quem Di Giovanni esteve várias vezes, certa vez disse algo aplicável à repórter de guerra ítalo-americana: “Um leopardo não modifica suas pintas”.

registrado em: